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Cerveja com proteína: como a Ambev pretende fisgar quem trocou o bar pela academia

Em um laboratório no Rio de Janeiro, uma equipe da Ambev passou cinco anos tentando resolver um problema relativamente novo: como adicionar proteína em uma cerveja sem que ela deixasse de parecer cerveja.

Foram mais de 100 protótipos até chegar à Spaten Pro, uma cerveja sem álcool com dez gramas de proteína – a mesma quantidade de um copo de leite. 

A novidade associa uma marca criada em Munique em 1397 a uma demanda bem mais recente, impulsionada pelo boom dos comes e bebes com injeção de proteína.

Mas a bebida é mais do que uma tentativa de colocar a febre proteica dentro de uma lata. Ela mostra onde as cervejarias enxergam espaço para expandir em um mercado maduro, que não tem mais tanto para onde crescer.

Nova linha de cerveja Spaten Pro, da Ambev, com 10 gramas de proteína (Foto: Divulgação)

Uma solução: tentar vender cerveja para quem não bebe, ou tenha moderado o consumo em nome da saúde. As zero álcool funcionam como uma opção. Com a adição de proteína, a Ambev busca um chamariz a mais nesse mercado.

Vale notar que essa não é a primeira cerveja com proteína. Cervejarias menores já produzem – inclusive no Brasil, caso de uma marca chamada Beer Protein. Mas essa é a primeira de uma gigante global.

A Spaten Pro começa a ser vendida no fim de agosto em São Paulo, no Rio e pelo Zé Delivery, por R$ 10 a R$ 13 a lata de 350 ml – o dobro do preço de uma normal. A produção ficará em Ribeirão Preto.

Em busca de um novo público

A retirada do álcool foi uma escolha da Ambev – não uma limitação técnica. E ela conversa com outro ponto: a tentativa de levar cerveja a novos públicos.

Que tem uma motivação óbvia. O mercado de cerveja patina em volume. O Brasil vendeu 14,75 bilhões de litros em 2025, queda de 5,1% em relação ao ano anterior, segundo a Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil). 

As vendas de cervejas sem álcool vão pelo caminho oposto. Elas ainda são 5% do mercado, apenas. Mas o crescimento é nítido. Passaram de 140 milhões de litros em 2019 para 702 milhões em 2024, de acordo com a Euromonitor. Para 2025, a consultoria estimou 785 milhões de litros – alta de 12%.

Os números mais recentes da própria Ambev mostram a diferença de velocidade. No primeiro trimestre de 2026, o volume de cerveja vendido pela companhia no Brasil cresceu 1,2% na comparação anual. Dentro desse resultado, o portfólio de produtos que a firma chama de “escolhas equilibradas” avançou na casa dos 70%. 

Aí não entram apenas as sem álcool. Mas as de teor mais baixo; e com menos calorias. É o caso de Stella Artois Pure Gold e da Michelob Ultra. As duas mais do que dobraram de volume, enquanto as cervejas sem álcool cresceram acima de 10%, puxadas por Corona Cero e pelo lançamento da Skol Zero Zero.

A Corona Cero, aliás, também tem seu chamariz funcional: adição de vitamina D.

A ciência da cerveja proteica

A Spaten Pro foi desenvolvida no Centro de Inovação e Tecnologia da Ambev, instalado no Parque Tecnológico da UFRJ, no Rio. Aberto há seis anos, o CIT integra uma rede de seis centros da ABInBev – a matriz, com sede na Bélgica.

A estrutura combina laboratórios de análises físico-químicas, equipamentos para produção de cervejas sem álcool e uma planta piloto que reproduz, em menor escala, as condições das fábricas.

Laboratório Ambev CIT (Foto: Raquel Brandão/ InvestNews)
Laboratório Ambev CIT (Foto: Raquel Brandão/ InvestNews)

A indústria como um todo passou por fases distintas até chegar a uma cerveja sem álcool que ainda parecesse cerveja. 

As primeiras versões zero vinham da interrupção da fermentação antes que se formasse álcool, mas resultavam em um líquido insosso. A geração seguinte passou a retirar o álcool depois de pronto, por aquecimento, vácuo ou membranas — processo que também levava boa parte dos aromas. 

Hoje, usam leveduras que produzem menos álcool durante a fermentação, o que reduz o quanto precisa ser retirado depois e preserva mais o sabor da cerveja. O processo, afirma Lucas Dato, diretor do CIT e mestre-cervejeiro, continua evoluindo.

Centro de Inovação da Ambev: onde os novos produtos são desenvolvidos e testados (Foto: Divulgação)

E uma dessas evoluções é, claro, a adição de suplementos. “Colocar proteína na cerveja não é fácil”, ele diz. No caso da Spaten Pro, segundo ele, grande parte da solução não veio de um aditivo isolado, mas do processo – a forma como a fermentação foi conduzida. A receita final reúne seis ingredientes: água, malte, lúpulo, levedura, whey protein e colágeno.

Decidiram produzir uma Dunkel, em vez de uma lager (mais comum) para que a mistura ficasse mais palatável. Trata-se de um tipo de cerveja com sabores fortes, que lembram caramelo e chocolate. Isso ajuda a compensar o sabor intrínseco da proteína, que não é exatamente bem-vindo numa cerveja.

Encontrar uma formulação satisfatória no laboratório ainda não encerra o trabalho. A firma precisa testar a receita na planta piloto sob variações de temperatura, envase e armazenamento – e só depois a bebida transferida para a fábrica de Ribeirão Preto, em tanques e linhas de muito maior capacidade.

Mesmo depois de cinco anos de trabalho, a receita não é tratada como definitiva. A estreia restrita permitirá à Ambev acompanhar avaliações e vendas e fazer ajustes antes de ampliar a distribuição. 

“A inovação não fica pronta quando vai para o mercado”, afirma Gabriela Gallo, diretora de inovação da Ambev. Na prática, o consumidor passa a integrar a etapa final do laboratório.

Cervejas cada vez mais leves

A busca por opções mais leves é universal na indústria da cerveja. A Heineken lançou recentemente no Brasil a Ultimate, com 3,5% de álcool (contra 5% da normal), 30% menos calorias e sem glúten, além da Sol 0.0, sem álcool e enriquecida com vitaminas D e do complexo B. 

“Veio da demanda do consumidor mais preocupado com bem-estar e que quer ter escolhas mais equilibradas, quer poder beber, mas com mais moderação”, disse Mauricio Giamellaro, CEO da Heineken Brasil, quando a operação no país da companhia holandesa lançou a Ultimate. O rótulo teve de ser aprovado pelo mestre cervejeiro na Holanda e ainda está em poucos estados brasileiros, em testes.

Para Cid Passini, sócio da L.E.K. Consulting, há espaço para cervejas enriquecidas. Ele pondera, no entanto, que essa provavelmente não será a principal onda do mercado no curto prazo. “Imagino que o foco agora esteja mais em low alcohol e low calorie, mas vale manter esse território no radar, porque em algum momento ele pode começar a receber investimentos mais pesados.”

Na Ambev, a pesquisa avança para outros atributos. Gallo cita fibras e outros ingredientes associados à saúde digestiva. O Guaraná Zero com Fibras, que também começou com distribuição regional, é uma primeira incursão da companhia nesse terreno fora das cervejas.

Por enquanto, a decisão mais reveladora talvez não seja adicionar whey e colágeno a uma Dunkel, mas lançar o produto em pequena escala e admitir que ele ainda pode mudar. 

Uma mudança e tanto para uma indústria que se fez em torno de receitas centenárias.

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Autor: Raquel Brandão

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