Recuperação judicial bate recorde no Brasil — veja as 5 maiores RJs da história
Em agosto, duas marcas conhecidas dos brasileiros entraram para a lista de firmas em recuperação judicial. O Grupo Casas Bahia pediu recuperação judicial para reestruturar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas. Já o Grupo Gennius, dono do Habib’s, Ragazzo e Tendal Grill, também deu entrada no pedido, com uma dívida declarada de R$ 265,2 milhões.
Os dois casos chegam num momento em que o número de firmas em recuperação judicial no país é o maior já registrado. O Monitor RGF-BizDoc, que reúne dados de insolvência firmarial, mostra essa evolução recente:
- Fim de 2025: 5.680 firmas em RJ no Brasil — alta de 24,3% sobre 2024, recorde histórico
- 4º trimestre de 2025: 510 novas firmas entraram em recuperação, o maior volume trimestral já contabilizado
- 2º trimestre de 2026 (dado mais recente disponível): 5.535 firmas em RJ, com 419 novas entradas no período
O agronegócio respondeu por uma em cada três desses pedidos de recuperação judicial no segundo trimestre. Por região, o avanço mais forte está no chamado cinturão de grãos, com destaque para Mato Grosso do Sul, que teve alta de 111% em 12 meses, seguido por Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, todos com crescimento de dois dígitos no período.
Já São Paulo continua concentrando o maior número de firmas em recuperação, com 2.263 casos, mas com incidência proporcionalmente menor, dado o tamanho de sua base firmarial.
Uma década de recordes em recuperação judicial
O cenário atual é herdeiro de uma sequência de recuperações judiciais que redefiniram o tamanho desse tipo de processo no Brasil. Nos últimos dez anos, cinco casos se tornaram referência pelo volume de dívida envolvida — e cada um deles carrega uma história diferente sobre o que aconteceu depois do pedido.
| firma | Ano do pedido de RJ | Valor da dívida | Status atual* |
|---|---|---|---|
| Odebrecht (Novonor) | 2019 | R$ 83 bilhões | Parcialmente encerrada |
| Oi | 2016 (1ª RJ) / 2023 (2ª RJ) | R$ 65 bi / R$ 45 bi | Falência decretada |
| Samarco | 2021 | R$ 50 bilhões | Encerrada |
| Americanas | 2023 | R$ 43 bilhões | Em fase final de encerramento |
| Sete Brasil | 2016 | R$ 21,7 bi → R$ 36 bi | Falência decretada |
*Status verificado diretamente nos autos judiciais, com link disponível no quadro, no nome de cada firma
Odebrecht
Hoje Novonor, a firma protocolou em 2019 o maior pedido de recuperação judicial do Brasil, com passivo total de R$ 98,5 bilhões — dos quais R$ 83 bilhões entraram efetivamente na renegociação judicial —, em meio ao desgaste da Operação Lava Jato. Seis anos depois, o processo segue sem desfecho único: dez das vinte firmas do grupo já saíram da RJ, mas as holdings que concentram o grosso da dívida, como a própria Novonor e a Kieppe, continuam no processo. Em abril, a subsidiária NSP Investimentos chegou a abrir um novo pedido, ligado a uma disputa sobre ações da Braskem dadas em garantia a bancos credores.
Oi
Único nome da lista com duas RJs em dez anos: a primeira, pedida em 2016 com dívida de R$ 65 bilhões, foi concedida em 2018 e encerrada em dezembro de 2022, já com a dívida líquida reduzida a R$ 18,3 bilhões. Menos de três meses depois, em março de 2023, a firma voltou à Justiça com uma segunda RJ, agora com passivo de R$ 45 bilhões. O plano não se sustentou e, no final de agosto deste ano, a Justiça do Rio decretou a falência da companhia, encerrando quase uma década de reestruturações.
Samarco
O caso com origem mais distinta entre os cinco: a mineradora pediu recuperação judicial em abril de 2021, cinco anos e meio após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, para reestruturar passivo superior a R$ 50 bilhões junto a cerca de dez mil credores. O plano foi homologado em 2023, e a recuperação foi encerrada em agosto de 2025 — um dos desfechos mais rápidos entre os grandes casos do país.
Americanas
A Americanas protocolou pedido de recuperação judicial em janeiro de 2023, dias depois de revelar um rombo contábil estimado em R$ 25,2. O total de créditos protocolados somou R$ 43 bilhões. Em março deste ano, a firma pediu o encerramento formal da RJ, e os pareceres mais recentes do administrador judicial e do Ministério Público já são favoráveis à conclusão do processo.
Sete Brasil
O exemplo de como uma RJ pode se arrastar até não haver mais saída. Criada para fornecer sondas de perfuração à Petrobras, a firma entrou em recuperação judicial em 2016 com passivo de R$ 21,7 bilhões, ligado à Lava Jato. Em oito anos, foram 44 assembleias de credores e 18 versões do plano — sem que a companhia pagasse mais que uma fração simbólica das dívidas. Em dezembro de 2024, com o passivo já em R$ 36 bilhões e menos de 0,05% dos créditos quitados, a Justiça do Rio decretou a falência do grupo.
Juntos, os cinco casos somam mais de R$ 250 bilhões em dívidas — valor equivalente ao PIB do Paraguai em 2025 — e resumem os caminhos possíveis de uma recuperação judicial no Brasil: de reestruturações concluídas, como a da Samarco, a processos que se arrastam por anos até terminar em falência, como aconteceu com a Oi e a Sete Brasil.
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Autor: Simone Costa

