Além do ‘efeito Copa’: Ambev cresceu 5% tomando fatia de rivais em todos os segmentos de cerveja, diz CFO

O volume de cerveja da Ambev no Brasil cresceu 5% no segundo trimestre, um desempenho bem acima do registrado pelo mercado. Segundo o diretor monetário da companhia, Guilherme Fleury, a indústria cervejeira avançou entre 0,5% e 1% no período, marcado pela Copa do Mundo.
A diferença, segundo o CFO, veio principalmente da tomada de participação dos concorrentes.
“Toda essa diferença de uma indústria 0,5% a 1% positiva para o nosso 5% positivo, de onde é que ela veio? Ela veio do ganho de share”, afirmou Fleury em entrevista ao InvestNews.
Além do aumento do volume, a receita líquida da operação de cervejas no Brasil cresceu 8,9% no trimestre, enquanto o Ebitda ajustado (métrica de geração de caixa operacional) avançou 12,8% na comparação anual.
Segundo Fleury, o movimento começou a ganhar força no terceiro trimestre de 2025, quando a Ambev assumiu a liderança do segmento premium no país. Desde então, a firma afirma ter acumulado quatro trimestres consecutivos de ganho de participação — o que sugere que tenha sido em cima da concorrente direta Heineken.
No segundo trimestre, o avanço não ficou concentrado em uma única categoria. De acordo com a companhia, houve ganho de mercado nos segmentos mainstream, premium, de bebidas voltadas à moderação — chamadas internamente de “balanced choices” — e de produtos que vão além da cerveja tradicional.
“Não só estamos com a liderança no premium como temos ganhado participação de mercado em todos os segmentos de cerveja em que estamos”, disse o executivo.
O resultado contrasta com 2025, quando o volume vendido pela Ambev recuou, pressionado principalmente pelo clima. Ainda assim, a firma conseguiu aumentar o Ebitda naquele ano por meio de cortes de custos e de uma alocação mais seletiva de recursos.
Mais participação, sem sacrificar margem
O ganho de mercado não veio, segundo Fleury, de uma política de preços mais agressiva. Os reajustes ficaram próximos da inflação, enquanto o crescimento adicional da receita por hectolitro foi sustentado principalmente por uma mudança no mix, com maior peso de marcas premium.
“Em momento algum a gente ganhou share ao longo dessa jornada abrindo mão de rentabilidade”, afirmou.
A receita por hectolitro da operação de cervejas no Brasil, excluído o marketplace, cresceu 4,4% no trimestre. O custo por hectolitro avançou em ritmo semelhante, de 4,5%.
Mesmo com essa pressão, a combinação de maior volume, disciplina de custos e um portfólio mais premium levou a uma expansão de 1,1 ponto percentual tanto na margem bruta quanto na margem Ebitda do segmento.
Parte da estratégia da Ambev tem sido posicionar diferentes marcas para ocasiões específicas de consumo. A Original é associada ao consumo em bares; a Corona, ligada a momentos ao ar livre; e a Stella Artois, que a companhia busca aproximar do conceito de “luxo discreto”, com patrocínios como o torneio de tênis de Roland Garros.
A Michelob Ultra, por sua vez, tenta alcançar consumidores interessados em moderação. Durante a Copa, a marca passou a destacar em sua comunicação o argumento de ter 80% menos calorias.
O executivo também mencionou a Spaten Pro, lançada em julho, como o exemplo mais recente dessa expansão de portfólio. A bebida, desenvolvida ao longo de cinco anos, não contém álcool e busca explorar como apelo 10 gramas de proteína por lata. A Ambev a apresenta como a primeira cerveja com essas características no mundo.
Ambev: atenção a ocasiões de consumo
A ampliação das ocasiões de consumo é uma tentativa de crescer em um mercado maduro, no qual a disputa já não ocorre apenas entre marcas tradicionais. Ela se deslocou também para produtos premium, opções sem álcool, bebidas de menor teor calórico e categorias que se aproximam de tendências de saúde e bem-estar.
Além do desempenho operacional, Fleury destacou a geração de caixa da companhia. A Ambev encerrou o primeiro semestre com R$ 7,87 bilhões em caixa gerado pelas operações.
Nos últimos sete meses, a firma devolveu cerca de R$ 5,9 bilhões aos acionistas, principalmente por meio de recompra de ações. O programa lançado em outubro de 2025 já está 95% executado.
A companhia também anunciou uma nova distribuição de R$ 1,1 bilhão em juros sobre capital próprio, a ser paga até dezembro. O valor se soma à parcela final de R$ 1,9 bilhão referente à distribuição declarada em dezembro de 2025, com pagamento previsto para 6 de outubro.
Do lado dos custos, ainda há pressão. O “custo caixa” por hectolitro da operação de cervejas no Brasil, excluído o marketplace, aumentou 9,7% no primeiro semestre.
Mesmo assim, a Ambev manteve a projeção de alta entre 4,5% e 7,5% para o conjunto de 2026. Para cumprir a estimativa, a firma terá de registrar uma desaceleração relevante dos custos na segunda metade do ano.
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Autor: Raquel Brandão
