Como o mercado brasileiro deve abrir após escalada da guerra no Oriente Médio; veja previsões para dólar, juros e Bolsa
A escalada militar entre Estados Unidos, Israel e Irã no fim de semana deve colocar os mercados em modo de alerta na abertura desta segunda-feira (2). Investidores já se preparam para um pregão marcado por alta do petróleo, pressão sobre os juros futuros e maior aversão a risco nas bolsas. O foco agora é medir não apenas a intensidade do choque, mas principalmente sua duração, fator que pode determinar se o movimento será pontual ou o início de uma nova rodada global de estresse.
Artur Horta, head de análise da The Link Investimentos, afirma que “todas as atenções do mercado estão voltadas agora para o que vai acontecer no Estreito de Hormuz”, por onde passam cerca de 20% do petróleo e 25% do gás natural comercializados no mundo. Segundo ele, a região é estratégica para a principal commodity energética do planeta e qualquer restrição relevante de oferta tende a fortalecer o petróleo.
A gente espera uma alta do petróleo por conta dessa restrição de oferta. E isso vai pressionar os juros futuros, o dólar em diversos países e é um cenário muito ruim para as bolsas”, diz.
Petróleo em alta e modo proteção
O movimento já começou ainda na sexta-feira (27), quando os ruídos sobre um possível ataque ganharam força e o petróleo avançou cerca de 3%. Agora, com a ofensiva concretizada, o mercado monetário entrou em modo defensivo.
“Os mercados entraram em modo de proteção. Ouro subindo 3%, VIX [índice do medo] com 17% de alta e, em especial, o petróleo, que na máxima chegou a subir 12% e agora está em 8%“, explica Luan Aral, trader e analista CNPI-P da Genial Investimentos. Para ele, bolsas mais dependentes de energia importada, como as europeias, tendem a sentir mais o impacto.
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Rafael Costa, fundador da Cash Wise Investimentos, reforça que o primeiro reflexo é clássico em episódios de guerra: aumento da aversão a risco, busca por ativos de proteção e fortalecimento do dólar.
“Qualquer interrupção [de Hormuz] por muito tempo vai impactar os preços. Já começa a se falar em barril a US$ 80”, afirma.
Fernando Bresciani, analista do Andbank, lembra que hoje a cotação do petróleo já está subindo e a volatilidade deve se refletir em outros ativos: “Agora, DI futuro, bolsas, Treasuries (títulos públicos dos EUA), todo mundo vai sofrer”.
Basicamente, os especialistas argumentam que um petróleo mais caro significa mais inflação global. E inflação mais resistente implica juros elevados por mais tempo.
Juros futuros e dólar sob pressão
No Brasil, o impacto tende a ser particularmente sensível no mercado de juros. O ambiente até a semana passada era de expectativa por um novo ciclo de cortes da Selic ao longo de 2026, sustentado por desaceleração da atividade e melhora de percepção sobre a política monetária.
Mas esse cenário já vinha sendo colocado à prova. O IPCA-15 recente frustrou expectativas, e agora um choque adicional via petróleo pode complicar ainda mais o quadro. “Petróleo mais caro impacta a inflação mundial e brasileira, e isso empurra os juros para ficarem mais altos por mais tempo”, afirma Rafael Costa.
Luan Aral acrescenta que os juros futuros “em tese devem ganhar força pelo modo cautela e pela chance de o petróleo impactar a inflação global, diminuindo a probabilidade de mais cortes por aqui”.
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O efeito pode ser duplo: além do impacto direto sobre os preços de combustíveis e sobre as cadeias produtivas, há o componente cambial. Em momentos de aversão ao risco, o dólar tende a se fortalecer, movimento que encarece importados e pressiona as expectativas de inflação.
Esse comportamento, no entanto, vem na contramão dos recordes do dólar registrados já nesse ano. Após encerrar 2025 com desvalorização próxima de 10% frente a uma cesta de moedas (o pior desempenho desde a década de 1970), o dólar permaneceu pressionado. Em 2026, o U.S. Dollar Index (DXY) acumula queda de 2,57% e opera no menor nível desde fevereiro de 2022.
No Brasil, essa dinâmica global se refletiu em um movimento relevante de apreciação do real. O câmbio chegou a R$ 5,5199 em janeiro, mas recuou para R$ 5,1725 no dia 23, acumulando queda de 6,29% no ano até então. Na última semana, a moeda passou a orbitar a região de R$ 5,15, após mínima intradiária de R$ 5,11 e quatro sessões consecutivas de perdas, que somaram 1,63%.
