Taxas de debêntures, CRIs e CRAs voltam a se aproximar do maior nível do ano, mas cuidado
As debêntures, os CRIs e os CRAs entraram no segundo semestre em um cenário de copo meio cheio ou meio vazio.
Algumas gestoras, como a Leto, veem oportunidades num momento de taxas historicamente altas; outras, como o Patria, acham que vale esperar mais antes de entrar: enxergam juros ainda mais altos no horizonte próximo.
Bem no centro dessa divergência aparecem os “spreads”, ou seja, o prêmio que os títulos emitidos por firmas pagam a mais comparados aos títulos públicos. Por exemplo, com o Tesouro IPCA+ 2040 pagando uma remuneração de inflação mais 7,5% ao ano, o natural é que o um papel privado de duração semelhante pague algo como IPCA+7.9% – um spread, aí, de 0,4 ponto percentual.
A grande questão: para onde vão as taxas daqui em diante?
Se os spreads voltarem a subir de uma hora para outra, quem comprou papéis como debêntures ou certificados de recebíveis imobiliários (CRI) ou do agronegócio (CRA) agora pode ver o saldo em reais da carteira encolher.
Por outro lado, com a dissipação dos choques das várias recuperações extrajudiciais e pedidos de proteção contra credores feitos por companhias conhecidas nos últimos meses, os spreads tiveram um ajuste para baixo. Chegaram a cair para 0,2 ponto percentual na mínima de julho.
Na renda fixa, quando as taxas caem significa que o valor em reais dos papéis está aumentando. E, no setindo contrário, se voltam a subir, implica que os preços desses ativos estão em queda, o que se reflete em um saldo na carteira.
E elas voltaram a subir, em meio à retomada das hostilidades entre EUA e Irã. O Índice de Debêntures Anbima (IDA-IPCA) mostra que a taxa média das debêntures subiu para de IPCA+8,49%, em 15 de julho, vindo de IPCA+ 6,7% duas semanas antes.
Com isso, o spread médio voltou a subir em meados de julho para 0,36 ponto frente a 0,34 ponto da média de junho.
“O nível atual dos spreads de debêntures de infraestrutura me parece muito bom”, afirma o sócio e chefe de infraestrutura da Leto Capital, Pedro Guedes.
O especialista explica que o prêmio médio das debêntures incentivadas em relação aos títulos públicos atrelados ao IPCA em junho estava em 0,3 ponto percentual. Em julho, subiu um pouco para 0,36 ponto, conforme o índice IDEX-Infra, calculado pela Leto.
“Comparado ao início do ano, quando estava bem mais apertado, em 0,1 ponto, faz sentido aumentar posição em títulos ‘ high grade’ [de melhor perfil de crédito]”, ele diz
A perspectiva: diante do menor impacto dos choques das recuperações judiciais e extrajudiciais de grandes firmas, o prêmio possa recuar para os patamares de janeiro de 2026, ou seja, aquele visto antes dos eventos. E aí o saldo de quem investir agora sobe no curto prazo.
Pode até parecer pouco, mas uma queda de 0,26 ponto percentual pode representar um ganho de quase 3% no saldo em reais.
Cenário pode mudar no médio prazo
Já para Alexandre Coutinho, sócio da Pátria e responsável pela carteira de crédito da gestora, existem riscos, principalmente no médio prazo. “Se você olha uma janela suficientemente longa – últimos cinco anos –, os spreads continuam comprimidos”, afirma.
A visão contraria a corrente dominante. “Se você conversar com 99% dos gestores de crédito hoje em dia, eles provavelmente estão falando exatamente o oposto: ‘agora é o momento de entrar’”, reconhece. “E, eventualmente, se você tiver uma visão de ‘trader’ pode se beneficiar dessa dinâmica. Mas no médio prazo existe um risco grande, se for pego na perna errada e errar o momento de entrada e saída.”
O argumento central da Pátria é que todos os cenários possíveis para os próximos trimestres apontam para alta adicional dos spreads.
