Nubank divulga balanço do 1T26 nesta quinta: o que o mercado vai medir além do lucro?

O mercado quer ver se o Nubank (ROXO34) consegue crescer sem abrir mão da qualidade. Essa é a leitura central que analistas trazem para o balanço do primeiro trimestre deste ano (1T26), divulgado nesta quinta-feira (14), após o fechamento do mercado norte-americano.
A companhia encerrou 2025 em alta: lucro líquido de US$ 894,8 milhões no quarto trimestre (4T25), crescimento de 50% na comparação anual, receita de US$ 4,86 bilhões, 131 milhões de clientes e carteira de crédito de US$ 32,7 bilhões. Esses números fizeram a alegria dos estrategistas, o problema é que o otimismo elevou a barra e tornou a leitura do 1T26 mais exigente.
É por conta desse movimento que, segundo os especialistas, o Nubank entrou em uma nova fase. O investidor já não se contenta apenas com crescimento acelerado de escala. Agora ele quer previsibilidade operacional, evolução de monetização e maturação do modelo de negócios. Crescer ainda importa, mas, a rentabilidade e qualidade da carteira passaram para o centro da análise.
“Mais do que números absolutos, o mercado deve avaliar a composição desse crescimento. A discussão central do trimestre não será apenas quanto o Nubank cresceu, mas principalmente como esse crescimento foi construído em termos de eficiência, risco e qualidade de geração de resultado”, diz Cristiano Luersen, especialista em investimentos e sócio da Wiser Investimentos.
“O mercado já ancorou que o Nubank entrega. A pergunta agora é se ele entrega bem. Crescer carteira com inadimplência sob controle e provisão proporcional é o que sustenta múltiplo”, completa Alexandre Abu-Jam, CEO da Klooks, firma de tecnologia voltada à análise financeira.
O que esperam os analistas
Entre os indicadores que merecem uma leitura mais atenta no balanço do 1T26, Leonardo Andreoli, especialista da Hike Capital, lista crescimento da carteira de crédito, receita por cliente ativo, margem financeira ajustada ao risco, inadimplência acima de 90 dias e custo de servir o cliente.
“Se o 1T26 vier com crescimento forte, mas acompanhado de provisões mais altas, aumento de despesas ou piora de inadimplência, a reação pode ser mais fria”, avalia.
Luersen acrescenta a eficiência operacional à lista, com foco na capacidade de continuar cortando custos enquanto a base de clientes cresce, e reforça a atenção ao México.
“Em instituições financeiras digitais, a velocidade de crescimento precisa estar acompanhada de disciplina rigorosa de concessão, precificação e gestão de risco. O mercado tende a penalizar qualquer percepção de crescimento obtido às custas de deterioração estrutural da qualidade dos ativos“, diz.
Abu-Jamra afunila a leitura para três pontos: o custo de risco (cost of risk), que reúne inadimplência efetiva e provisão, a margem financeira líquida (NIM, na sigla em inglês) ajustada a risco e o tipo de crédito que o banco está concedendo.
“Quem olha só o lucro líquido perde o ponto. O lucro vem; a questão é quanto está sendo financiado por aceleração de risco”, resume.
Do lado do que pode pesar no resultado, os especialistas apontam duas frentes. A primeira é a taxa básica de juros (Selic) ainda alta, que encarece o custo de captação do banco e aperta as margens, além de tornar mais difícil para as famílias honrar dívidas, sobretudo em crédito sem garantia. A segunda é o próprio ritmo de investimentos da companhia.
O JP Morgan enxerga este ano como um período de gastos crescentes em expansão internacional, tecnologia, inteligência artificial, marketing e até no retorno aos escritórios.
O Safra projeta lucro líquido de US$ 926 milhões no trimestre, crescimento de 3,5% frente ao 4T25 e de 66% na comparação anual, mas aponta que as despesas operacionais (opex) devem avançar 70,1% na comparação anual. A inadimplência acima de 90 dias deve subir para 6,8%, com custo de risco líquido de 15,4%.
