O cenário teria de piorar muito para o BC não cortar a Selic de novo em setembro, diz Solange Srour, do UBS
O Banco Central vai cortar os juros mais uma vez em setembro – se nada der muito errado até lá. Essa é a percepção da da diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, Solange Srour, em entrevista ao InvestNews, sobre a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) nesta quarta-feira (5).
O colegiado reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual de 14,25% para 14% ao ano. Foi o quarto corte seguido.
Uma quinta redução deve ocorrer no próximo mês, ainda que o comunicado do Copom tenha ressaltado que qualquer decisão vai depender dos novos dados divulgados até lá.
“Se o BC quisesse anunciar uma pausa, teria dito isso claramente — o que não aconteceu.”
A principal questão, no entanto, é o que acontece depois de setembro. Além do mês que vem, o Copom tem mais duas reuniões, entre 3 e 4 de novembro e de 8 a 9 de dezembro.
O espaço para a continuidade do ciclo de cortes, porém, ficou mais estreito. E não deve melhorar até 2027, pelo menos.
Inflação mais comportada ajudou
O comunicado da decisão de quarta-feira reforçou a preocupação com os rumos da “desancoragem” das expectativas de inflação, sobretudo para 2027 e 2028.
Desancoragem, no caso, é a incerteza, a desconfiança, sobre os rumos da inflação no futuro e sobre a capacidade do próprio Banco Central de trazê-la para a meta, de 3% ao ano.
A ideia de um próximo corte, além deste, passou a figurar nas projeções do mercado em meio a uma inflação mais comportada nos últimos meses.
Os dados do IPCA de junho e do IPCA-15 de julho mostraram uma alta de preços bem mais contida do que o esperado.
O IPCA cheio fechou junho em apenas 0,16%, uma desaceleração significativa comparada ao 0,58% de maio.
O IPCA-15, visto com uma prévia do índice inteiro, mostrou que, no meio de julho, a inflação mensal tinha desacelerado ainda mais, para 0,06%.
Além da inflação, Srour aponta o “câmbio bem comportado” como outro fator que tem ajudado o BC recentemente. A diretora do UBS acredita ser “difícil que as expectativas se desancorem o suficiente”, até a próxima reunião, para fazer o Copom mudar de rota.
Foco no Focus
O cenário-base do UBS coloca na conta mais um corte de 0,25 ponto a Selic, seguido de uma pausa. Depois disso, segundo a economista, o Copom não deve se mover tão cedo – primeiro porque a decisão ficaria colada à eleição; segundo, porque a própria projeção de inflação do BC para o horizonte relevante (até o primeiro trimestre de 2028), já está em linha com a meta.
No comunicado, o BC projetou uma inflação anualizada de 3,2% em março de 2028. A estimativa leva em conta as condições colocadas no boletim Focus, que reúne as estimativas de instituições financeiras sobre juros, câmbio, inflação e PIB.
O consenso dessas projeções coloca a Selic em 13,75% ao ano no fim de 2026 e em 12%, no encerramento de 2027.
O que poderia interromper esse eventual corte em setembro? Para a economista, seria necessário algum estresse capaz de elevar as expectativas de inflação de forma persistente – como uma depreciação cambial mais forte ou a notícias fiscais piores, com a perspectiva de mais gastos do governo (que alimentam a inflação e, assim, puxam os juros para cima).
Fed pode “chacoalhar” os mercados
Se o front doméstico parece relativamente estável no curto prazo, o mesmo não vale para o cenário externo.
A diretora do UBS aponta a política monetária americana como o fator com maior potencial de desorganizar a política monetária brasileira nos próximos meses.
O ponto crítico não é apenas se o Fed (o BC americano) vai subir os juros em setembro – é como o mercado vai interpretar esse movimento.
Na visão da economista, mesmo que uma alta do Fed já esteja “nos preços” do mercado, ou seja, que os investidores já peçam prêmios considerando o cenário de elevação dos juros, o mercado tende a reagir com força se entender que o Fed está começando um novo ciclo de aperto, e não fazendo um ajuste isolado.
“Isso certamente traria, na minha opinião, um dólar mais forte”, afirma, já que reduziria a diferença entre as taxas do Brasil e dos EUA.
Essa diferença, que está em 10,25 pontos percentuais, ajuda a atrair dólares para o mercado brasileiro. E esse fluxo mantém o real mais estável frente à moeda americana.
Com uma redução dessa distância das taxas, há menos atratividade para os estrangeiros continuarem trazendo recursos para o mercado brasileiro, o que, por consequência, pode levar a uma depreciação do real.
As incertezas do cenário pós-eleitoral
Solange Srour vê ainda o cenário pós-eleitoral como uma grande incerteza.
“Em 2027, a política monetária brasileira estará totalmente dependente de como o mercado vai olhar os quatro anos de situação fiscal do próximo governo”, afirmou a economista.
Isso significa que um ritmo de queda mais forte da Selic ou mesmo a projeção de uma taxa básica de 12% no fim do ano que vem, como prevê o Focus, não estão garantidos.
Se houver uma percepção de descontrole do endividamento público [a face mais visível do aumento de gastos], o resultado será uma subida ainda mais acentuada do que a atual dos juros futuros no Brasil. Nesse cenário, o espaço para a retomada do ciclo de queda da Selic ficaria mais apertado. Ou, até mesmo, inexistente.
Apesar desse risco, Srour acredita que o tema de ajuste fiscal “vai se impor” no próximo governo, seja quem vencer a eleição. “O custo de não enfrentá-lo é alto. Com o juro real [acima da inflação] girando em torno de 8% em todos os prazos, o impacto sobre a atividade econômica é certo.”
As projeções de mercado indicam que a dívida pública pode alcançar 95% do PIB em 2030 – bem mais que os já perigosos 82% de hoje. Se nada for feito, esse caminho é bem conhecido dos brasileiros: real depreciado, juros em alta, inflação pressionada e, potencialmente, um novo ciclo de alta de juros.
Além disso, quanto mais o governo demorar para endereçar o tema, maior o risco de que a decisão seja tomada sob a pressão de uma crise, e não de forma planejada.
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Autor: Sérgio Tauhata

