Últimas Notícias

Cobre, lítio e incentivos de Milei: as cartas da Argentina para virar uma potência da mineração

Por décadas, a economia argentina foi sinônimo de carne, grãos e petróleo. Mas um novo capítulo está sendo escrito nas profundezas da Cordilheira dos Andes: o país tenta se transformar em uma potência da mineração, com foco em dois elementos que ocupam o centro do palco das commodities hoje: cobre e lítio.

As exportações minerais da Argentina podem passar de US$ 6 bilhões em 2025 para mais de US$ 30 bilhões em 2035 – de acordo com análises da Deloitte e do BTG. Uma alta puxada por essa dupla de metais.

Porque o lítio é o elemento fundamental do século 21. Sem bateria de lítio não existe carro elétrico. E não há celular. E não existe a possibilidade de armazenar energia solar – algo incipiente hoje, mas que deve se tornar um pilar da matriz elétrica global no futuro.

E o cobre é um dos metais-chave para a indústria de alta tecnologia. Ele conduz eletricidade melhor do que qualquer outro material acessível, o que torna esse metal brilhante indispensável em cabos, motores elétricos, painéis solares, turbinas eólicas e, mais recentemente, nos enormes data centers que sustentam a IA. Quanto mais digital e eletrificado o mundo fica, maior o apetite por cobre.

A Argentina tem reservas abundantes dos dois. Mas a mineração representa hoje menos de 1% do PIB deles. É um patamar equivalente ao do Brasil – mas nossa economia é bem mais variada. No Chile, que tem características geológicas e econômicas mais parecidas com as da Argentina, a mineração responde por 10% – o país é o maior produtor mundial de cobre.

Mas o cenário argentino começa a mudar. As exportações do setor mineral cresceram 30% em 2025, com as vendas de lítio avançando, isoladamente, 42%. Metais e mineração agora representam 9% das exportações do país, atrás apenas de soja, óleo & gás, cereais e carros.

“Argentina” significa “terra da prata” em latim. E os metais preciosos ainda dominam a pauta exportadora do setor mineral, com grossos 83%. Mas a tendência é de diversificação rápida, puxada pelo lítio no curto prazo e pelo cobre no longo prazo.

A grande aposta: o cobre andino

A Argentina faz fronteira com o Chile ao longo de toda a Cordilheira dos Andes. E essa geografia é uma vantagem enorme. A região integra o chamado “cinturão do cobre andino”, uma das formações geológicas mais ricas do planeta em depósitos do metal. Foi esse cinturão que transformou o Chile no maior produtor mundial de cobre. Agora, a Argentina quer aproveitar o mesmo potencial do seu lado da montanha.

O projeto mais emblemático dessa aposta é o Vicuña, avaliado em US$ 18 bilhões controlado pela mineradora britânica BHP (a maior do mundo) e pela canadense Lundin Mining. O BTG descreve o Vicuña como a maior descoberta mineral dos últimos 30 anos.

Localizado na província de San Juan, o complexo reúne dois grandes depósitos: Filo del Sol e Josemaria. E tem potencial para se tornar uma das maiores minas de cobre, ouro e prata do mundo. As projeções indicam produção média anual de 400 mil toneladas de cobre, e 685 toneladas de prata (22 milhões de onças) e 21,2 toneladas de ouro (700 mil onças).

Mas o Vicuña não está sozinho. O relatório cita outros projetos relevantes em desenvolvimento, como Los Azules, Taca Taca, Pachón, Agua Rica/MARA, além da retomada da mina Alumbrera, que havia encerrado as operações em 2018, pela gigante suíça Glencore.

Segundo a Câmara Argentina de firmas Mineradoras, se os seis projetos de cobre mais avançados entrarem em operação, o país pode figurar entre os dez maiores produtores mundiais do metal. O BTG estima que a produção argentina pode chegar a 1,5 milhão de toneladas anuais de cobre na próxima década — o equivalente a 6% da produção global projetada. Esse share colocaria a Argentina, hoje, entre os cinco maiores produtores do metal.

A expectativa do governo é que, a partir de 2031, o cobre ultrapasse ouro e lítio e se torne o principal produto de exportação mineral do país. O Brasil, para situar, é periférico em cobre, com 370 mil toneladas, pouco mais de 1% do total global.