Ainda assim, as casas de análise seguem com visão positiva. O JP Morgan trabalha com retorno sobre patrimônio líquido (ROE) acima de 30%, patamar já alcançado no 4T25, e vê o avanço das operações internacionais como fator de sustentação do resultado.
O Bank of America (BofA) chama atenção para a ausência dos efeitos extraordinários que beneficiaram trimestres anteriores.
O UBS BB, por outro lado, aponta que a alíquota efetiva de impostos pode se firmar em um patamar mais baixo do que o mercado costuma considerar, o que abre espaço para surpresas positivas nos lucros.
Já o Goldman Sachs mantém o Nubank como nome preferido entre os bancos digitais e projeta crescimento da receita de crédito entre 25% e 43% ao ano nos próximos três anos, mesmo em um ciclo de investimentos mais pesado.
Áreas de atenção: o que os investidores devem observar no balanço monetário
Mais do que o número em si, o resultado do 1T26 vai funcionar como um termômetro para o ano inteiro, segundo analistas. O que o mercado quer ler nas entrelinhas é a direção: o Nubank segue crescendo com disciplina ou está acelerando à custa de mais risco?
A conferência de resultados vai importar tanto quanto os dados divulgados, dizem os especialistas, porque o que a diretoria sinalizar sobre crédito, expansão e alocação de capital vai definir as expectativas para os trimestres seguintes.
“A atenção deve se concentrar principalmente na dinâmica do custo de crédito, comportamento da inadimplência, evolução da rentabilidade e capacidade de ampliação de receita por cliente. O mercado também deve observar se a companhia continua demonstrando capacidade de ganho de escala operacional sem necessidade proporcional de expansão de despesas”, diz Luersen, da Wiser.
Três sinais vão determinar como o mercado lê o 2T26 a partir do que aparecer agora. O primeiro é a trajetória das provisões. No 4T25, elas subiram 26% em um único trimestre por conta da expansão de limite de crédito. Se o 1T26 mostrar que foi um movimento pontual já absorvido, o segundo trimestre chega mais limpo. Se a aceleração persistir, o problema se arrasta.
O segundo sinal vem do México. A receita média por cliente ativo (Arpac) saiu de US$ 12,5 no terceiro trimestre de 2025 (3T25) para US$ 15 no 4T25, convergindo com o Brasil mais rápido do que o esperado.
Se o 1T26 confirmar essa trajetória, apontam os analistas, o México deixa de ser promessa e passa a mover os números de verdade.
O terceiro sinal é o avanço em novos produtos, como crédito consignado próprio, seguros e crédito imobiliário, que hoje ainda roda via Creditas. É nessas frentes, avaliam os especialistas, que a avaliação de uma fintech começa a se aproximar da de um banco completo.
Vale a pena ter o Nubank na carteira de investimentos?
O Nubank chega ao balanço desta quinta com as ações no negativo e o mercado exigente. Em seis meses, os papéis acumulam queda de cerca de 18% em Nova York, onde a ação (NU) saiu de US$ 18,76 em janeiro para US$ 13,51 em março, o piso do período. No Brasil, o BDR ROXO34 caiu 24,39% no mesmo intervalo, com média de R$ 10,88, depois de ter chegado a R$ 16,32 também em janeiro.
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Um resultado ruim não derruba a tese, mas um resultado bom pode reacender o interesse, segundo Abu-Jamra. “A tese estrutural só muda se aparecer surpresa em uma das três pontas: deterioração relevante de crédito, freada na monetização do México ou ruído regulatório”, pontua.
O consenso das casas de análise segue com recomendação de compra, com preço-alvo entre US$ 15,30 e US$ 20. O que ninguém quer ver, reforçam os estrategistas, é lucro subindo enquanto a inadimplência e o custo de risco sobem junto, porque aí o crescimento começa a parecer caro demais. Para quem está fora do papel esperando uma entrada, o balanço desta quinta é o teste que faltava.
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Autor: Murilo Melo
