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Shein, que fez fama com fast fashion sem grife, agora busca marcas mais conhecidas

Em reuniões com investidores para apresentar a oferta pública inicial de ações (IPO) da Shein neste mês, o reservado fundador da firma, Sky Xu, abordou o maior desafio enfrentado pela gigante do fast-fashion que já ameaçou transformar a indústria global de vestuário.

Vestindo camiseta branca e calça social, Xu, que também é CEO da firma, disse que a própria marca Shein já não consegue impulsionar o rápido crescimento com o qual a companhia contava anteriormente.

Para continuar se expandindo, segundo ele, a Shein busca comprar outras marcas de moda ou firmar parcerias com elas e usar sua cadeia de suprimentos de rápida resposta na China para aumentar as vendas e as margens dessas firmas, de acordo com pessoas familiarizadas com suas declarações.

IPO da Shein é uma “down round”

A gigante do fast-fashion está abrindo seu capital por uma fração de sua avaliação máxima.

Entrevistas com mais de uma dúzia de investidores e pessoas ligadas à firma oferecem uma visão inédita da estratégia apresentada por Xu enquanto a Shein busca seu próximo motor de crescimento.

No centro do plano está a ambição de se tornar a “Amazon Web Services da indústria da moda”, uma descrição usada por executivos da Shein em reuniões com investidores.

Assim como a AWS é onipresente no ambiente online ao fornecer a infraestrutura digital para os sites de outras firmas, a Shein quer que marcas consolidadas e emergentes utilizem sua infraestrutura de cadeia de suprimentos baseada na China para crescer.

A rede inclui mais de 7.500 fabricantes terceirizados, designers independentes, comerciantes e outros parceiros.

“A cadeia de suprimentos da China é, simultaneamente, uma das maiores vantagens competitivas da Shein e um de seus maiores riscos estratégicos de concentração”, disse Shen Bin, professor de negócios da Universidade Donghua, em Xangai, cuja pesquisa se concentra em cadeias de suprimentos do setor de moda.

“Essas capacidades são extremamente difíceis de replicar em outros lugares. Ao mesmo tempo, essa concentração expõe a Shein a tarifas, tensões geopolíticas, questões trabalhistas e controvérsias relacionadas à sustentabilidade.”

Virada nos negócios

A nova estratégia já enfrenta obstáculos.

No início deste ano, a Shein comprou a Everlane Inc., uma marca americana de roupas voltada ao público millennial, por cerca de US$ 80 milhões.

O negócio foi concluído, mas o Comitê de Investimento Estrangeiro nos Estados Unidos (CFIUS), um painel interministerial liderado pelo Departamento do Tesouro americano, está realizando uma análise de segurança nacional da aquisição.

O deputado americano John Moolenaar, republicano que preside o Comitê Seleto da Câmara sobre a China, criticou nesta semana bancos de Wall Street, incluindo o Goldman Sachs, por trabalharem no IPO.

Nos documentos do IPO, a Shein revelou lucros mais fracos e desaceleração no crescimento das vendas. As condições estão longe de serem ideais para uma oferta pública, mas a Shein avança rapidamente para abrir seu capital após obter aprovação regulatória chinesa, enquanto seus primeiros investidores ficam cada vez mais impacientes à espera de uma saída, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

Mesmo com a avaliação reduzida, a Shein continua sendo uma firma de grande porte para os padrões da indústria da moda. Sua receita líquida de US$ 41,8 bilhões em 2025 a coloca entre as cinco maiores firmas de vestuário e calçados do mundo em vendas, segundo seus documentos.

Agora, Xu pede aos investidores que acreditem que a mesma equipe que construiu a Shein do zero e a transformou em uma gigante do varejo de moda online em menos de uma década conseguirá recuperar o ritmo da firma.

A avaliação de US$ 100 bilhões da companhia em 2022 foi “estabelecida em um mundo muito diferente”, disse Achim Berg, fundador da FashionSights, consultoria alemã, e ex-chefe global da área de vestuário e luxo da McKinsey & Co. “Hoje, os investidores estão questionando se o modelo funciona da mesma maneira sob as novas condições.”

Um representante da Shein se recusou a comentar a reportagem e não disponibilizou Xu para entrevista.

