Brasil: gigante em reservas de urânio, minúsculo na produção. O que falta para destravar

O Brasil tem uma das maiores reservas de urânio do mundo. Mas a produção é baixíssima. Foram 75 toneladas em 2025. Nossas duas usinas nucleares, Angra 1 e Angra 2, consomem 450 toneladas por ano.
E os maiores produtores globais extraem em outra ordem de grandeza. No Canadá, são 14 mil toneladas por ano. No Cazaquistão, o líder global, 23 mil t/ano. Ambos, claro, são grandes exportadores.
O Brasil, pelas reservas que tem, também poderia ser. Mas não produz nem para o par de usinas fluminenses – quem supre o que falta é a Rosatom, a estatal russa de energia nuclear.
Só isso já bastaria para justificar um investimento mais robusto na produção nacional. Mas existe outro fato, até mais relevante: o mundo nunca precisou tanto de urânio.
Cortesia dos novos data centers, que consomem eletricidade com um vigor inédito. Só o que o TikTok está erguendo nos arredores de Fortaleza vai consumir tanto quanto a própria cidade. E ele é só um de milhares pelo mundo.
Esse apetite renovado por eletricidade reacendeu o interesse nas usinas nucleares – por razões sólidas, que vamos ver adiante. E aí a consequência é óbvia: tendência de alta para o urânio, o combustível dos reatores.

O Bank of America, por exemplo, projeta que a cotação do urânio deve subir 50% ainda neste ano – dos atuais US$ 190 por quilo para US$ 285.
Enquanto isso, circula no governo federal uma minuta (ou seja, um rascunho) de decreto feito justamente para estimular a mineração do elemento radioativo por aqui.
A chave para destravar
A mineração de urânio no Brasil é um monopólio estatal – como a do petróleo já foi, até 1997. Ela fica a cargo da INB (Indústrias Nucleares do Brasil).
A forma como o Estado exerce esse monopólio já mudou. Uma lei de 2022 permite que a INB se associe a firmas privadas, repartindo investimentos e lucros – é o único caminho factível para soltar o freio de mão.
Mas ainda falta um passo para essa flexibilização sair do papel: as normas que vão reger essas sociedades. A tal minuta é justamente uma primeira versão para essas regras, que precisa da assinatura de Lula.
O documento tramita nos corredores de Brasília em sigilo. Só que a Bloomberg teve acesso ao material e revelou o conteúdo. A redação final pode mudar. Mas por ora ele diz que a participação da INB nessas empreitadas precisa ser de, no mínimo, 20% – mesmo que o sócio privado banque todo o investimento.
A obrigação de um sócio estatal não é exatamente o melhor chamariz para o capital privado. Mas acontece algo parecido na exploração de petróleo. Antes de o governo licitar cada área nova, a Petrobras diz em quais deseja atuar, e com qual participação (que não pode ser menor do que 30%). Só aí a área vai a leilão.
Esse sistema existe desde 2016. E mesmo assim várias companhias privadas toparam entrar em diversas áreas depois de a Petrobras ter garantido 30%, 40%, 50% de participação.
E no caso do urânio ainda haveria uma válvula de escape – caso vingue o texto da minuta. A participação pode ficar abaixo de 20% “excepcionalmente”, de acordo com o documento, se ficar claro que a manutenção desse percentual inviabilizaria o projeto.
Ou seja: haveria uma certa manga para atrair mineradoras privadas. O InvestNews procurou a INB, e a estatal não quis se pronunciar.
Em entrevista para a Bloomberg em maio, porém, o presidente da companhia disse que mineradoras da China, da França, da Rússia e do Canadá já tinham procurado a estatal.
A INB, do seu lado, defende abertamente a ideia de destravar a mineração do combustível nuclear.
“O mundo produz 60 mil toneladas de urânio [por ano] e consumiu, em 2025, 65 mil. Cinco mil toneladas saíram de reservas estratégicas que os países e as próprias usinas nucleares detêm”, disse o presidente da estatal, Tomás Albuquerque, em uma reunião em Brasília, em julho.
Em outro evento, em março, ele ressaltou que há 70 reatores nucleares em construção no mundo hoje. “Esses países vão precisar de urânio. O Brasil pode ser um parceiro estratégico.”
A fome global por eletricidade
Mas por que reatores nucleares? No Brasil mesmo a energia solar já responde por metade da geração quando o sol está a pino. No mundo, a quantidade de novas instalações de energia renovável bate recorde atrás de recorde há 23 anos seguidos. Só em 2025, a alta foi de 15%.
A Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que, em 2030, o consumo global dos data centers vai dobrar. Eles vão exigir 530 terawatts-hora (TWh) de eletricidade extra. Em português: isso dá um Brasil inteiro – foram 568 TWh em 2025. Tudo isso só em data centers, mais nada.
Dá para resolver tudo isso com energia solar e eólica? Dá. O problema é que data center não dorme. Precisa de energia firme, confiável, todo santo minuto do ano. É aí que a solar e a eólica tropeçam.
Nem sempre o vento venta e o Sol teima em se pôr. Hidrelétrica seria a resposta óbvia – energia limpa, 24/7. Só que nos países ricos, onde os data centers se multiplicam com mais força, os melhores rios já foram represados há décadas.
Agora, a energia nuclear. Ela não é renovável mas é limpa – não emite CO2. O que acontece dentro do reator são explosões nucleares – como a das bombas atômicas – só que numa escala diminuta. Elas geram calor, esse calor aquece água. O vapor sob alta pressão faz girar turbinas, e desse movimento vem a eletricidade. É basicamente uma termelétrica que opera sem combustível fóssil, 24 horas por dia.
Justamente por isso, as firmas que mais precisam de data centers estão levantando usinas nucleares, com parceiros do setor de energia.
O caso mais emblemático é o da Microsoft. Ela fechou um contrato de 20 anos para religar a usina de Three Mile Island, na Pensilvânia – desativada desde 2019 e que tinha sido palco do maior acidente nuclear da história dos EUA, em 1979. A previsão é que a usina volte a funcionar no ano que vem.
Em abril, a Amazon plugou um data center dela a uma usina em operação, também na Pensilvânia. Além disso, ela, mais Google e Meta, têm projetos em desenvolvimento, para estrear nos próximos anos.