Lítio: o motor do presente

Se o cobre é a aposta de longo prazo, o lítio já é realidade. A Argentina integra o chamado “Triângulo do Lítio”, ao lado de Chile e Bolívia. Uma região que concentra mais da metade das reservas mundiais de salmouras de lítio. Salmouras são soluções salinas ricas em lítio encontradas em grandes lagos secos de altitude, conhecidos como salares, típicos do altiplano andino.

O país já conta com sete projetos de lítio em operação e dezenas em diferentes estágios de desenvolvimento ou expansão. Entre os principais players estão firmas como Rio Tinto (com os projetos Rincon e Sal de Vida), Ganfeng (Mariana e Cauchari-Olaroz), Posco (Sal de Oro), Eramet (Centenario-Ratones) e Zijin Mining (Tres Quebradas).

Isso coloca o país vizinho como o 4º maior produtor global hoje de carbonato de lítio, a forma processada do mineral. Eis o ranking:

As projeções indicam que a produção argentina de carbonato de lítio, a forma processada do mineral usada na fabricação de baterias, pode atingir 323 mil toneladas até 2030. O Brasil, vale lembrar, é um produtor relevante, mas longe das cabeças, com 54 mil toneladas; 3,5% da produção mundial.

Um fator tecnológico também entra no radar argentino: o avanço das chamadas tecnologias de extração direta de lítio (DLE, na sigla em inglês). Ao contrário dos métodos tradicionais, que exigem grandes lagoas de evaporação e consomem volumes elevados de água — um recurso escasso no deserto andino —, a DLE é mais eficiente. E a Argentina tem potencial para ser o primeiro grande produtor a adotar essa tecnologia em escala comercial.

O papel do governo Milei

Para destravar esse potencial, o governo de Javier Milei criou em 2024 o Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI). Um pacote que oferece benefícios fiscais, cambiais e regulatórios para projetos acima de US$ 200 milhões em setores considerados estratégicos, como mineração, energia e infraestrutura. A grande maioria dos projetos minerários mais avançados já solicitou adesão ao programa.

O RIGI posiciona a Argentina como uma alternativa competitiva a Chile e Peru, dois países que historicamente dominaram a mineração andina, mas que nos últimos anos enfrentam dificuldades: processos de licenciamento ambiental mais longos, conflitos com comunidades locais, instabilidade regulatória e royalties mais elevados.

O governo também aprovou uma nova Lei das Geleiras, que flexibilizou restrições para a exploração mineral em certas áreas antes protegidas. A medida, porém, ainda enfrenta contestações judiciais, o que adiciona incerteza a alguns projetos.

O gargalo da infraestrutura

Um dos maiores desafios para transformar esse potencial em realidade é a parte logística. As regiões com maior concentração de projetos, como San Juan, Salta, Catamarca e Jujuy,são províncias remotas, de difícil acesso e com infraestrutura limitada.

Os US$ 61 bilhões previstos para os projetos minerários em si são apenas uma parte do capital necessário. O desenvolvimento do setor vai exigir mais rodovias, ferrovias, portos, linhas de transmissão elétrica, sistemas de abastecimento de água e redes de telecomunicações. Tudo isso pode praticamente dobrar o valor total necessário.

E o cenário não está livre de obstáculos. No ano que vem tem eleição presidencial na Argentina, e o histórico de instabilidade política do país não é exatamente amigo de compromissos bilionários de investridores estrangeiros.

Ainda assim, é fato: a combinação entre reservas expressivas, a demanda em alta e um ambiente de incentivos montado pelo governo atual coloca a Argentina em uma janela de oportunidade rara.

O que achou dessa notícia? Deixe um comentário abaixo e/ou compartilhe em suas redes sociais. Assim deixaremos mais pessoas por dentro do mundo das finanças, economia e investimentos!

Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original

Autor: Karla Mamona

Dinheiro Portal

Somos um portal de notícias e conteúdos sobre Finanças Pessoais e Empresariais. Nosso foco é desmistificar as finanças e elevar o grau de conhecimento do tema em todas as pessoas.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo