BC adota tom mais duro sobre inflação e pode suspender cortes de juros, diz economista do BB
O atual ciclo de cortes da taxa Selic pode acabar prematuramente. A quantidade de reduções de juros pelo Banco Central pode ser menor do que o mercado tem projetado, porque está diretamente ligada à extensão e à intensidade do choque do petróleo, segundo avaliou o economista-chefe do Banco do Brasil, Marcelo Rebelo Lopes, em entrevista ao InvestNews.
“As projeções de inflação e de juros dão um tom duro ao comunicado” e sugerem que ja existe um debate dentro do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a possibilidade de o BC ter de interromper mais cedo o recém-iniciado ciclo de baixa.
O BC cortou a Selic em 0,25 ponto percentual na quarta-feira (29) para 14,50% ao ano em decisão unânime. Foi a segunda redução seguida. No mercado, a mediana das expectativas, segundo o boletim Focus, aponta que a taxa básica de juros encerre 2026 em 13,00% ao ano.
Na visão de Rebelo, o Banco Central tenta ganhar tempo ao fazer cortes de 0,25 ponto percentual até que o cenário da guerra no Oriente Médio se resolva. Mas os efeitos secundários do choque do petróleo sobre preços podem já estar incomodando os integrantes do colegiado.
No cenário atual, mesmo se a guerra persistir, Rebelo enxerga espaço para o BC manter, pelo menos, mais um corte de 0,25 ou até duas reduções consecutivas. “O nível que a Selic chegou criou uma espécie de colchão de juro real muito elevado que permite essas diminuições.”
Veja a seguir os principais trechos da entrevista:
No comunicado da decisão de juros, o Copom fala em “ajustes no ritmo e extensão da calibração” do ciclo de juros atual. Essa mudança indica que o BC deixou a porta aberta para eventualmente decidir pausar os cortes?
Nós avaliamos o comunicado como mais duro, ou “hawkish” no jargão do mercado. A decisão em si de reduzir em 0,25 ponto já estava bem antecipada, mas houve algumas nuances ali no comunicado que sinalizam que o ciclo pode ser um pouco mais curto do que estávamos imaginando.
Portanto, tem duas coisas que estão nos incomodando a partir dessa decisão. Primeiro, a própria hipótese para o [choque do] petróleo. Parece que está se prolongando além daquilo que nós imaginávamos, os sinais não são de normalização rápida.
Os ajustes nas projeções de inflação futura indicam haver potencialmente já algum aspecto de efeito de segunda ordem [do choque do petróleo] que está contaminando os preços, e o banqueiro central se incomoda demais com esses efeitos e precisa reagir a esse ponto.
O segundo elemento é no trecho em que o Copom dá uma espécie de direcionamento para os próximos passos. Nesse parágrafo e no balanço de riscos, fiquei com a sensação que pode ter havido um certo debate em relação a a até onde continuar “calibrando”.
Quando os integrantes falam que não vão debater o ritmo, mas a extensão do ciclo, parece dizer que podem discutir se [o Copom] vai continuar a cortar ou vai parar antes.
O BC pode parar de cortar já na próxima reunião?
Acredito que a estratégia vai ser continuar a cortar de 0,25 em 0,25 ponto, ganhando tempo para saber se o conflito vai se encerrar, se a hipótese do mercado embutida na curva futura de petróleo, que indica que o fim do conflito nos próximos meses, está OK.
Mas pode ser que chegue algum momento em que comece a incomodar demais, comece a afetar a projeção e ele tenha que interromper.
O BC tem um certo conforto de, pelo menos, realizar mais um ou dois cortes de 0,25.
A ata da reunião do Copom que sai na próxima semana vai ser uma das mais importantes das últimas decisões. Porque a autoridade vai ter de elaborar melhor essas questões.
Mas o BC criou uma espécie de “buffer” [colchão], porque uma taxa Selic no nível atual, de 14,50% ao ano, ainda é muito elevada e fornece um grau de liberdade para ir tateando a evolução do conflito.
Qual o cenário base para o BB em termos de juros para 2026?
O comunicado foi mais duro que o esperado e isso já nos levou a revisar a nossa projeção para cima. Mas ainda não sabemos quanto vai ser essa revisão. Vamos esperar a divulgação da ata para calibrar melhor. Já estamos informando as áreas e os clientes, dentro da governança no banco, que o cenário está sob revisão.
Discutimos aqui uma Selic em torno de 13,25% a 13,50% ao ano para 2026 e de 11,25% a 11,50% no fim de 2027.
Então nossa visão é que o BC continua a fazer cortes de 0,25 ponto e, em algum momento ele pausa, para retomar o ciclo em 2027.
Se a guerra escalar, pode trazer de volta volatilidade ao câmbio e reverter o fluxo de recursos estrangeiros para o Brasil e outros emergentes?
A minha percepção é que está na cabeça de todo mundo que esse é um conflito temporário. E o petróleo volta para patamares para a casa de US$ 70 a US$ 80 o barril, algo que a própria curva futura de petróleo sugere.
Com base nisso, na hipótese de ser um conflito temporário e o fato de que nós, o Brasil, somos exportadores líquidos de petróleo, há um benefício do ponto de vista de receitas fiscais. Nesse sentido, entendo, com a valorização que tem acontecido com o real, com o fluxo de capital que tem vindo para o país, que nós somos um “vencedor relativo” no cenário do conflito.
Só que isso é apenas se essas hipóteses se mostrarem verdadeiras.
Se caminharmos para um cenário alternativo e mais extremo, no qual esse choque se revela muito mais severo e há o risco de uma desaceleração importante da economia mundial, conforme o próprio FMI [Fundo Monetário Internacional] tem sinalizado nos seus últimos relatórios, tenho dificuldade em enxergar o universo emergente continuando sendo um receptor de fluxo. E muita gente tem sinalizado esse risco potencial de dinâmica de preço de petróleo não linear.
Conforme o tempo passa, mais você pode caminhar para um cenário em que o choque afeta de forma bem significativa o preço. E, em um cenário extremo, em que há um baita choque, que afeta crescimento global, afeta aversão ao risco, eu acho que o Brasil não se beneficia. E pode voltar aquela dinâmica de mais volatilidade, com o câmbio também sendo afetado negativamente.
Mas, de novo, isso não é cenário básico de ninguém. A nossa projeção de câmbio hoje é de R$ 5,20 para o final do ano, se o conflito evoluir conforme estamos imaginando, e também por causa da volatilidade do ciclo eleitoral.
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Autor: Sérgio Tauhata