Chega a próxima onda dos medicamentos GLP-1. Eles vão tratar muito mais do que obesidade
Há pouco debate sobre qual é a maior história de lucros de Wall Street atualmente: a inteligência artificial. Para o segundo lugar, vale considerar os medicamentos da classe GLP-1.
A líder do setor, a Eli Lilly, que divulgará seus resultados do segundo trimestre na próxima quarta-feira (5), recentemente ultrapassou Walmart, Verizon e o restante da indústria farmacêutica em capacidade de geração de lucros.
Neste ano, a expectativa é que a firma registre lucro de US$ 31 bilhões, alta de 36%, ocupando a 14ª posição entre as firmas do índice S&P 500.
Até 2030, esse valor pode dobrar, colocando a Lilly à frente de Bank of America e ExxonMobil, além de aproximá-la do JPMorgan Chase. Todos os demais gigantes em geração de lucro são firmas ligadas à inteligência artificial.
Medicamentos e chips de computador não têm muito em comum, mas existem paralelos importantes. Ambos atuam em mercados com restrição de capacidade produtiva, enorme poder de precificação e uma demanda vasta e crescente. No caso da IA, quanto melhor a tecnologia fica, mais aplicações os clientes encontram para ela.
‘Pílulas para tudo’
Com os GLP-1 acontecerá algo semelhante: os medicamentos estão prestes a se tornar muito mais eficazes. Imagine queimar mais gordura enquanto o corpo está em repouso e preservar uma parcela maior da massa muscular.
Além disso, cresce a cobertura dos planos de saúde e se multiplica o número de possíveis indicações terapêuticas. Hoje, os GLP-1 são vistos principalmente como injeções contra a obesidade. Amanhã, poderão se tornar algo próximo de uma “pílula para tudo”.
Como os GLP-1 controlam o apetite, eles promovem grande perda de peso. Não surpreende, portanto, que tenham demonstrado benefícios para outras condições relacionadas ao peso e à alimentação, como apneia do sono, doença hepática gordurosa (esteatose) e doenças cardiovasculares.
Mas eles também estão sendo estudados para tratar dependência de drogas e álcool, doenças renais, Alzheimer, Parkinson, osteoartrite do joelho, psoríase, asma, síndrome dos ovários policísticos e até para reduzir o risco de câncer.
“O grande diferencial desse medicamento, ou dessa classe de medicamentos, é que ela atua em múltiplas vias biológicas que parecem gerar benefícios amplos em todo o organismo”, afirma Terence Flynn, responsável pela cobertura do setor farmacêutico e de biotecnologia nos Estados Unidos no Morgan Stanley.
Por enquanto, o mercado de GLP-1 é um duopólio.
A dinamarquesa Novo Nordisk foi pioneira com a semaglutida, comercializada como Ozempic para diabetes e Wegovy para obesidade. A Eli Lilly assumiu a liderança com a tirzepatida, considerada mais eficaz e vendida como Mounjaro para diabetes e Zepbound para obesidade.
As estimativas de vendas cresceram exponencialmente. Em 2022, quando a Barron’s escreveu sobre a entrada da Lilly nesse mercado, o J.P. Morgan previa que as vendas globais de GLP-1 alcançariam US$ 34 bilhões em 2031 — um número que hoje parece bastante modesto.
A expectativa mudou radicalmente. Neste ano, o Morgan Stanley elevou sua projeção para o mercado de GLP-1 em 2035, passando de US$ 150 bilhões para US$ 190 bilhões, considerando apenas diabetes e obesidade.
Isso significaria que cerca de 30% dos americanos obesos utilizariam esses medicamentos até lá, ante 6% no ano passado, além de uma penetração próxima de 10% no restante do mundo.
Nada na história da indústria farmacêutica se aproxima dessa escala.
Outro fator favorável é a chegada dos comprimidos. Até recentemente, os GLP-1 de marca eram vendidos em canetas autoinjetoras ou frascos de dose única. Em janeiro, a Novo Nordisk lançou uma versão em comprimido do Wegovy. Em abril, a Eli Lilly fez o mesmo com o Foundayo.
A novidade deve ampliar as vendas entre pessoas que evitam injeções, consumidores mais sensíveis ao preço e mercados internacionais onde a refrigeração dos medicamentos injetáveis não é viável.
Nova geração
A Lilly testa atualmente a retatrutida, apelidada de triple-G (3G) porque atua nos mesmos receptores GLP-1 e GIP da tirzepatida – do Mounjaro e do Zepbound -, além de um terceiro receptor, o do hormônio glucagon.
Em um estudo importante, pacientes que receberam a dose máxima de retatrutida perderam, em média, 28% do peso corporal após 80 semanas de tratamento. Em comparação, estudos separados mostraram perda de 21% com o Zepbound após 72 semanas e de 15% com o Wegovy após 68 semanas.
