Depois de um século no Brasil, Lupo colhe frutos de expansão internacional, do Paraguai a Portugal

Por mais de um século, a Lupo cresceu sem sair do Brasil. Meias e roupas íntimas vendidas em quase 35 mil pontos no país bastavam para sustentar a companhia fundada em 1921 por um imigrante italiano em Araraquara. Isso começou a mudar em 2024, quando a firma inaugurou sua primeira loja própria fora do Brasil, em Portugal; e no ano passado, quando abriu uma fábrica no Paraguai.
Os dois movimentos são os primeiros passos de um plano estratégico que, agora, a companhia quer tirar de vez do papel: crescer no mercado internacional. Essa é a missão assumida por Carlos Alberto Mazzeu, que se tornou CEO da Lupo em junho, sendo o primeiro executivo fora da família fundadora a comandar a centenária firma.
Braço direito da ex-CEO, Liliana Aufiero – neta do fundador Henrique Lupo –, Mazzeu está na firma há 40 anos e era, até então, vice-presidente e diretor de relações com investidores. CEO por 33 anos, Liliana deixou a presidência executiva e assumiu um posto consultivo, ainda se mantendo próxima da firma.
Agora, o mandato da nova gestão, diz Mazzeu, é elevar a receita externa do equivalente a menos de 2% para 5% do faturamento nos próximos anos.
“Portugal foi o primeiro movimento desse processo e hoje representa nossa base para o desenvolvimento da presença das marcas na Europa”, disse Mazzeu ao InvestNews em entrevista por e-mail. “Agora, nosso próximo foco é a América do Sul.”
A receita externa somou R$ 8,2 milhões no primeiro semestre, ou 1,1% dos R$ 767 milhões faturados pelo grupo. O número caiu 17,7% em um ano e ajuda a dimensionar o estágio da estratégia: a Lupo não apresenta lista de países prioritários, calendário de aberturas ou projeções financeiras para a operação internacional. Mas já colhe lições valiosas para os próximos passos.
Made in Paraguai
Além de vender mais produtos no mercado externo, a Lupo passou a produzir também fora do país. A firma investiu R$ 30 milhões na construção da fábrica em Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil, hoje em operação.
A unidade tem capacidade para produzir até 20 milhões de pares de meia por ano, bem menos que os 70 milhões de pares das outras quatro plantas do grupo, localizadas em Araraquara (SP), Itabuna (BA), Pacatuba (CE) e Maracanaú (CE), que respondem por 90% do volume produzido pela Lupo.
A fábrica paraguaia opera a cerca de 70% da eficiência esperada, ainda em processo de consolidação de equipes e conhecimento técnico local.
A firma diz que a unidade paraguaia “não representa uma transferência da produção da Lupo para fora do Brasil”. Segundo a companhia, a unidade foi criada como uma expansão da capacidade produtiva e se soma às operações no Brasil.
O comando da Lupo estima que o custo de produção no Paraguai seja aproximadamente 28% menor do que no Brasil. Parte da diferença vem da “maquila”, regime paraguaio que concede incentivos fiscais à produção destinada à exportação, além dos custos mais baixos de energia e mão de obra no país.
No primeiro semestre de 2026, as firmas instaladas sob esse regime exportaram US$ 717 milhões. Desse montante, têxteis e confecções responderam por 16% das exportações e o Brasil absorveu 62% das exportações totais acumuladas de janeiro a junho, segundo o Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai.
A Lupo não é a única fabricante brasileira que cruzou a fronteira. Em 2026, a Karsten, de toalhas e roupas de cama, inaugurou sua primeira fábrica fora do Brasil, em Minga Guazú, na região metropolitana de Ciudad del Este. A planta é dedicada a itens de banho e tem o objetivo inicial de abastecer o mercado brasileiro.
Para a Lupo, o endereço no país vizinho é uma ferramenta para enfrentar uma disputa que ocorre dentro de casa. O mercado brasileiro de vestuário convive com a pressão de produtos importados, sobretudo asiáticos, e com a concorrência de marcas de fast fashion.
A companhia diz não pretender competir só por preço mas combinar uma estrutura de custo mais enxuta com atributos que considera centrais para suas marcas: qualidade, conforto, inovação e tecnologia têxtil.
A expansão da fábrica dependerá do amadurecimento da operação. Mazzeu afirma que novos investimentos podem ser feitos gradualmente, à medida que a unidade atinja os patamares de eficiência previstos e consolide o conhecimento técnico local.
Vitrine portuguesa
Em Portugal, o esforço da Lupo está na frente comercial. A firma abriu sua primeira loja própria na Europa no Arrábida Shopping, em Vila Nova de Gaia, na região do Porto, em 2024.
A escolha levou em conta a afinidade cultural, a presença de brasileiros na região e a possibilidade de vender diretamente ao consumidor.
A loja permite à companhia testar sortimento, preços, comunicação e atendimento em um mercado novo. São aprendizados que dificilmente teria apenas por meio de distribuidores ou revendedores.
A Lupo também já havia informado que pretendia desenvolver um e-commerce voltado ao país.
A experiência portuguesa não se traduziu, até aqui, em uma sequência acelerada de inaugurações na Europa. Mazzeu diz que cada mercado será avaliado de acordo com o potencial de consumo, a aderência das marcas, os canais de distribuição e o momento econômico e comercial.
Na Europa, a prioridade é entender posicionamento, construção de marca, distribuição e experiência do consumidor. Na América Latina, a firma vê maior peso para proximidade geográfica, logística, acordos comerciais e competitividade operacional. Um ambiente em que a fábrica no Paraguai pode se tornar uma vantagem.
O movimento da Lupo acontece enquanto outras marcas brasileiras de moda esportiva também olham para fora.
A Track & Field, que consolidou sua posição no setor no Brasil com crescimento de 20,7% nas vendas e alta de 15,9% em mesmas lojas no segundo trimestre, também começou a estruturar presença internacional. Escolheu Portugal como ponto de partida, com a abertura de duas novas franquias no país até o fim do ano.
Mais esportiva
A estratégia internacional avança enquanto a companhia ajusta o negócio doméstico. A Lupo Sport faturou R$ 209,4 milhões no primeiro semestre, alta de 23,8% em um ano, impulsionada pelo avanço do vestuário esportivo e pela ampliação da distribuição multimarcas.
A marca Lupo tradicional teve queda de 2,6%, para R$ 453,3 milhões, enquanto a TriFil recuou 12,6%.
O desempenho da Lupo Sport dá uma pista de quais bandeiras a firma pretende desenvolver com mais força fora do país. Em Portugal e nos próximos mercados avaliados, é uma das marcas escolhidas para acompanhar a Lupo tradicional – a mesma que, até pouco tempo atrás, vendia só dentro do Brasil.
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Autor: Raquel Brandão