Mudança de estratégia

Fundada em Nanjing, em 2012, por um grupo que incluía Xu, a Shein construiu seus negócios a partir de uma combinação poderosa de previsão de demanda baseada em dados e uma ampla rede de fabricantes terceirizados na China.

Isso permitiu que a firma aumentasse rapidamente a produção de itens assim que eles começavam a ganhar popularidade, reduzindo o risco de estoque que há muito tempo afeta as firmas do varejo.

Em vez de mirar o enorme mercado consumidor chinês, a Shein voltou-se para o exterior, atraindo milhões de consumidores nos Estados Unidos e na Europa com preços extremamente baixos e uma enxurrada de novos modelos.

A firma também se beneficiou de isenções de tarifas alfandegárias para pequenas encomendas enviadas pelo correio. A fórmula deu certo e atraiu investimentos iniciais de firmas como Sequoia China, hoje conhecida como HSG, e IDG Capital.

Embora a Shein tenha construído sua reputação vendendo diretamente aos consumidores, sua mudança mais recente mostra que o modelo de globalização que sustentou sua ascensão chegou a um limite.

Barreiras comerciais nos Estados Unidos e na Europa elevaram os custos de seu principal negócio de comércio eletrônico, enquanto uma tentativa de diversificação para um marketplace de terceiros, semelhante ao Amazon.com Inc. e ao Temu, controlado pela PDD Holdings, foi marcada por problemas de controle de qualidade e produtos controversos, como bonecas sexuais.

Embora o negócio de intermediar vendas de outros comerciantes tenha representado cerca de 14% das vendas no primeiro trimestre de 2026, a Shein não está mais focada nessa operação, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto.

A estratégia apresentada aos investidores, em vez disso, posiciona cada vez mais a Shein como uma fabricante de moda que trabalha nos bastidores para as marcas que possui.

Embora a firma tenha dito que pretende investir os recursos do IPO em tecnologia e marketing, executivos da Shein indicaram aos investidores que esperam realizar mais aquisições daqui para frente, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

Os grandes recursos em caixa da firma — cerca de US$ 14,8 bilhões no fim de março — também ajudariam nesse processo.

Crescimento das vendas da Shein desacelera

A firma busca marcas consolidadas que enfrentam problemas operacionais e marcas mais novas que têm dificuldade para ganhar escala. O plano é transferir funções como a fabricação para a plataforma da Shein, preservando as equipes de design e marketing das marcas, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

A Shein também quer ampliar sua presença entre consumidores de maior poder aquisitivo, mirando marcas cujos clientes gastam, em média, cerca de US$ 100 por pedido — o dobro de uma compra típica na Shein, segundo uma das fontes.

A Shein já possui um portfólio de 20 marcas, incluindo a recém-adquirida Everlane, com receita acumulada superior a US$ 580 milhões, segundo a companhia. O valor ainda é pequeno diante dos US$ 41,8 bilhões em vendas da Shein em 2025.

Um fornecedor importante da Shein na província de Guangdong disse que os pedidos continuavam crescendo em ritmo de dois dígitos, com o aumento impulsionado principalmente pelas marcas adquiridas pela Shein.

O teste da Everlane

A Everlane será um dos primeiros testes da nova estratégia da Shein.

A marca americana de moda enfrentava dificuldades financeiras e buscava um comprador quando foi adquirida pela Shein, em maio.

O negócio colocou lado a lado uma firma chinesa que enfrenta acusações de trabalho infantil e de utilização de algodão da controversa região de Xinjiang em sua cadeia de suprimentos e uma marca ocidental que construiu sua identidade em torno de transparência e sustentabilidade.

“Se a Shein tornar a Everlane mais eficiente, a aquisição pode gerar valor”, disse Shen, professor da Universidade Donghua. “Se a Shein fizer a Everlane parecer mais com a Shein, poderá destruir parte do valor que adquiriu.”

Embora aquisições de marcas possam ser uma “solução imediata” para os problemas de imagem da Shein, elas precisam ganhar escala rapidamente para contribuir de maneira significativa para o crescimento da companhia, disse Edwin Keh, professor da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, e ex-executivo do Walmart especializado em cadeias de suprimentos globais.

