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O plano de US$ 20 bilhões da FIFA que está rachando o futebol mundial e ameaça o futuro das Copas

A Copa do Mundo realizada neste verão na América do Norte, que bateu recordes de audiência, público e receita, parecia representar o auge da estratégia do futebol de aproveitar o enorme potencial monetário dos Estados Unidos.

Na realidade, a entidade máxima do futebol mundial estava apenas começando.

Na terça-feira (28), a FIFA, organização sem fins lucrativos sediada na Suíça, apresentou um plano surpreendente para separar os direitos comerciais de suas competições mais populares em uma firma privada e vender cerca de 20% dessa operação a investidores, em uma transação que avalia o negócio em US$ 20 bilhões.

Dois dias depois, uma forte reação levou os países europeus a anunciar um boicote a todas as competições da FIFA, incluindo a Copa do Mundo, após uma reunião de emergência da UEFA, entidade que administra o futebol europeu.

Uma Copa do Mundo sem os países da Europa, bem como um Mundial de Clube sem os clubes do continente, perderia muito do seu apelo comercial, bem como derrubaria de forma drástica o nível técnico dos torneios.

“Esse modelo não tem lugar no futebol mundial”, afirmou a UEFA após o encontro.

“O futuro do futebol não pode ser ditado pelas expectativas de quem tem como principal dever maximizar o retorno monetário. Como resultado da discussão de hoje, nenhuma seleção filiada à UEFA participará de qualquer competição da FIFA enquanto essas propostas permanecerem em vigor.”

A FIFA argumenta que a operação é a forma mais eficiente de levantar recursos adicionais para redistribuir entre suas 211 associações nacionais, prometendo até US$ 40 milhões extras para cada uma delas ao longo dos próximos quatro anos.

Relação com o círculo de Trump

Para o presidente da FIFA, Gianni Infantino, a proposta representa também mais uma oportunidade de estreitar os laços da entidade com o círculo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O grupo de investidores é liderado pela Thrive Capital, gestora fundada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro de Trump e ex-conselheiro sênior da Casa Branca.

Segundo uma pessoa familiarizada com o projeto, Infantino e Joshua Kushner discutem a iniciativa desde pelo menos o ano passado.

As conversas ganharam força no início de 2026, quando a FIFA contratou o JPMorgan Chase para estruturar a operação, com equipes em Londres e Nova York.

A fonte afirmou que Trump não participa diretamente da negociação.

Entidades dizem ter sido surpreendidas

Grande parte do futebol mundial foi surpreendida pelo anúncio de Infantino, incluindo o próprio conselho da FIFA e as confederações continentais.

A Concacaf, responsável pelo futebol da América do Norte, América Central e Caribe, afirmou estar “profundamente preocupada com a falta de um devido processo” na condução da proposta.

A FIFA pretendia apresentar formalmente o projeto aos seus membros nesta semana, mas os detalhes vieram a público após um vazamento ocorrido na segunda-feira.

Os países têm até 19 de setembro para aderir ao projeto, batizado de FIFA Forward Enterprise, sob risco de perder milhões de dólares em repasses da entidade.

Europa fecha questão e anuncia boicote

A UEFA, principal crítica da proposta, convocou uma reunião extraordinária nesta quinta-feira.

Os 55 membros da entidade, incluindo a atual campeã mundial masculina, a Espanha, concordaram em boicotar todas as competições organizadas pela FIFA.

“Há coisas importantes demais para serem vendidas”, afirmou a UEFA.

“A Copa do Mundo pertence ao futebol. Sempre pertencerá. E, enquanto a Europa tiver voz, ela nunca estará à venda.”

Entre os críticos do plano estão o primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, e até o ex-presidente da FIFA Sepp Blatter.

Segundo Blatter, a proximidade entre Infantino e Trump ganhou uma dimensão financeira que prejudica o esporte.

“Ninguém tem o direito de vender o nosso jogo”, escreveu nas redes sociais.

A última proposta no futebol que gerou reação semelhante foi a tentativa frustrada de criação da Superliga Europeia, em 2021, abandonada menos de 48 horas após protestos de torcedores e forte oposição política.

Infantino aposta em receitas recordes

Desde que assumiu a presidência da FIFA, em 2016, após o escândalo de corrupção que abalou a entidade, Infantino transformou o aumento das receitas em uma das prioridades de sua gestão.

Antes da Copa do Mundo de 2026, ele projetava arrecadação recorde de US$ 11 bilhões com direitos de transmissão, venda de ingressos e contratos comerciais.

Na final do torneio, disputada entre Espanha e Argentina em 19 de julho, revisou essa estimativa para US$ 15 bilhões.

Segundo o dirigente, esses recursos permitirão ampliar os repasses às federações nacionais para projetos de desenvolvimento do futebol — estratégia que lhe garantiu forte apoio entre associações fora da Europa, justamente quando se prepara para disputar um terceiro mandato completo na presidência da FIFA no próximo ano.

Caso seja reeleito, poderá permanecer no cargo até 2031.

“Muito pouco do crescente valor comercial do futebol chega às partes do esporte que mais precisam desses recursos”, afirmou Infantino.

FIFA promete controle do esporte

A entidade afirma que os investidores não receberão dividendos e que só poderão obter retorno monetário caso vendam suas participações futuramente.

Também garante que manterá controle exclusivo sobre a governança do futebol, o calendário internacional, os regulamentos e todas as decisões esportivas.

Mesmo assim, a resistência de Europa e Concacaf aumenta a possibilidade de surgir um candidato de oposição na eleição presidencial da FIFA em 2027.

Até o momento, porém, nenhum nome foi oficialmente apresentado.

Na prática, mesmo sem receber votos da UEFA ou da Concacaf, Infantino ainda teria apoio suficiente para vencer a disputa, já que atualmente segue como candidato único.

Escreva para Joshua Robinson em Joshua.Robinson@wsj.com e para Gina Heeb em gina.heeb@wsj.com.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original

Autor: The Wall Street Journal

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