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Correios: estatal precisa de uma reestruturação até para ser privatizada

Os Correios fecharam o primeiro semestre de 2026 com prejuízo de R$ 5,5 bilhões, 30% maior que o do mesmo período do ano passado. É o 16º trimestre seguido no vermelho. A estatal virou a maior fonte de déficit entre as firmas públicas federais. No ano passado, fechou em R$ 8,5 bilhões negativos.

A companhia chega às eleições em uma ruína financeira. E os dois candidatos com chances reais propõem destinos opostos para ela, claro.

“Não considero vender os Correios. Considero recuperar os Correios”, disse Lula em entrevista à Globo, em agosto. “Desde 1985 os Correios vivem crise e alguém quer privatizar. É uma firma importante e está em todos os municípios.”

Lula já admitiu transformar a estatal em uma sociedade de economia mista, em 2025. Nesse caso, a União continua com o controle (a maioria das ações com direito a voto), mas sócios privados podem comprar o resto. É o modelo da Petrobras e do Banco do Brasil. Na prática, seria abrir o capital dos Correios sem entregar o comando.

O problema é encontrar interessados em ações de uma firma que virou uma máquina de queimar dinheiro.

Flávio Bolsonaro bate na tecla da privatização. “Os Correios têm que ser privatizados, para começar. É uma unanimidade sua ineficiência e a falta de capacidade de investimento”, disse ao Estadão em junho.

Mas ele reconhece que não seria fácil: “Será que hoje alguém se interessaria por comprar os Correios? Com essa dívida absurda que ele tem?”, disse numa entrevista à Band.

Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio, não vê possibilidade de vender os Correios na situação em que a firma se encontra. “Se eu te der por um real, você leva R$ 9 bi de dívida [referindo-se, na verdade, ao déficit anual]”, disse numa entrevista ao UOL em setembro.

“No mercado, a gente chama isso de ‘ativo estressado‘. Você tem que reestruturar (…) para conseguir uma destinação”.

O empréstimo com garantia do Tesouro

O plano do governo Lula para os Correios está em andamento. Começou com o acerto de um empréstimo de R$ 12 bilhões com cinco bancos (BB, Caixa, Bradesco, Itaú e Santander), a 115% do CDI, deixando o Tesouro Nacional como fiador.

Em fevereiro, o Conselho Monetário Nacional autorizou mais R$ 8 bilhões para futuros empréstimos, também com o Tesouro dando a garantia.

Por cima disso, o governo se comprometeu a colocar R$ 6 bilhões extras até o fim de 2027. Trata-se de uma obrigação do contrato de empréstimo com os bancos. A União se comprometeu a reforçar o caixa da estatal. O aporte entra no Orçamento do ano que vem. Em outras palavras, essa parte da conta vai direto para o contribuinte.

O plano também passa por enxugar a folha de pagamentos. O primeiro programa de demissão voluntária do ano mirava 10 mil funcionários e atraiu 3.075, só 30% da meta. Em agosto, a firma abriu um segundo, com indenizações de até R$ 459 mil. As adesões terminaram na última quarta-feira (30), e os Correios ainda não divulgaram o resultado.

A queda

Parte do problema dos Correios veio do e-commerce. Até 2024, a estatal tinha praticamente o monopólio da entrega de compras internacionais, aquelas encomendas de Shein, Shopee e AliExpress… O programa Remessa Conforme, do Ministério da Fazenda, permitiu que firmas privadas também fizessem esse desembaraço, e as plataformas levaram a entrega para operadores próprios ou parceiros.

Em números: a receita da estatal com encomendas internacionais caiu de R$ 3,9 bilhões em 2024 para R$ 1,3 bilhão em 2025. O negócio chegou a responder por 22% do faturamento em 2023. No ano passado, foi menos de 8%. Em maio, o governo zerou a “taxa das blusinhas”, mas a exclusividade dos Correios na parte alfandegária não voltou.

E não é só isso, claro. O negócio encolheu. Cartas já foram a principal fonte de receita. Agora ocupam o mesmo museu das máquinas de escrever e dos chapéus de feltro.

O comércio eletrônico, que poderia compensar com vantagem, virou terreno de concorrentes: Mercado Livre, Amazon e cia ou têm logística própria ou contrataram transportadoras privadas.

Além disso, a Constituição obriga a União a prestar serviço postal em todos os municípios do país. Essa carga fica, naturalmente, com os Correios. Só isso custa cerca de R$ 4 bilhões por ano, segundo o presidente da firma, Emmanoel Rondon.

A despesa não encolheu na mesma velocidade. Só os salários consumiram R$ 5,2 bilhões no primeiro semestre de 2026, e os programas de demissão voluntária ficaram longe da meta. As provisões para perdas na Justiça subiram 44,5%, para R$ 1,6 bilhão.

A própria diretoria financeira descreveu a situação em fevereiro como “um ciclo vicioso de perda de clientes e receitas”.

Resolvam-se ou não os problemas, privatizar os Correios depende do aval do Congresso. Em 2021, no governo Bolsonaro, o projeto de privatização passou na Câmara. Mas parou no Senado.

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Autor: Redação InvestNews

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