Sem InterCement e de saída da Motiva, a antiga Camargo Corrêa tenta se reconstruir

Em menos de um ano, a antiga Camargo Corrêa, hoje chamada Mover, passou pelo seu maior encolhimento em quase 90 anos de história. Nesse período, perdeu dois dos últimos pilares do conglomerado construído pelo empresário Sebastião Camargo.
Em recuperação judicial desde o fim de 2024, o grupo concordou em entregar a InterCement, terceira maior fabricante de cimento do país, aos credores. Agora, prepara-se para concluir a venda de sua participação de 14,86% na Motiva, novo nome da CCR, ao Bradesco BBI.
A operação retira do portfólio seu principal ativo remanescente de infraestrutura, uma companhia que a própria Camargo Corrêa ajudou a criar em 1999 com outras grandes empreiteiras.
A atual Motiva nasceu da reunião das concessões rodoviárias de Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Odebrecht, Serveng-Civilsan e outros investidores. Com o tempo, seu bloco de controle ficou concentrado nos grupos Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Soares Penido.
A Andrade Gutierrez vendeu sua participação em 2021, abrindo espaço para a entrada de Itaúsa e Votorantim.
Agora é a Mover que deixa o bloco, deixando a firma sob o controle de outros grandes grupos familiares: os Setúbal, os Ermírio de Moraes e ainda com os Soares Penido.
Vão-se os anéis…
A venda da participação na Motiva faz parte do acordo da Mover com o Bradesco BBI. A dívida surgiu em maio de 2024, quando o banco acionou uma cláusula que obrigava o grupo a recomprar sua fatia na InterCement. As ações da Motiva foram dadas como garantia desse pagamento.
Meses depois, Mover e InterCement entraram em recuperação judicial. O passivo das firmas incluídas no processo foi estimado em R$ 21,1 bilhões.
O balanço mais recente da Mover ajuda a mostrar a deterioração financeira no grupo da família Camargo.
Ao final de 2025, somente a holding tinha uma obrigação de R$ 3,59 bilhões relacionada à recompra das ações da InterCement. Seus ativos somavam R$ 3,8 bilhões, mas havia apenas R$ 14 milhões em caixa e o patrimônio líquido era negativo em R$ 935 milhões.
A fragilidade também aparece na capacidade de sustentar a própria estrutura.
Como uma holding sem operação direta, a Mover depende dos resultados e dos repasses de suas investidas. Suas atividades operacionais consumiram R$ 52,9 milhões em 2025 e a companhia recebeu R$ 20 milhões em dividendos. Ao todo, o caixa diminuiu R$ 55,8 milhões no exercício.
Apesar desse quadro, a prestação de contas mais recente da administradora judicial indica que o grupo vinha cumprindo os pagamentos já exigíveis previstos no plano de recuperação.
Nesse cenário, a fatia na Motiva era o ativo mais valioso e com maior liquidez disponível para equacionar a dívida com o Bradesco. As ações são negociadas em bolsa e sua venda já era tratada como peça central do plano de recuperação.
A operação aprofundará um encolhimento que ganhou velocidade com a recuperação judicial. Em abril deste ano, a implementação do plano da InterCement concluiu a saída da Mover do capital da terceira maior fabricante de cimento do país, dona das marcas Cauê, Goiás e Zebu.
A antiga Camargo Corrêa foi substituída por três grupos principais de investidores: a Latcem, veículo liderado pelo empresário argentino Marcelo Mindlin; a gestora americana Redwood Capital Management; e fundos administrados pela Moneda Patria Investments.
Os novos acionistas também aportaram US$ 110 milhões na cimenteira.
…ficam os dedos
Depois dessas saídas, restará uma holding muito menor, com o mercado imobiliário como principal frente operacional e participações em negócios de engenharia, construção naval e firmas de menor porte.
O encolhimento alcançou até a atividade que deu origem ao conglomerado. Constituída em 1939 por Sebastião Camargo e Sylvio Brand Corrêa como empreiteira, a Camargo Corrêa diversificou-se ao longo das décadas e tornou-se um dos maiores grupos firmariais do país.
