A engenharia do Brasil precisa ser mais reconhecida. O fundador da VTEX tem um plano
O Brasil formou quase 129 mil engenheiros em 2018. Seis anos depois, esse número havia caído para menos de 94 mil. No mesmo período, o país diplomou quatro vezes mais administradores e quase duas vezes mais advogados.
Para Mariano Gomide, fundador e CEO da VTEX, o recuo não significa que falte talento ao país. O principal problema, em sua avaliação, é que o Brasil ainda não aprendeu a comunicar sua engenharia — nem para o mundo, nem para os jovens que estão escolhendo uma profissão.
A VTEX é uma firma que desenvolve softwares para o varejo, em especial para o e-commerce, listada na Bolsa de Nova York (NYSE). A engenharia, portanto, é parte essencial do seu quadro de funcionários.
Gomide tenta mudar isso com o Brazilian Engineering, movimento que já reúne mais de 100 firmas dispostas a assinar publicamente seus produtos e serviços para o mundo como resultado da engenharia brasileira.
A inspiração é o “Made in China”, expressão que levou décadas para deixar de ser associada a produtos baratos e passar a representar escala, tecnologia e precisão industrial.
Na visão do executivo, o Brasil já tem ativos suficientes para sustentar essa marca. O avião mais vendido do segmento privado nos Estados Unidos é brasileiro.
A WEG está entre as maiores fabricantes de motores elétricos do mundo. A Eve Air Mobility desenvolve um dos principais projetos de aeronaves elétricas para mobilidade urbana. A própria VTEX exporta software brasileiro para 46 países.
O que falta, segundo ele, é apresentar essas histórias como partes de uma mesma competência nacional.
“É apenas o reconhecimento de algo que já existe”, afirmou Gomide, em entrevista ao programa Argumento IN, do InvestNews. “As firmas brasileiras não assinam a engenharia brasileira e não se orgulham disso.”
A definição de engenharia usada por ele é mais ampla do que a atividade técnica tradicional. Inclui raciocínio matemático, capacidade de estruturar problemas, desenvolver produtos e encontrar soluções sob pressão.
É essa formação, argumenta, que explica por que tantos engenheiros são contratados por bancos, consultorias e firmas de tecnologia. Segundo Gomide, cerca de 90% dos formados em engenharia mecânica e elétrica acabam trabalhando fora da função sugerida pelo diploma.
firmas como Itaú, Nubank, XP, Stone e VTEX disputam esses profissionais não para projetar máquinas ou circuitos, mas para desenvolver produtos, analisar dados e resolver problemas complexos.
Essa distância entre o nome do curso e o destino profissional ajuda, na visão dele, a afastar candidatos.
“Você quer trabalhar em consultoria? Você quer trabalhar em banco? Você quer trabalhar em tecnologia? Você quer empreender? A engenharia mecânica, elétrica, mecatrônica, de produção ou civil vai capacitar você para essas profissões”, disse.
Gomide defende até que o Ministério da Educação reveja a nomenclatura de algumas graduações. A engenharia mecânica, por exemplo, poderia ser apresentada também como uma formação voltada a consultorias e firmas de tecnologia.
A mudança de comunicação, afirma, poderia ajudar a ampliar a participação feminina. Hoje, mulheres representam aproximadamente 20% dos formados em engenharia no Brasil, com presença ainda menor em cursos como mecânica, elétrica e mecatrônica.
Uma janela aberta
A defesa de mais engenheiros brasileiros não nasce apenas da demanda interna. Gomide acredita que as tensões geopolíticas abriram uma oportunidade rara para o país.
China, Índia, Rússia e Leste Europeu estão entre os maiores polos formadores de engenheiros do mundo. Na avaliação do executivo, essas regiões permanecerão mais expostas a disputas comerciais, conflitos e riscos geopolíticos nos próximos dez a 15 anos.
O Brasil, por outro lado, combinaria segurança, proximidade dos Estados Unidos e capacidade de formar profissionais em escala. Companhias como AWS, Meta, Google, Microsoft e Anthropic já buscam engenheiros brasileiros, segundo Gomide, pela criatividade, eficiência e capacidade de trabalhar em cenários de pressão.
“O Brasil tem o ônus e o bônus de ser irrelevante economicamente para o mundo”, disse. O país seria pouco relevante para se tornar alvo de grandes conflitos, mas grande o suficiente para fornecer mão de obra, tecnologia e infraestrutura.
Essa posição também poderia transformar o Brasil em uma base de nearshoring: firmas estrangeiras instalariam aqui centros de desenvolvimento voltados para os Estados Unidos, aproveitando a proximidade de fuso horário e a menor exposição geopolítica.
Mas aumentar o número de engenheiros exige também impedir que tantos estudantes abandonem a faculdade.
Gomide cita o caso da UFRJ, onde, segundo ele, a evasão nos cursos de engenharia chega a 60%. Reduzir essa taxa pela metade elevaria em cerca de 80% o número de formados, sem que fosse necessário abrir uma única vaga nova.
O executivo participa do Reditus, fundo patrimonial que apoia estudantes de engenharia da universidade. Em muitos casos, diz ele, ajudas relativamente pequenas — para transporte, livros ou participação em competições — são suficientes para evitar que um aluno deixe o curso.
O Brazilian Engineering, porém, não pretende esperar por uma política coordenada pelo governo. Gomide aposta na mobilização de firmas, universidades, professores e fundos patrimoniais. A marca é pública, não tem proprietário e pode ser adotada por qualquer companhia.
Ele reconhece que o resultado não virá rapidamente. A transformação do “Made in China” levou décadas, e sua aposta para a engenharia brasileira também é de longo prazo.
Na VTEX, diz já perceber os primeiros efeitos. Desde que a firma começou a apresentar seus produtos como resultado da engenharia brasileira, aumentou a qualidade das candidaturas a seus programas de entrada.
Recentemente, em uma feira em Hamburgo, na Alemanha, funcionários da companhia usavam “Brazilian Engineering” estampado nas costas. Segundo Gomide, executivos alemães reagiram com interesse — uma resposta diferente do preconceito que a própria firma temia enfrentar.
“Antes, a gente tinha medo”, afirmou. “Era uma barreira mental, não uma barreira de fato.”
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Raquel Brandão

