Como a Hitachi fez dos dados o seu negócio mais rentável. E o Brasil ganhou atenção por data centers

A Hitachi surgiu em 1910 fabricando um motor elétrico de cinco cavalos numa oficina de reparo de equipamentos de mineração no Japão. Nas décadas seguintes, tornou-se um conglomerado bilionário vendendo transformadores, trens-bala, elevadores e máquinas industriais. Só que, mais de um século depois, seu negócio mais rentável vem da área digital.
Os números dão dimensão à transformação em curso no tradicional conglomerado industrial japonês, que faturou aproximadamente US$ 70 bilhões no ano fiscal 2025, encerrado em março deste ano.
A unidade de negócios digitais da Hitachi respondeu por US$ 19,5 bilhões dessa receita. Ficou atrás das áreas industrial e de energia, mas apresentou o maior resultado operacional ajustado entre as quatro principais unidades do grupo: cerca de US$ 3 bilhões, com margem recorde de 15,3%.
Dentro do segmento, a Hitachi Vantara é um dos personagens dessa transformação. Criada em 2017 após a fusão da antiga Hitachi Data Systems com negócios de análise de dados, a subsidiária fornece equipamentos e softwares de armazenamento, proteção de dados e gerenciamento de nuvem híbrida.
“Somos como o nexo entre todos os negócios da firma em nível global”, afirma ao InvestNews Daniel Scarafia, vice-presidente da Hitachi Vantara para América Latina e Caribe.
Enquanto as áreas de trens e transformadores atendem mercados específicos, prossegue o executivo, a Vantara pode vender para bancos, varejistas, governos, hospitais, operadoras de telecomunicações e indústrias.
Na prática, a firma fornece equipamentos de armazenamento instalados nos data centers dos clientes e softwares usados para organizar, proteger e controlar o acesso às informações.
Essa infraestrutura pode ser comprada ou contratada como serviço e integrada a sistemas próprios, serviços de nuvem e tecnologias de outros fornecedores.
Essa capacidade de atender praticamente todos os setores ajuda a explicar por que a Hitachi colocou o digital no centro de sua estratégia, chamada “One Hitachi”.
A intenção é combinar os conhecimentos acumulados pelo conglomerado em energia, transporte e indústria para ter os mesmos clientes acessando os mais diversos produtos e serviços fornecidos pelo conglomerado.
O peso do Brasil. E o olhar para data centers
A América Latina ainda representa uma parcela pequena dos negócios da Hitachi: respondeu por US$ 1,5 bilhão, pouco mais de 2% da receita global, no último recorte regional divulgado, referente ao ano fiscal de 2024. Para a Vantara, porém, a região deve completar em 2026 o quinto ano consecutivo de crescimento, afirma Scarafia.
Hoje, o Brasil responde por mais de 40% dos negócios latino-americanos da subsidiária, segundo Andrea Fodor, presidente da Hitachi Vantara no país. A operação brasileira constitui, sozinha, um dos três distritos comerciais da região. Os outros dois reúnem México e Caribe e os países de língua espanhola da América do Sul.
“O olhar da corporação é muito positivo para o potencial do Brasil, principalmente pelo crescimento da quantidade de data centers”, afirma Andrea. “Os maiores bancos da América Latina estão no Brasil e as operadoras trabalham em uma escala muito diferente da dos demais países.”
Historicamente forte no governo e nas instituições financeiras, a Vantara procura ampliar as vendas para firmas privadas e clientes de médio porte desde que Andrea assumiu a operação brasileira, há três anos. Petrobras, Porto, Banco do Brasil, Caixa, Dataprev e Exército Brasileiro estão entre os clientes citados pela companhia no país.
Para avançar nesse mercado, a estratégia depende de parceiros capazes de combinar os equipamentos e softwares da Vantara com servidores, processadores, programas e serviços de outras firmas. Entre os grandes integradores globais do ecossistema estão NTT Data e Accenture.
No Brasil, a Vantara também trabalha com firmas menores e especializadas em desenvolver soluções para cada cliente. E a participação desses canais no resultado brasileiro aumentou de aproximadamente 30% para mais de 50% em três anos.
A companhia mantém dez parceiros que compram diretamente da Vantara e um ecossistema total superior a 50 firmas, segundo Andrea. “Hoje é difícil vender somente a infraestrutura”, diz. “Muitos dos nossos parceiros não vendem máquinas; eles vendem uma solução.”
Na prática, o integrador funciona como o montador desse conjunto. Ele combina a infraestrutura de armazenamento da Vantara com bancos de dados, sistemas instalados no cliente, serviços de nuvem e tecnologias de outros fornecedores, além de cuidar da implementação e, em alguns casos, da operação do ambiente.
O hardware e a conta
Durante a expansão da computação em nuvem, a infraestrutura física perdeu espaço nas compras firmariais. Servidores e equipamentos de armazenamento passaram a ser terceirizados, enquanto as atenções se voltavam aos softwares e serviços.
A inteligência artificial mudou essa dinâmica. Para treinar e operar modelos, as firmas precisam reunir grandes quantidades de informações e transferi-las rapidamente para os processadores. Isso elevou a demanda não apenas por chips mas também pelos sistemas que armazenam e disponibilizam os dados.
Scarafia compara essa infraestrutura ao cimento de uma construção. “Em uma época, ninguém se importava com o cimento ou com a base. O foco estava nos serviços. Hoje voltamos a ser um dos pontos mais demandados”, afirma. “É possível desenvolver milhões de aplicações maravilhosas, mas, se não houver infraestrutura, as companhias não conseguem fazê-las funcionar.”

