A força invisível de Dior, Prada e Gucci: as bordadeiras indianas e a arte do luxo

Quando Karishma Swali entrou pela primeira vez no atelier de seu pai, ainda criança em Mumbai, a música clássica indiana preenchia o ambiente enquanto artistas têxteis trabalhavam juntos em silêncio. Assim como a música tinha seus maestros, seu pai lhe dizia, os bordadores também eram mestres.
“Lembro de sentir uma reverência enorme por eles”, diz ela.
Seu pai, Vinod Shah, fundou a firma têxtil Chanakya International em 1984, que já trabalhou com mais de 30 das principais casas de luxo do mundo, incluindo Christian Dior, Prada, Gucci e Schiaparelli.
Swali trabalha na Chanakya há mais de 30 anos e é diretora-geral e criativa há mais de duas décadas.
Ela supervisiona uma equipe de cerca de 2.400 artesãos e fundou a Chanakya School of Craft, onde treina a próxima geração de bordadores para manter viva uma herança cultural de mais de 5.000 anos.
Nos últimos anos, ela levou a arte da Chanakya para a Bienal de Veneza e para a Biblioteca do Vaticano, em Roma. Com sua filha, Avantika, lançou recentemente a Chorus, um atelier de roupas prêt-à-porter.
Aqui, Swali, 49 anos, que vive em Mumbai, fala sobre a espiritualidade do seu trabalho, os desafios de fundar uma escola e como preserva um ofício em risco de desaparecimento.
O que inspirou seu pai a criar a Chanakya?
Vimos de uma pequena vila em Gujarat, onde cada vila celebra a cultura por meio do artesanato. Ele fundou a Chanakya com a ideia de compartilhar com o mundo nossas identidades coletivas e mostrar como os têxteis sempre foram uma parte essencial do que a Índia é.
Como foi crescer no atelier do seu pai?
Somos uma família bastante espiritual e rezávamos juntos quase todas as manhãs. Meus pais frequentemente falavam sobre um conceito das escrituras chamado samu purushartha. Samu significa aproximadamente “juntos” e purushartha significa “esforço”.
A essência dessa filosofia é que, quando se faz algo coletivamente, o resultado é exponencialmente mais belo do que individualmente. Eles explicavam isso de forma espiritual, mas eu não entendia. Depois, quando comecei a frequentar os ateliês, percebi: isso é samu purushartha. E o fato de me deixarem participar, lembro que quando criança eu me sentia especial.
Quais valores foram transmitidos na sua família?
Um dos valores principais é que meu pai sempre diz que, a menos que todos ganhem, não é uma vitória. Então isso permanece conosco: todos os envolvidos precisam vencer.
O que torna o bordado e os têxteis indianos especiais para a moda global?
A Índia teve uma enorme influência na cultura mundial por meio dos têxteis. Houve uma época em que o musselina indiana era o tecido mais cobiçado do mundo. Se você olhar para a França no século XVII, a Índia exportava tecidos extremamente refinados, como sedas, chintz e produtos da costa de Coromandel.
O mesmo vale para os bordados. Já no século XVI, enviávamos bordados para o mundo inteiro. É fascinante pensar como essa história continua. Graças a esse patrocínio ininterrupto, houve capacidade de evolução, excelência e inovação. Hoje, em muitos sentidos, a Índia é o centro da alta-costura e dos tecidos feitos à mão.

O custo foi um motivo para marcas de luxo buscarem têxteis na Índia?
Dentro da alta-costura e do prêt-à-porter de altíssimo nível, o motivo pelo qual o bordado indiano é tão procurado é porque ele é de excelência. Além disso, sejamos honestos: essas habilidades foram perdidas em outras partes do mundo. Então, se você quer criar uma obra-prima que exige centenas ou milhares de horas, talvez este seja o único lugar onde isso ainda seja possível.
Qual trabalho mais te orgulha?
Quando fizemos o desfile da Dior de outono de 2023 na Índia, fomos encarregados de criar uma grande obra têxtil. Fizemos um enorme toran, uma forma tradicional indiana de recepção — algo que toda vila tem, geralmente feito pelas mulheres da casa.
Foram mais de 1.008 peças criadas por diferentes mestres e artesãs. Foi um exercício lindo de expressão criativa livre, unindo história e vozes individuais.

Foi difícil criar a escola de artesanato?
A resposta curta é sim. No início, achei que o mais difícil seria criar um currículo robusto, global e relevante. Mas depois que isso ficou pronto, ninguém aparecia na escola.
Comecei a ir de porta em porta em comunidades carentes, explicando a visão. Dizia que a escola era gratuita. Mesmo assim, com muita desconfiança, 22 mulheres apareceram para tentar — muitas acompanhadas por maridos ou sogras, que ficavam esperando.
Olhando dez anos depois, hoje temos uma comunidade de 1.400 mulheres e uma lista de espera para entrar na escola.
Por que as pessoas ainda devem se importar com o fazer manual?
O ato físico de criar com as mãos é talvez o mais forte gesto humano. Felizmente, a inteligência artificial não pode substituir isso.
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Autor: Karla Mamona