Na prática, o Wegovy, da Novo, reduz o apetite e retarda o esvaziamento do estômago. O Zepbound, da Lilly, acrescenta um efeito de maior quebra de gordura, aumentando a perda de peso.
Já a retatrutida parece elevar o gasto energético basal, permitindo que o organismo queime mais calorias mesmo em repouso.
A perda de peso obtida rivaliza com a observada em cirurgias bariátricas. Além disso, a retatrutida pode funcionar em uma parcela maior de pacientes e, por ser muito potente, pode ser administrada em doses menores para pessoas mais sensíveis aos efeitos colaterais.
Se receber aprovação da Food and Drug Administration (FDA) nos EUA, o medicamento poderá chegar ao mercado americano já no fim do próximo ano.
Os efeitos adversos dos GLP-1 incluem náusea e fadiga. Alguns pacientes também ingerem pouca proteína e deixam de praticar exercícios, o que leva à perda de massa muscular juntamente com a gordura.
Uma possível solução está em desenvolvimento.
A Lilly estuda um medicamento chamado eloralintida, que imita a ação da amilina, hormônio produzido pelo pâncreas. Diferentemente dos hormônios-alvo dos GLP-1, que são produzidos no intestino, a amilina atua por outra via.
A eloralintida parece ser capaz de sinalizar saciedade ao cérebro sem retardar tanto o esvaziamento do estômago e, ao mesmo tempo, estimular o organismo a queimar gordura preservando a massa muscular.
Comparada à retatrutida, a eloralintida ainda está em estágio menos avançado de desenvolvimento.
Como atua por uma via neural diferente dos GLP-1, a Lilly estuda combinar a eloralintida com a tirzepatida para verificar se uma terapia em doses menores consegue proporcionar forte redução de gordura com menos efeitos colaterais.
Se o projeto der certo, o medicamento deverá chegar ao mercado entre 2028 e 2029.
Enquanto isso, a Novo concluiu os estudos de fase 3 de seu próprio medicamento combinado com amilina, o CagriSema, que parece produzir perda de peso semelhante à do Zepbound.
O novo medicamento da Novo pode chegar primeiro ao mercado, talvez dentro de um ano. Ainda assim, como os futuros tratamentos da Lilly atuam em mais vias biológicas, a firma parece ter vantagem em termos de desempenho.
Um impacto para toda a sociedade
Os medicamentos GLP-1 enfrentaram, inicialmente, um estigma social por serem vistos como um “atalho” para emagrecer ou uma solução voltada apenas para fins estéticos.
Isso, porém, não reduziu sua adoção.
À medida que os pesquisadores compreendem melhor como esses medicamentos funcionam, esse estigma tende a desaparecer. Os receptores de GLP-1 estão distribuídos por todo o organismo, incluindo cérebro, pulmões e células do sistema imunológico.
Uma das razões pelas quais esses medicamentos vêm sendo estudados para tantas doenças é que parecem atuar como moduladores da inflamação, e não apenas como supressores do apetite. A inflamação crônica é considerada uma das causas de diversas doenças.
Há evidências clínicas robustas de que os GLP-1 reduzem mortes por doenças cardiovasculares — a principal causa de morte no mundo — não apenas porque promovem emagrecimento mas também por diminuírem a formação de placas nas artérias e a gordura inflamatória ao redor do coração.
Em pacientes com asma, estudos mostraram menos crises e menor dependência de inaladores. As pesquisas não demonstraram eficácia para tratar casos já instalados de Alzheimer, mas apontam uma redução do risco de desenvolver a doença ao longo da vida.
Também há indícios de que os GLP-1 possam prevenir ou retardar a progressão de diversos tipos de câncer ao reduzir danos ao DNA, mutações celulares e os altos níveis de insulina e glicose que alimentam tumores.
Os efeitos já são sentidos na população de forma consolidada. A taxa de obesidade nos EUA cresceu durante décadas, mas uma pesquisa realizada neste ano mostrou que ela caiu para 40,7%, ante 42,3% cinco anos antes.
Alguns analistas já preveem uma redução modesta no consumo médio de calorias nos próximos anos.
Fabricantes de equipamentos médicos sofreram perdas em ações, em parte porque investidores temem que os GLP-1 reduzam a necessidade de muitas cirurgias no futuro.
No longo prazo, porém, se esses medicamentos contribuírem para melhorar a saúde metabólica da população, qualquer impacto negativo sobre as vendas de alimentos pouco saudáveis ou sobre procedimentos como cirurgias bariátricas e cardíacas será amplamente compensado pelos ganhos econômicos em outras áreas, afirma Lars Hartenstein, diretor de longevidade saudável do McKinsey Health Institute.
Segundo seus cálculos, melhorar a saúde da população em larga escala pode aumentar a economia americana em mais de US$ 5 trilhões por ano, ou cerca de 3%, até 2050.
“Se as pessoas forem mais saudáveis, poderão ser mais produtivas, participar mais do mercado de trabalho e haverá também menos mortes prematuras”, afirma.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Barron’s