A trajetória começou a se inverter com a Operação Lava Jato, que atingiu as principais construtoras brasileiras em investigações sobre esquemas de corrupção e acelerou a redução de suas operações.
Na Mover, a antiga empreiteira sobrevive juridicamente como Camargo Corrêa Infra, a CC Infra. Na prática, porém, a companhia deixou de disputar novas obras e encerrou 2025 sem receita líquida, depois de faturar R$ 900 milhões quatro anos antes.
No setor imobiliário estão a Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário, a CCDI, e a HM Engenharia, voltada principalmente à construção de moradias populares.
Pelos números, a CCDI parece ser hoje uma das principais fontes de recursos dos negócios remanescentes. Segundo a administradora judicial, a incorporadora distribuiu R$ 155 milhões em dividendos em 2025, boa parte destinada a credores.
A Mover também continua dona de metade do Estaleiro Atlântico Sul, em Pernambuco, ao lado da Somah, novo nome do grupo Queiroz Galvão. O estaleiro está em recuperação judicial desde 2020 e também vende ativos para reduzir uma dívida que supera R$ 2 bilhões.
O portfólio inclui ainda sociedades como Fazenda GCSJ, West Lake e Ayuspe. Diferentemente da InterCement e da Motiva, porém, esses negócios não têm escala suficiente para recolocar a Mover no patamar anteriormente ocupado pelo grupo Camargo Corrêa.
Cerca de 92% dos ativos da holding estavam concentrados em investimentos e ativos mantidos para venda ao final de 2025.
A Mover apurou lucro de R$ 158,3 milhões naquele exercício, mas todo o resultado foi usado para reduzir prejuízos acumulados. Não houve distribuição de dividendos aos acionistas.
Os herdeiros
Mesmo depois do encolhimento, a Mover continua com os descendentes de Sebastião Camargo. O controle está organizado entre os três ramos formados pelas filhas do fundador, enquanto a gestão cotidiana foi entregue a profissionais sem vínculo familiar.
A controladora direta da Mover é a Participações Morro Vermelho, holding da família. O nome é o mesmo da fazenda localizada em Jaú, cidade natal de Sebastião Camargo.
A denominação atravessou diferentes negócios particulares dos Camargo: em 1985, passou a batizar a firma de aviação executiva criada originalmente para atender ao conglomerado, a Morro Vermelho Táxi Aéreo.
Documentos societários compilados pelo InvestNews indicam que o controle está distribuído entre os ramos das filhas de Sebastião: Rosana Camargo de Arruda Botelho, de 76 anos; Renata de Camargo Nascimento, de 75; e da caçula Regina de Camargo Pires Oliveira Dias, de 72.
Cada filha possui duas holdings familiares, cujas denominações reproduzem as iniciais de uma das irmãs. Há ainda a R.R.R.P.N. Empreendimentos e Participações, veículo comum que tem Rosana, Renata e Regina como acionistas.
Entre os netos de Sebastião Camargo, Daniela Camargo Botelho de Abreu Pereira, filha de Rosana, é atualmente a descendente mais próxima da administração central da Mover. Fruto da união de Rosana com o empresário e aviador Fernando de Arruda Botelho, ela passou a integrar o conselho de administração da holding em 2024.
Aos 49 anos, Daniela é a única integrante da família no conselho da Mover. Tem perfil discreto, com poucas aparições públicas, e também integra a administração do Instituto Fernando de Arruda Botelho, ao lado dos irmãos Elisa e Fernando Augusto. Fundado em 1994, quando Fernando ainda era vivo, o instituto esteve historicamente ligado a projetos culturais e socioambientais.
A presença de Daniela no conselho não significa, porém, que ela comande as operações cotidianas. Os outros seis assentos no conselho da Mover são ocupados por profissionais sem vínculo familiar conhecido, entre eles Leonardo de Mattos Galvão, presidente do colegiado e também CEO do grupo.
Outros netos aparecem na administração das holdings familiares (veja na arte abaixo).
Procurada pelo InvestNews, a Mover não concedeu entrevista.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Rikardy Tooge
