Do ‘momento Kodak’ à recuperação: o que mudou na Intel em dois anos

Há pouco mais de dois anos, a Intel parecia caminhar para se tornar mais um caso clássico de uma antiga líder de tecnologia atropelada por uma nova era.
Em 2 de agosto de 2024, suas ações despencaram 26%, na maior queda em meio século. A fabricante anunciou a demissão de 15% dos funcionários, suspendeu o pagamento de dividendos pela primeira vez desde 1992 e preparava um corte de US$ 10 bilhões nas despesas.
O InvestNews chamou aquele dia de um possível “momento Kodak” da Intel, numa referência à fabricante de filmes fotográficos que não conseguiu acompanhar uma transformação tecnológica de seu mercado.
A comparação não parecia exagerada. A Intel havia perdido a onda dos smartphones, estava muito atrás da Nvidia na corrida pela inteligência artificial e também deixara de ser referência naquilo que deveria ser sua maior fortaleza: fabricar semicondutores.
A taiwanesa TSMC já estava anos à frente na produção dos chips mais avançados do mundo. A distância era tamanha que a própria Intel recorria à concorrente para fabricar alguns de seus melhores projetos.
Dois anos depois, a Intel ainda não alcançou a TSMC e tampouco ameaça a Nvidia no mercado de chips para IA. Mas aconteceu algo que parecia distante naquele agosto de 2024: a firma se afastou da beira do abismo.
Desde que o governo dos Estados Unidos entrou diretamente em seu capital, as ações da Intel mais que quadruplicaram. A companhia recebeu ainda US$ 5 bilhões da Nvidia e US$ 2 bilhões do SoftBank, e voltou a ser tratada como uma candidata plausível a oferecer uma alternativa americana à TSMC na fabricação dos semicondutores mais sofisticados.
Segundo o Financial Times, a intervenção também ajudou a afastar a possibilidade de uma divisão da companhia. A reviravolta começou com uma troca no comando.
Mudança no topo
Lip-Bu Tan assumiu como CEO em março de 2025, depois da saída de Pat Gelsinger. Herdou uma Intel que terminara 2024 com US$ 18,8 bilhões em perdas, receitas estagnadas e pressão crescente da AMD nos mercados de computadores e data centers.
A estratégia para criar processadores capazes de rivalizar com a Nvidia estava desorganizada e um importante acordo para fabricar um chip de IA da Arm havia fracassado. A encomenda acabou na TSMC.
Tan concluiu que a companhia precisava primeiro encolher para sobreviver. Em seis meses, cortou mais de 20 mil empregos, cerca de um quinto da força de trabalho, reduziu os investimentos e vendeu participações na Altera e na Mobileye por US$ 5,2 bilhões.
Também desmontou boa parte da antiga cúpula e reformulou a gestão da Intel Foundry, divisão criada para fabricar chips projetados por outras firmas. Era justamente aí que estava uma das maiores apostas, e um dos maiores problemas, da gestão anterior.
Gelsinger havia decidido em 2021 gastar dezenas de bilhões de dólares na construção de novas fábricas e transformar a Intel numa espécie de rival americana da TSMC, produzindo chips também para terceiros.
Os clientes, porém, demoraram a aparecer e a tecnologia de fabricação 18A, essencial para fechar o atraso em relação à concorrente taiwanesa, levou mais tempo que o previsto para ficar pronta.
A importância estratégica da Intel para Washington aproximava a companhia do governo americano, mas nem bilhões de dólares do Chips Act haviam sido suficientes para solucionar seus problemas. A firma precisava continuar investindo pesadamente em novas fábricas ao mesmo tempo em que seu balanço exigia cortes.
Foi justamente essa relação com Washington que mudaria de patamar um ano depois.
Em agosto de 2025, Donald Trump chegou a pedir publicamente a renúncia de Tan, após críticas às antigas ligações de investimento do executivo com firmas chinesas. O CEO procurou a Casa Branca e reuniu-se com Trump, o secretário de Comércio Howard Lutnick e o secretário do Tesouro Scott Bessent.
O resultado foi bem diferente de uma demissão.
O governo americano decidiu ficar com aproximadamente 10% da Intel. Para montar a participação exigida por Trump, recursos de incentivos à fabricação previstos no Chips Act e US$ 3,2 bilhões em contratos com o Departamento de Defesa foram convertidos em ações.
Foi a maior intervenção acionária federal em uma companhia americana desde o resgate da General Motors, em 2009, segundo o FT.
A entrada do governo teve um efeito que ia além do dinheiro. Para clientes que precisariam apostar bilhões numa nova fornecedora de chips, Washington estava dizendo que não deixaria sua campeã doméstica desaparecer.
Logo vieram outros sinais de confiança.
Mais investimentos
Além dos aportes de Nvidia e SoftBank, a Intel abriu conversas com novos clientes para suas fábricas e elevou de US$ 18 bilhões para US$ 20 bilhões sua previsão de investimentos em 2026.
No início deste ano, começou a produzir alguns de seus próprios chips mais avançados para PCs e servidores numa nova fábrica no Arizona, depois de anos dependendo da TSMC até para parte de seus melhores produtos.
A companhia também voltou a apostar na próxima geração de sua tecnologia fabril, a 14A. A Apple está testando processos da Intel com a possibilidade de transferir à firma a fabricação de alguns chips M de gerações mais antigas. Uma possível participação no projeto Terafab, de Elon Musk, também ajudou a alimentar as expectativas do mercado, embora os detalhes ainda sejam pouco claros.
Desafios continuam
Fontes da indústria ouvidas pelo FT dizem que a atual tecnologia 18A da Intel melhorou, mas ainda não há evidência incontestável de que tenha alcançado a equivalente da TSMC em eficiência, desempenho e rendimento de produção.
A próxima geração, 14A, terá um teste importante em outubro, quando uma nova versão de seu kit de desenvolvimento deverá permitir que potenciais clientes decidam se avançam para produção em escala.
Há ainda um problema quase diplomático. Grandes projetistas de chips dependem tanto da capacidade da TSMC que precisam ser cautelosos ao transferir encomendas para uma concorrente.
A Apple, por exemplo, poderia começar entregando volumes limitados e produtos mais antigos à Intel sem alterar significativamente sua relação com a fabricante taiwanesa. Ainda assim, esses contratos poderiam representar bilhões de dólares em novas receitas para a americana.
Na inteligência artificial, a estratégia também mudou.
Em vez de apostar tudo em processadores próprios para enfrentar frontalmente a Nvidia, Tan reduziu projetos que fracassaram ou foram abandonados e ampliou o foco em chips personalizados desenvolvidos em conjunto com grandes clientes.
A Intel anunciou em abril uma parceria com o Google e também se beneficiou da demanda por CPUs usadas para administrar cargas de trabalho de IA nos data centers. Um novo acelerador de IA previsto para o fim deste ano será outro teste para saber até onde vai essa recuperação.
Dois anos atrás, a pergunta era se uma companhia que dominou a era do computador pessoal estava se tornando uma nova Kodak, incapaz de acompanhar a mudança tecnológica seguinte.
Agora, a questão é outra: a Intel conseguiu dinheiro, apoio político e tempo para tentar uma recuperação. Falta demonstrar que consegue transformar tudo isso novamente em tecnologia competitiva.
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Autor: Redação InvestNews