No primeiro cenário, a inflação cede, o juro começa a recuar, o valor das firmas sobe e o dinheiro que hoje está represado no crédito de renda fixa migra de volta para a bolsa. “Quando começar essa migração, os spreads vão abrir [crescer]”, resume Coutinho.
No segundo cenário, os juros se mantêm elevados, as firmas mais alavancadas continuam sangrando e o mercado assiste a novos eventos de crédito. “A gente vai ver mais firmas com problema. E quando a pessoa leva o susto com uma firma quebrando, vende o papel desesperado e migra para ativos do governo.”
A conclusão de Coutinho: qualquer que seja o ambiente macroeconômico, as taxas tenderão a subir novamente.
Prêmios historicamente baixos
Os números mostram que o nível do prêmio sobre os títulos públicos, mesmo com a subida recente, ainda continuam abaixo da média dos últimos cinco anos.
Nesse caso, se houver uma “normalização” dos spreads para um nível mais alto, perto do visto entre 2023 e 2024, haveria uma desvalorização significativa dos títulos.
O índice IDA-Infra, da Anbima, que rastreia o prêmio das debêntures incentivadas comparado às NTN-Bs (Tesouro IPCA+) encerrou abril de 2026 em 0,43 ponto percentual. Isso significa que, na média, os papéis emitidos por firmas e que contam com isenção de IR estavam pagando 0,43 ponto acima das taxas dos títulos públicos do tipo IPCA+.
O dado parece favorável quando confrontado com o histórico recente: em outubro de 2025, o índice IDEX-Infra chegou a registrar spreads negativos de 0,5 pp. Isso significa que os papéis de maior qualidade de crédito passaram, em determinados casos, a render menos do que o título público equivalente.
Motivo: a demanda era tão grande que os investidores aceitavam taxas menores que a das NTN-Bs por conta da isenção de IR. Nesse caso, o benefício fiscal das debêntures incentivadas mantinha o retorno líquido competitivo mesmo com o prêmio bruto no campo negativo.
Um spread que já foi o dobro
Dentro de uma janela mais ampla de tempo, portanto, os prêmios permanecem comprimidos.
Nos últimos cinco anos, as debêntures incentivadas apresentaram spreads médios positivos entre 0,8 a 1 ponto percentual. Trata-se, portanto, de um nível bem superior ao 0,3 ponto de hoje.
Houve, no entanto, muitas oscilações nos últimos tempos em meio a diversos choques no mercado. Em 2023, após os eventos da fraude da Americanas e da recuperação judicial da Light, os prêmios dispararam: debêntures com rating AAA chegavam a pagar 2,0 pp acima das NTN-Bs.
A reversão foi igualmente rápida. Em pouco tempo ficou claro que a crise não era sistêmica. Além disso, o fluxo para fundos de crédito acelerou drasticamente em meio a uma corrida para aproveitar a isenção fiscal.
Foi um período de busca desenfreada pelos títulos isentos após a tentativa do governo de eliminar o benefício a partir da edição da Medida Provisória 1.303/25, que foi posteriormente derrubada no Congresso. No período, os spreads recuaram com força.
Em abril de 2024, o prêmio médio de uma cesta de 61 debêntures incentivadas high grade sobre a NTN-B de referência já havia caído para apenas 0,26 ponto. Em fevereiro de 2025, o prêmio médio estava negativo, em 0,3 ponto, segundo o índice IDEX Infra, da Leto Capital.
Em junho deste ano, as debêntures incentivadas estavam sendo negociadas com um prêmio médio de 0,34 ponto, de acordo com o IDEX Infra. Isso representa um retorno de IPCA + 8,8%.
No longo prazo, pode ser a oportunidade de “travar” uma taxa historicamente tão elevada que é capaz de dobrar o capital em pouco mais de cinco anos. Porém, o investidor precisa estar preparado para a volatilidade.
Novos “eventos de crédito”, como mais pedidos de recuperação judicial ou extrajudicial de companhias, podem deflagrar mais um movimento de alta nos spreads. Esse cenário não pode ser descartado em um momento no qual o juro tende a permanecer mais alto por mais tempo – e manter sob pressão as finanças de firmas mais endividadas.
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Autor: Sérgio Tauhata