Para Latam, combustível continuará caro até o fim do ano e mais cortes de voos são possíveis

O preço do querosene de aviação não deve recuar até o fim de 2026. E se permanecer elevado até 2027, o mercado aéreo da América do Sul pode ver mais cortes de voos e até de rotas.
O alerta é de Roberto Alvo, CEO da Latam Airlines, maior grupo aéreo da região, durante coletiva de imprensa realizada na Assembleia Geral da Iata neste sábado (6).
“Mesmo que o conflito no Oriente Médio cessasse hoje, provavelmente ainda veríamos preços altos por um tempo”, disse Alvo. “Nosso cenário é de preços elevados pelo restante do ano.”
O executivo afirmou que, se os preços não caírem significativamente até 2027, a indústria deverá promover um “reequilíbrio de capacidade”.
Na prática, o movimento já começou: em junho, a Latam opera quase 3% menos voos do que havia planejado originalmente para o mês, corte decidido pela própria companhia em razão do aumento do combustível.
Ainda assim, Alvo tenta separar a situação da Latam da do restante da indústria. “Este é o momento em que se percebe que um balanço monetário sólido é uma vantagem competitiva”, disse. O grupo, que emergiu de um processo de recuperação judicial nos EUA em 2022, diz ter a menor exposição ao tráfego mais sensível ao preço do combustível entre as companhias da região.
Um dos fatores que protege o grupo é o crescimento acelerado do segmento premium. “O tráfego de cabine executiva está crescendo mais rápido do que nossa capacidade e do que nossa receita”, afirmou Alvo. “São passageiros que continuam voando independentemente da situação.”
Se o cenário de combustível caro comprime margens, o mercado doméstico brasileiro aparece como a principal alavanca de crescimento do grupo. Alvo citou dado da Iata: dos dez maiores mercados domésticos do mundo, o Brasil foi o que mais cresceu no ano passado – embora o total de voos do país ainda seja menor do que em 2019.
O país tem 0,5 passageiro por habitante ao ano, um quinto da média de países desenvolvidos e metade da média de regiões comparáveis. “O potencial está lá”, disse o executivo. “O que precisamos são políticas públicas que permitam à indústria se desenvolver.”
Para capturar esse crescimento, a Latam aposta nos 50 jatos regionais Embraer E2 que começam a chegar ao fim deste ano. A estratégia, segundo Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil, é aumentar frequências em rotas já existentes e abrir novos destinos em cidades menores. A expectativa é de que os novos voos e destinos sejam divulgados até o fim de julho.
O espaço deixado pelo Peru
Um risco menos óbvio para o crescimento do grupo, e que pode afetar diretamente passageiros brasileiros, vem do Peru.
Lima é o principal hub da Latam para conexões entre a América do Sul e o Caribe, e estava no centro dos planos da companhia para operar o novo Airbus A321XLR em rotas de longo alcance para a Europa.
Mas uma taxa de conexão cobrada pelo aeroporto de Lima (cerca de US$ 25 por trecho) está freando o desenvolvimento dessas rotas. O tráfego entre Santiago e Lima caiu quase 10% no último ano, segundo os executivos.
“Dadas as circunstâncias, a probabilidade de concretizar os investimentos que planejamos no Peru caiu”, admitiu Alvo.
Com Lima em dúvida, a Latam avalia alternativas para sediar as operações do XLR: Fortaleza e Brasília estão na lista. Para o Nordeste, em particular, isso pode representar voos diretos para a Europa, uma rota historicamente inexistente na região.
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Autor: Raquel Brandão