Como o Grupo Sada, da família Medioli, se tornou um império bilionário no Brasil longe dos holofotes

A cada dois carros novos que chegam a uma concessionária brasileira, é provável que ao menos um tenha viajado em cima de um caminhão-cegonha de um grande grupo firmarial que é pouco conhecido nacionalmente – e de forma deliberada: o Sada.
Fundado há meio século em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, o grupo firmarial da família Medioli se consolidou como um dos principais conglomerados privados de Minas Gerais, com faturamento estimado em mais de R$ 6 bilhões por ano. Atualmente, a sede do grupo está em Betim.
Além do transporte de veículos, o grupo fabrica autopeças para a Stellantis, dona da Fiat, da Jeep, da Peugeot e de outras marcas, recicla automóveis em escala industrial, produz etanol, distribui combustível em nove estados, publica o jornal de maior circulação de Minas e mantém a equipe de vôlei masculino mais vitoriosa da história do esporte brasileiro, o Sada Cruzeiro.
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É um conglomerado de capital fechado que opera em pelo menos sete verticais: logística, indústria, energia, comunicação, reciclagem, reflorestamento e esporte. São mais de 30 firmas, cerca de 8 mil funcionários e operações em outros três países (Argentina, Chile e Uruguai).
Nos últimos dois anos, o Sada anunciou R$ 1,4 bilhão em investimentos, sendo o mais recente deles a Igar, uma planta de reciclagem integrada de veículos inaugurada em fevereiro em Igarapé (MG), com aporte de R$ 200 milhões. A unidade tem capacidade para processar 300 mil veículos por ano em parceria com a ArcelorMittal – a maior do gênero na América Latina.
A figura por trás do Grupo Sada é o italiano Vittorio Medioli, que chegou ao Brasil em 1976, aos 25 anos, para instalar uma filial da transportadora da família ligada à Fiat. Esperava cumprir a missão e voltar para a Europa. Quando seus parentes quiseram encerrar a operação brasileira, Vittorio comprou a firma e ficou.
“Eu queria ter uma firma relativamente pequena, que não me desse muito trabalho. Mas não é assim. Quando você é um peixe de 10 centímetros, aquele de 20 quer te engolir. O mercado te empurra”, disse o empresário em entrevista recente ao jornal O Tempo, veículo que é controlado pelo Sada.
Desde então, a espinha dorsal do conglomerado é o transporte automotivo. A Sada Transportes foi a primeira firma do grupo, nasceu como “cegonheira” da Fiat, cuja principal fábrica fica em Betim, e cresceu junto com a indústria automobilística até se tornar a maior operação de logística de veículos da América Latina.

“Muitos fornecedores italianos que vieram com a Fiat desapareceram. Veja a Magneti Marelli [que fornecia sistemas eletrônicos e escapamentos para o grupo], que desapareceu. O Vittorio ficou e cresceu. Isso tem um mérito enorme”, diz uma pessoa próxima ao empresário.
O Sada
O nome Sada é acrônimo do italiano Spedizione Autotrasporti Depositi Associati, algo como “Expedição, Autotransportes e Depósitos Associados”.
Hoje o grupo opera para praticamente todas as montadoras instaladas no país por meio de uma lista de subsidiárias: Brazul, Transzero, Sada Centro-Oeste, Dacunha, Elta (Argentina), além da Atle Metalúrgica, que fabrica os próprios reboques-cegonha.
Só em 2025, transportou 2,5 milhões de veículos, incluindo 238 mil para exportação, e movimentou 432 mil toneladas em carga geral, um crescimento de 40% em relação ao ano anterior. O grupo já chegou a deter 55% do mercado brasileiro de logística de veículos novos.
Em outras frentes, a OMR Componentes Automotivos, em Sete Lagoas, fornece blocos de motor e cabeçotes para a Stellantis.
A Sada Bioenergia opera uma usina de etanol de cana no semiárido mineiro e, em setembro de 2025, anunciou R$ 1,1 bilhão em duas novas usinas de etanol de milho.