Ainda acima do patamar pré-pandemia (na casa de R$ 4,50), o dólar tem oscilado semana após semana, refletindo um mercado mais seletivo, menos disposto a tratá-lo como porto seguro automático.
Bolsa: queda moderada ou proteção via commodities?
Para a Bolsa brasileira, o cenário é ambíguo. De um lado, o “playbook de guerra”, como define William Castro, estrategista-chefe da Avenue, indica saída de ativos de risco e redução de exposição a emergentes. “Tradicionalmente, você tem aumento da aversão a risco, investidores migrando para ouro, Treasuries e reduzindo posição em mercados emergentes”, explica.
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Agora pela manhã, antes da abertura do mercado, os preços do ouro operam em forte alta, ultrapassando o patamar de US$ 5.400 por onça-troy, à medida que investidores buscam ativos considerados seguros. Às 7h24 (de Brasília), o ouro para abril subia 2,98% na Comex, a US$ 5.404,50 por onça-troy. No mesmo horário, a prata para maio avançava 2,57%, a US$ 95,59 por onça-troy.
Ele pondera, porém, que o impacto tende a ser concentrado no curto prazo. Ao lembrar episódios como a Guerra do Golfo, destaca que quedas iniciais foram seguidas de recuperação ao longo dos meses seguintes.
“Em geral, você vê impacto de um ou dois dias e depois as coisas se atenuam”, afirma.
No caso brasileiro, há ainda o fator commodities. O Brasil é exportador de petróleo e minério, o que pode oferecer algum colchão de proteção ao Ibovespa. “Aqui no Brasil, a Bolsa pode não sofrer tanto, tendo em vista a alta do petróleo e do minério que podem beneficiar algumas firmas”, diz Luan Aral.
Artur Horta avalia que parte do movimento já foi precificada na semana passada, quando o envio de porta-aviões à região elevou a percepção de risco. “O mercado já esperava que esse conflito fosse escalar. Então, acho que a reação não vai ser muito exagerada, só mesmo no petróleo”, afirma. Para ele, a magnitude e a duração do movimento dependerão diretamente do tempo de eventual fechamento do Estreito de Hormuz. Caso a interrupção se limite a algumas semanas, o impacto pode ser pontual; se se prolongar, a reação tende a ser mais negativa.
O pano de fundo brasileiro
A tensão geopolítica ocorre em um momento peculiar para os ativos locais. Dados até fevereiro mostravam forte entrada de capital estrangeiro e um rali amplo na Bolsa brasileira, com recordes nominais e alta disseminada entre setores, movimento sustentado por liquidez e reprecificação de risco.
Em janeiro, o saldo líquido de recursos estrangeiros somou R$ 26,314 bilhões, acima de todo o fluxo registrado em 2025, que foi de R$ 25,473 bilhões. Até semana passada, estrangeiros já haviam aportado R$ 17,728 bilhões.
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O efeito sobre os preços foi imediato. O Ibovespa superou 183 mil pontos em janeiro, acumula alta de 12,91% no ano e 45,70% em 12 meses, e atingiu 191.280,41 pontos na quarta-feira passada (25). No dia 9 de fevereiro, fechou aos 186.241,15 pontos, renovando recordes pela décima vez em menos de um mês e meio, quase um terço das 32 máximas históricas registradas em todo 2025. Desde o último recorde do ano passado, em 4 de dezembro (164.455 pontos), o índice avançou mais de 21,7 mil pontos.
Esse pano de fundo pode amortecer parte do choque inicial, mas não o elimina. Em um cenário de escalada prolongada, fluxos para emergentes tendem a diminuir (reação oposta à registrada no 2º semestre do ano passado, quando o JPMorgan Chase, por exemplo, elegeu o Brasil como um de seus mercados acionários favoritos entre os emergentes), o dólar se fortalece globalmente e o custo de capital sobe, combinação desafiadora para ações.
Ou seja, a abertura desta segunda-feira (2) deve refletir três vetores principais:
- Petróleo pressionado para cima;
- Juros futuros em alta; e
- Bolsas sob viés negativo, ainda que com desempenho relativo possivelmente melhor no Brasil por causa das commodities.
O que definirá os próximos passos não é apenas a intensidade do ataque, mas sua duração e o desfecho no Estreito de Hormuz. No curto prazo, prevalece a cautela. No médio, a história mostra que os mercados tendem a se ajustar, desde que o conflito não se transforme em um choque prolongado de oferta global.
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Autor: Isabela Ortiz