“A chave aqui é comprar algo grande o suficiente para fazer diferença”, afirmou.

Alguns potenciais investidores estão céticos quanto à capacidade da mudança estratégica da Shein de gerar valor suficiente para justificar a avaliação pretendida.

Eles questionam se as ações da firma podem ser avaliadas no mesmo patamar de concorrentes consolidados, como a Inditex SA, dona da Zara, ou a sueca Hennes & Mauritz AB, e como contabilizar os riscos geopolíticos que pairam sobre os negócios da companhia.

A gigante espanhola de moda Inditex possui valor de mercado superior a US$ 200 bilhões e margem operacional de cerca de 20%. A margem operacional da Shein no primeiro trimestre de 2026 foi de aproximadamente 3%, segundo os documentos do IPO.

“Inditex e H&M têm um histórico muito longo de geração de retorno para os investidores ao longo dos ciclos. A Shein ainda precisa provar que consegue fazer o mesmo”, disse Anubhav Malhotra, analista de pesquisa de ações do setor de consumo da Panmure Liberum Ltd.

“O sucesso da Shein depende muito de regulamentação, um pouco mais do que no caso de outras firmas.”

Ainda popular

A proposta de preços baixos e produtos da moda que impulsionou a ascensão da Shein continua difícil de resistir para muitos consumidores.

A firma tinha 281 milhões de clientes ativos no ano encerrado em março de 2026, alta de 17% em relação ao período anterior, segundo os documentos apresentados pela companhia.

A Shein também continua popular no Reino Unido, onde 43% das mulheres de 16 a 34 anos disseram ter comprado na varejista nos 12 meses até maio, de acordo com a firma de pesquisa de mercado Mintel.

Nos Estados Unidos, a marca tem como cliente regular Jordyn White, de 20 anos. A estudante universitária de Atlanta voltou a comprar na Shein por causa dos preços baixos e da conveniência, depois de interromper brevemente o uso da plataforma devido a preocupações com as condições de trabalho da firma.

“Há momentos em que quero me afastar da Shein e explorar outros sites”, disse White. “Mas sou universitária e os preços são bons demais.”

Embora a Shein tenha se incomodado no passado com o fato de ser chamada de firma chinesa e ainda se considere uma companhia global, agora não tenta mais minimizar suas origens.

No auge de sua avaliação, por volta de 2022, a firma contratou o banqueiro de investimentos sino-americano Donald Tang para atuar como consultor e, posteriormente, tornar-se presidente do conselho e rosto público da companhia.

Naquela época, a Shein também se preparava para realizar um IPO em Nova York. Tang foi um dos responsáveis pela decisão de transferir a sede corporativa da Shein para Cingapura, posicionando a firma como uma companhia global para investidores ocidentais, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

Tang não foi localizado para comentar.

Ainda assim, a Shein nunca conseguiu se livrar do rótulo de firma chinesa aos olhos de políticos, reguladores e consumidores ocidentais — e sua tentativa de fazer isso provocou a irritação de Pequim.

Os reguladores chineses determinaram que a firma precisava de sua aprovação para realizar uma listagem no exterior, apesar de não ter vendas na China.

Nos Estados Unidos, a Shein também avaliou que era improvável que a Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado de capitais americano, aprovasse sua listagem e transferiu seus planos de IPO de Nova York para Londres em 2024.

Ainda assim, o aval de Pequim não veio.

A firma então mudou novamente de estratégia e decidiu abrir seu capital em Hong Kong, adotando uma postura de forte aproximação com o governo chinês.

No início deste ano, Xu fez uma rara aparição pública para prometer mais investimentos em Guangdong, centro de sua cadeia de suprimentos.

A Shein chegou a considerar transferir novamente sua sede para a China continental.

Finalmente, a firma obteve a aprovação da China para realizar a listagem no mês passado — ao custo de uma queda de mais de US$ 70 bilhões em sua avaliação.

“As coisas mudaram muito nos últimos três anos — todas essas questões geopolíticas e a concorrência —, então já não é uma história de crescimento extremamente rápido”, disse Barry Wang, gestor de portfólio do China Opportunities Fund, da Oberweis Asset Management.

“A melhor janela já passou.”

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original

Autor: Bloomberg

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