A Simpar, da família Simões, ergueu um império da logística. Agora tenta escapar do peso da dívida
A Simpar passou os últimos anos pagando a conta de uma expansão acelerada por meio de aquisições. Pressionada pelos juros elevados, a holding da família Simões precisou se mexer para evitar que o endividamento comprometesse o negócio, a exemplo de outros grandes grupos: vendeu ativos, alongou prazos de dívida e atraiu o BNDES como sócio em um aumento de capital bilionário.
Agora, a companhia começa a sentir sinais de alívio, apesar da dívida ainda elevada.
Fundada em 1956 pelo imigrante português Julio Simões, a Simpar é hoje uma holding de oito firmas – entre elas a locadora de carros Movida, a transportadora JSL e a locadora de caminhões Vamos. A dívida líquida consolidada, que engloba o endividamento de todas as firmas do grupo, ficou praticamente estável no primeiro trimestre, em R$ 40,7 bilhões.
Só que a companhia conseguiu reduzir sua alavancagem – indicador que mostra quantas vezes a dívida é maior do que o lucro operacional anual da firma. Há um ano, era de 3,6 vezes. Agora, com o aumento de capital em andamento, está em 2,8 vezes. Trata-se da menor marca em quinze anos.
A melhora é resultado de uma recente reorganização financeira, somada à melhora na geração de caixa operacional do grupo. Em março, a holding anunciou um aumento de capital combinado de R$ 2,9 bilhões, distribuído entre Simpar, Movida e Vamos, com o BNDES como sócio.
E em 2025 vendeu a Ciclus Rio, firma de tratamento de resíduos do grupo no Rio de Janeiro, para uma subsidiária da Aegea por R$ 1,8 bilhão. A operação ajudou a reforçar o caixa da holding e foi anunciada como o primeiro passo de uma estratégia de monetização de ativos não listados.
Agora, o plano é continuar a reduzir o peso da dívida ao gerar mais caixa com o que já foi construído – investindo menos em aquisições e ganhando eficiência nas firmas que já fazem parte do grupo.
“Nos últimos dois anos, as firmas do grupo tiveram um crescimento de receita significativo. Isso mostra a capacidade de extrair valor do que já foi construído”, diz Fernando Simões, CEO da Simpar, em entrevista ao InvestNews.
Simões diz não descartar novas vendas de ativos, embora aponte que não há planos nesse sentido no momento.
No primeiro trimestre, o faturamento do grupo cresceu 6%, enquanto novos investimentos recuaram 68%. O retorno sobre o capital investido – quanto a firma gera de lucro para cada real aplicado nos negócios – chegou a 17,7%, o maior da história da Simpar.
Mas o resultado monetário ainda pesa no balanço. O grupo teve um prejuízo líquido ajustado de R$ 64 milhões, pior do que os R$ 41 milhões do mesmo período de 2025. Tem a ver com os juros altos: o custo médio da dívida do grupo subiu para 19,4% ao ano – o que significa que boa parte do que a firma fatura no dia a dia é consumido para pagar bancos e detentores de títulos.
Parte do peso da dívida vem do próprio modelo de negócio da Simpar. As principais firmas do grupo demandam investimentos altos: cada caminhão na rua, carro alugado ou máquina em uso são ativos que custaram caro antes de começarem a render. Hoje, ela tem 350 mil ativos operacionais.
Em momentos de juros baixos, esse modelo se beneficia. Foi o que aconteceu no início desta década.

Os anos de expansão
Em 1956, Julio Simões abriu uma transportadora em Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo. Era a Transportadora Julio Simões – hoje a JSL.
Vinte e cinco anos depois, seu filho caçula, Fernando, começava a trabalhar na firma. Foi ele quem, ainda jovem, conduziu os primeiros movimentos de diversificação do negócio: do transporte de cargas para serviços logísticos dentro de fábricas, aluguel de veículos e fretamento.
Em 2020, uma reorganização societária transformou o que antes eram divisões da JSL em firmas independentes – e criou a Simpar como uma holding de capital aberto.
A nova estrutura abria caminho para o que vinha a seguir: entre 2020 e 2023, a Simpar fez mais de 20 aquisições e venceu uma série de concessões. Entrou em concessionárias de veículos, saneamento, serviços monetários e infraestrutura – e passou a operar portos, rodovias, terminais de ônibus e até a construir escolas para o setor público.

Descrito por pessoas próximas como um trabalhador incansável e de perfil centralizador, Fernando Simões conhece cada linha do balanço das oito firmas que hoje compõem o grupo – e se orgulha da origem familiar do negócio.
Para ele, os novos setores de atuação são desdobramentos naturais do que a transportadora já fazia: “90% do que a gente faz hoje nasceu dentro dos serviços da JSL”, diz.
Ele costuma usar o exemplo do Banco BBC, criado para financiar carros vendidos pela Movida. A entrada em concessões de escolas, saneamento e infraestrutura, segundo ele, segue lógica parecida: aproveitar a capacidade operacional do grupo em contratos de longo prazo, em setores resilientes e com receita previsível.
Mas o ciclo de compras cobrou seu preço. Em 2023, no auge da expansão, a alavancagem da Simpar chegou a 3,7 vezes o lucro operacional – perigosamente perto de 4 vezes, limite contratual com credores que, se ultrapassado, poderia obrigar a firma a renegociar suas dívidas em piores termos.
Em paralelo, a Selic, que tinha caído a 2% ao ano em 2020, voltava a subir. Para uma firma cujo modelo depende de captação, a dívida alta virou uma ameaça.

O BNDES como sócio
Em março, a Simpar anunciou um aumento de capital de R$ 2,9 bilhões distribuídos entre a Movida, a Vamos e a própria Simpar. O BNDESPar, braço do BNDES para investimentos em participações de firmas, entrou como sócio, se comprometendo a aportar até R$ 1,35 bilhão na operação. A família Simões e investidores minoritários colocaram o restante.
A operação faz parte de uma nova “velha” fase do BNDES: em junho de 2025, o banco anunciou o retorno aos investimentos em renda variável após quase uma década afastado dessa frente – período em que vendeu cerca de R$ 65 bilhões em ações de firmas como Petrobras, Vale, Eletrobras e JBS e em que se afastou da tão contestada “política das campeãs nacionais”.
A entrada na Simpar foi uma das primeiras grandes apostas da nova fase, depois de aportes menores no Grupo Santa Clara, do setor de bioinsumos, e na Cosan, de Rubens Ometto.
Segundo Simões, foi o BNDES que procurou a firma, há cerca de dez meses. “O que acabou despertando [o interesse] neles, eu acho, foi a maneira como a gente investe e os setores em que o grupo está inserido.” Ele afirma que, segundo cálculos do banco, a Simpar foi o quarto maior investidor em ativos produtivos do Brasil nos últimos quatro anos.
Para parte do mercado, a entrada do banco público foi um resgate importante em um momento delicado para a holding. Simões rejeita essa interpretação. “Ninguém salvou ninguém. Nós temos capacidade de nos financiar e nos desenvolver, com ou sem o BNDESPar”, afirma.
Ele aponta que, só no primeiro trimestre de 2026, a Simpar captou outros R$ 4,2 bilhões em dívidas no mercado, incluindo a primeira operação do grupo com o IFC, braço de investimento do Banco Mundial.
Para o CEO, mais importante do que o dinheiro do BNDES é o que a presença do banco representa: “é um selo de reconhecimento da qualidade dos nossos ativos e da nossa governança”.
A entrada de um sócio externo é uma novidade em um grupo de controle familiar. Antes da operação, a JSP Holding – veículo da família Simões – somava 60,38% da Simpar, e Fernando, sozinho, tinha outros 6,25%.
Pelas regras do aporte, o BNDESPar pode chegar a no máximo 10% do capital de cada uma das três firmas que receberam recursos.
A visão do mercado
Entre analistas, a entrada da família Simões no aumento de capital foi vista como tão importante quanto a do BNDES. “É um sinal de que eles confiam no próprio negócio”, afirma Flávio Conde, head de Renda Variável da Levante Investimentos.
Para analistas do Bradesco BBI, os números de redução do endividamento foram o destaque do primeiro trimestre. “A firma está mostrando avanços no processo de desalavancagem, que consideramos o ponto mais importante no momento”, escreveram em relatório.
O time de analistas do BTG Pactual foi na mesma linha: “os resultados foram OK, mas a história da desalavancagem foi melhor”.
Não significa, no entanto, que a firma já convenceu o mercado. Evidência disso é que as debêntures da Simpar seguem sendo negociadas com desconto no mercado secundário.
Um dos papéis, com vencimento em 2031, foi emitido pagando uma taxa de DI mais 3,5% ao ano e hoje é negociado a uma taxa próxima de DI mais 5,7%. Outro, com vencimento em 2032, é negociado com desconto de cerca de 6,2% em relação ao preço de referência.
Na prática, é o jeito que os investidores têm de cobrar um prêmio maior por carregar o risco da Simpar.
“Para mim, é volatilidade de especulação”, diz Simões. Ainda assim, ele terá que provar ao mercado que a expansão dos últimos anos valeu a pena.
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Autor: Camila Alves Barros