O interesse já aparece nas vendas da Vantara. No primeiro trimestre do ano fiscal de 2026, entre abril e junho, a receita global da subsidiária cresceu 12% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Somente o negócio de armazenamento avançou 45%, enquanto o mercado mundial de sistemas externos de armazenamento corporativo cresceu 22,7%, segundo a IDC, consultoria especializada no setor de tecnologia.
Na América Latina, o crescimento, porém, encontra um obstáculo adicional: o preço. Processadores, memórias e unidades de armazenamento ficaram mais caros com o desequilíbrio entre oferta e demanda ampliado pela IA.
Daniel Scarafia afirma que alguns clientes anteciparam compras para evitar novos aumentos, enquanto outros adiaram projetos. Andrea Fodor diz que há firmas comprando metade ou menos da capacidade inicialmente planejada.
“É um mercado muito orientado a custos”, afirma Scarafia. Uma das alternativas oferecidas pela Vantara é instalar a infraestrutura nas dependências do cliente, mas cobrar conforme o consumo, em um modelo semelhante ao da nuvem. Assim, o contratante pode ampliar a capacidade sem desembolsar todo o investimento de uma vez.
Do industrial ao digital
A Hitachi nasceu dentro da Hitachi Mine, uma mina de cobre na província japonesa de Ibaraki. Em 1910, o engenheiro Namihei Odaira e sua equipe fabricaram um motor elétrico de indução de cinco cavalos, dando origem ao grupo. A divisão de máquinas se tornou uma firma independente dez anos depois e manteve o nome do lugar onde surgiu.
Com ações negociadas na Bolsa de Tóquio desde 1949, a Hitachi não é controlada por uma família, pelo governo japonês ou por outro grupo firmarial.
Seu capital é pulverizado entre aproximadamente 442 mil acionistas. Trata-se de uma “corporation” no sentido clássico: uma companhia aberta sem dono ou controlador definido.
Os dois maiores acionistas registrados são bancos japoneses que mantêm os papéis em custódia para fundos e outros investidores. Pessoas e instituições estrangeiras detinham 55,3% do capital em junho de 2026.

Nem sempre a estrutura foi tão dispersa. A Hitachi nasceu dentro da operação da mineradora Kuhara e se tornou uma companhia independente em 1920.
Posteriormente, integrou o antigo conglomerado Nissan – não apenas a montadora conhecida atualmente, mas um grupo que reunia negócios de mineração, produtos químicos, máquinas e automóveis.
Depois da Segunda Guerra Mundial, os conglomerados firmariais japoneses foram reorganizados. A Hitachi passou por esse processo, dando origem à estrutura societária pulverizada que mantém atualmente.
Hoje, o comando está com Toshiaki Tokunaga, funcionário da Hitachi desde 1990. Ele assumiu como CEO global em abril de 2025 com a missão de aproximar os diferentes negócios do conglomerado e colocar o digital no centro da estratégia do grupo.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Rikardy Tooge