Urânio made in Brazil
A única mina em operação no Brasil hoje é a de Caetité, na Bahia. Lá, a INB extrai o minério de urânio e processa até virar o yellowcake, a versão concentrada.
A capacidade instalada ali é de 400 toneladas por ano. A INB pretende dobrar essa capacidade. E a conta passa por dinheiro privado – quando (e se) a regulamentação sair.
A maior candidata a segunda mina de urânio do país fica em Santa Quitéria, no sertão do Ceará. Ela tem um atrativo que Caetité não tem: ali o urânio vem grudado em rocha de fosfato – matéria-prima dos fertilizantes.
Ou seja, ela produz dois minerais valiosos ao mesmo tempo. Olhando só para o urânio, trata-se da maior reserva do país, com 80 mil toneladas.

Esse é um projeto que já está em andamento – em parceria com a Galvani, uma firma de fertilizantes. Vale notar que o jogo ali não depende da regulamentação nova, já que o interesse da Galvani é só no fosfato.
A INB entra com os direitos minerários da jazida – ela detém a concessão, por causa do monopólio com o urânio. A Galvani entra com o dinheiro para desenvolver a extração: R$ 2,3 bilhões.
A firma privada fica com o fosfato (que é 99,8% do volume ali); e a estatal leva o urânio. O plano é antigo: está definido desde 2008. Mas não saiu do papel porque, até hoje, o consórcio não conseguiu a licença ambiental do Ibama – o pedido segue emperrado em exigências técnicas.
É isso. Enquanto o mundo pede por urânio para alimentar os data centers, nossas reservas seguem adormecidas no berço esplêndido.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Alexandre Versignassi