Já a Sada Combustíveis distribui diesel e etanol em dez filiais, com crescimento de 37% na receita em 2024. Soma-se a isso 11 mil hectares de reflorestamento, concessionárias Fiat e Iveco e o Sada Cruzeiro Vôlei, pentacampeão mundial da modalidade.
Vittorio também investe em comunicação. A Sempre Editora, dirigida por sua esposa Laura Machado, publica o jornal O Tempo e o Super Notícia, que em 2010 chegou a ultrapassar a Folha de S.Paulo em circulação diária. O portfólio inclui rádios, portais e jornais regionais, fazendo do Sada um dos principais grupos de mídia de Minas Gerais.
Raízes no Brasil
Perto de completar 75 anos no início de maio e cada vez mais próximo da política, o empresário já encaminhou a sucessão nos negócios, embora siga como presidente do grupo. “Enquanto estou aqui, eu conduzo as firmas”, disse Vittorio.
Os quatro filhos ocupam cargos executivos no grupo: Marina e Daniela, as mais velhas, são diretoras-executivas desde 2014; Luísa assumiu a diretoria de sustentabilidade em 2025; Luca foi promovido a diretor de novos negócios em 2026. “São firmas que podem ficar para eles, podem ficar para o mundo. O importante é o legado daquilo que você faz”, acrescenta.
Daniela Medioli, de 35 anos, é hoje a vice-presidente do Sada, a face mais visível do conglomerado e a sucessora mais provável na presidência, acumulando responsabilidade sobre áreas como jurídico, monetário, governança e gestão de pessoas.

Nascido em Parma, na região da Emília-Romanha italiana, Medioli desembarcou no Brasil sem diploma universitário e sem falar uma palavra de português.
“O português do mineiro, especialmente dos homens nas ruas, era árabe para mim”, escreveu em texto autobiográfico. “Enquanto em São Paulo, altamente povoada de italianos, eu parecia estar em casa.”
Naturalizou-se brasileiro em 1981 e casou-se com Laura Machado, bisneta do escritor Aníbal Machado e sobrinha-neta da dramaturga Maria Clara Machado. A família da mulher o conectou ao universo literário mineiro, mas o gosto pelas letras já vinha de Parma.
Pessoas próximas o descrevem como um leitor voraz de história romana, que costuma presentear amigos com livros sobre imperadores e o período clássico. “O Vittorio tem um grande conhecimento literário, não é daqueles empresários que só falam de negócios”, prossegue outra fonte.
Em 2011, Medioli foi submetido a um transplante de fígado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, após seis meses na fila. “Me despedi do mundo aos 60 anos”, contou em entrevista recente. Saiu pesando pouco mais de 40 quilos, com a sensação, segundo ele, de ter “voltado de outro planeta”.
Vida pública
Vittorio transita pela política desde os anos 1990. Foi deputado federal por quatro mandatos consecutivos entre 1991 e 2007, passando pelo PSDB e pelo PV.
Em 2016, elegeu-se prefeito de Betim no primeiro turno e foi reeleito em 2020 com 76% dos votos. À época, declarou patrimônio de R$ 352 milhões à Justiça Eleitoral, o que fez dele o prefeito mais rico do Brasil. Atualmente está filiado ao PL e pretende disputar uma vaga no legislativo estadual de Minas Gerais.
A trajetória firmarial e política, no entanto, carrega controvérsias relevantes. Em 2018, Vittorio foi denunciado pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) por formação de cartel e associação criminosa no transporte de veículos novos, o chamado “cartel dos cegonheiros”.
A Polícia Federal, na Operação Pacto de 2019, cumpriu mandados de busca na Brazul, transportadora do grupo. Tanto o Sada quanto a Tegma, outra grande transportadora envolvida nas investigações, negam a existência de cartel. Os processos seguem em andamento na Justiça.
A polêmica que mais ressoou fora de Minas, porém, foi de outra natureza. Em novembro de 2022, dias após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial, Vittorio usou sua coluna semanal no jornal O Tempo para propor o que chamou de “divórcio consensual” entre regiões do Brasil.
No texto, afirmou que a eleição havia revelado “dois Brasis: um que produz mais e arrecada impostos, e outro, paradoxalmente mais carente, que vive das transferências”. Publicou retratação dias depois, afirmando que “em momento nenhum” teve intenção preconceituosa.
Procurados pelo InvestNews, Sada e Vittorio não concederam entrevista.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Rikardy Tooge


