Como uma licitação na Argentina se tornou o novo embate na guerra comercial entre EUA e China
Uma licitação governamental na Argentina evidenciou as tensões entre Washington e Pequim na América Latina, à medida que o governo do presidente Javier Milei concedeu um contrato de 25 anos para modernizar uma importante rota comercial a um consórcio com histórico de vínculos com a China.
Autoridades do governo Milei anunciaram na última quinta-feira (4) à noite que a Jan de Nul, uma firma belga de dragagem, venceu a licitação para expandir e manter o canal de navegação do rio Paraná.
O aprofundamento dessa crucial rota de exportação e importação para a região do Cone Sul, incluindo o Brasil — que vai do estuário em Buenos Aires ao interior, até o maior polo de carregamento de grãos do mundo em Rosário e além —, exigirá cerca de US$ 10 bilhões.
Para a firmas perdedora na licitação, o DEME Group — outra firma belga de dragagem, favorita de uma série de interesses americanos —, o problema é que a parceira da Jan de Nul no projeto é a Servimagnus, uma firma local que trabalhou por anos com a estatal chinesa CCCC Shanghai Dredging.
As autoridades do governo Milei deram aos participantes até o final da semana que começa para apresentar contestações à decisão.
A parceira americana da DEME, a Great Lakes Dredge & Dock, disse que avalia suas opções. “Estamos desapontados com o anúncio”, disse Chris Gunsten, vice-presidente sênior de serviços de projetos. “É um mau sinal para os investidores americanos.”
Uma vitória do consórcio Jan de Nul-Servimagnus pode colocar o próprio Milei em uma situação difícil.
O líder libertário proibiu entidades estatais de participar da licitação, em uma medida amplamente vista como uma iniciativa de um dos aliados mais ferrenhos do presidente Donald Trump para excluir a China.
No entanto seus subordinados concederam o contrato a um consórcio que alguns republicanos alertaram ser uma firma de fachada para Pequim.
Vencedora nega laços com China
Embora a Servimagnus tenha trabalhado com a Shanghai Dredging em vários projetos no estuário do Rio da Prata e na costa atlântica nas últimas duas décadas, o consórcio nega veementemente que haverá qualquer participação chinesa nas novas operações no Paraná.
O que parecia uma licitação de infraestrutura comum ganhou um caráter geopolítico logo após Trump e o secretário do Tesouro Scott Bessent socorrerem Milei durante um período de turbulência política e no mercado de capitais no final do ano passado.
O presidente americano, que tem buscado reafirmar a influência de Washington sobre a América Latina após ver Pequim expandir enormemente sua presença na região, disse a Milei na época que os laços da Argentina com a China deveriam se restringir apenas ao comércio.
O rio Paraná rapidamente se tornou um ponto de conflito.
O que está em jogo é o futuro de uma hidrovia vital não apenas para a Argentina — que escoa a maior parte de sua vasta produção agrícola pelo rio e também depende dele para as importações — mas também para os vizinhos sem saída para o mar, Paraguai e Bolívia. O Brasil também o utiliza para exportações de minério de ferro.
“O controle e a governança de infraestruturas críticas adquiriram uma importância geopolítica nem sempre vista no passado”, disse Antonio Sanchez, especialista argentino em infraestrutura de transporte marítimo da consultora panamenha Talasonomica, citando o recente fechamento do Estreito de Ormuz no Oriente Médio.
“A infraestrutura costumava ser vista principalmente em termos econômicos ou produtivos, mas agora tem valor geopolítico.”
Benjamin Gedan, diretor do programa para a América Latina do Centro Stimson, destacou como a Casa Branca adotou oficialmente essa visão para as Américas em sua Estratégia de Segurança Nacional de novembro.
O documento afirmava que as alianças americanas “devem estar condicionadas ao encerramento de influências externas adversárias — desde o controle de instalações militares, portos e infraestruturas estratégicas até a aquisição de ativos estratégicos.”
Essa estratégia se concretizou no início deste ano, disse Gedan, quando o governo do Panamá rescindiu contratos portuários com firmas chinesas ao longo de seu canal e Pequim revidou.
Portanto, talvez não surpreenda que a proposta da DEME para o Paraná tenha atraído o apoio de players americanos, incluindo a Great Lakes, a gigante de private equity KKR e a Corporação de Finanças para o Desenvolvimento Internacional dos EUA, que depois fizeram lobby em Washington por ajuda.
Sanchez também destacou o recente envolvimento do Corpo de Engenheiros do Exército americano na manutenção de hidrovias na América do Sul.
“Muitas vezes, os EUA são motivados por ressentimento e simplesmente reclamam do perigo dos investimentos chineses e do financiamento de infraestrutura na região”, disse Gedan, citando o extenso porto de Chancay na costa do Pacífico do Peru.
“Neste caso, há uma alternativa americana que Washington está promovendo, o que reflete certo reconhecimento de que, se os EUA querem superar a China, deveriam de fato competir — mesmo que seja desconfortável para os governos ficarem no meio do caminho.”
Embora Milei tenha se aproximado de Trump e até atraído investimentos americanos para o promissor polo de petróleo de xisto da Argentina, ele também reconheceu que a economia do país simplesmente não conseguiria prosperar sem o comércio com a China. Isso pode ter sido um fator na licitação do Paraná, potencialmente colocando Milei em uma posição delicada.
“Pequim pode ter ficado insatisfeita se sentisse que os EUA mais uma vez expulsaram uma firma chinesa de um contrato importante, como ocorreu no Panamá”, disse Gedan.
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Autor: Marcelo Sakate