Por 70 anos, a Whirlpool pagou dividendos. Agora, não consegue mais bancá-los
A centenária Whirlpool pagou dividendos durante 10 recessões nos Estados Unidos e em todas as crises globais desde os anos 1950. Mas a pressão sobre o caixa da fabricante americana se tornou tão severa que a firma decidiu suspender os pagamentos até segunda ordem.
A notícia derrubou as ações em mais de 20% antes de encerrarem o pregão na última quinta-feira com queda de 12%, enquanto analistas de Wall Street pressionavam executivos por esclarecimentos sobre a situação financeira da fabricante de eletrodomésticos.
O papel acumula queda superior a 80% nos últimos cinco anos, à medida que o fluxo de caixa da companhia encolheu, deixando-a sem recursos suficientes para remunerar investidores e reduzir dívidas ao mesmo tempo. No ano passado, a Whirlpool já havia cortado quase pela metade o valor dos dividendos.
“Gostaríamos de retomar o pagamento de dividendos o mais rápido possível, mas isso é claramente uma decisão do conselho”, disse o CEO Marc Bitzer a investidores e analistas durante teleconferência de resultados. “O que precisa acontecer é, basicamente, melhorar nossa margem operacional de forma contínua, ao mesmo tempo em que seguimos reduzindo a dívida.”
Preços mais altos
A Whirlpool elevou os preços neste ano em toda sua linha de lavadoras, secadoras, geladeiras e fogões — e pretende reajustá-los novamente no verão americano. Bitzer defendeu a estratégia, afirmando que a firma precisa compensar três anos de inflação de custos que ainda não haviam sido repassados aos consumidores.
O executivo reconheceu ainda que os aumentos da Whirlpool provavelmente superarão os dos concorrentes. “É maior, sim”, afirmou. “Também temos muitos produtos novos, que acredito merecerem um valor mais alto.”
A Whirlpool culpa a guerra no Irã pela queda da confiança do consumidor americano para os menores níveis em 50 anos, à medida que os preços mais altos do petróleo ampliam preocupações já existentes com o custo de vida. As vendas líquidas orgânicas da companhia caíram 6% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior, e o lucro ajustado — que Wall Street esperava ser de 38 centavos por ação — veio com prejuízo de 56 centavos por ação.
A firma pagou US$ 300 milhões em dividendos no ano passado, marcando o 70º ano consecutivo de pagamentos trimestrais desde sua incorporação, em 1955. Mas, em agosto, diante da elevada dívida, a companhia cortou os dividendos pela primeira vez em décadas. Agora, ao menos por enquanto, eles desapareceram.
Última grande firma americana
As origens da Whirlpool remontam a 1911, quando o empreendedor Lou Upton fundou uma firma para vender máquinas de lavar com rolo elétrico. A companhia expandiu depois sua atuação para outros eletrodomésticos, como trituradores de lixo e secadoras de roupas, sobrevivendo a rivais que foram adquiridos ou desapareceram.
Hoje, a Whirlpool se apresenta como a última grande fabricante americana de eletrodomésticos de cozinha e lavanderia. Seus principais concorrentes são as gigantes sul-coreanas Samsung Electronics e LG Electronics, além da GE Appliances, atualmente controlada pela chinesa Haier Smart Home.
Esses concorrentes ampliaram suas operações industriais nos Estados Unidos nos últimos anos, e a Whirlpool afirma precisar de caixa para seus próprios investimentos. No mês passado, anunciou um aporte de US$ 60 milhões em uma nova fábrica em Perrysburg, Ohio, onde produzirá componentes e subconjuntos para lavadoras e secadoras.
A Whirlpool tentou reforçar suas finanças no início deste ano ao emitir US$ 1,1 bilhão em novas ações, mas a estratégia provocou reação dura do investidor David Tepper, cuja gestora Appaloosa Management é uma das principais acionistas da firma. Ele criticou a administração por diluir o valor para os acionistas e afirmou que a companhia deveria considerar parcerias ou fusões com concorrentes afetados por tarifas comerciais.
Apesar disso, a Whirlpool aposta nas tarifas para tentar se recuperar — argumento que vem repetindo desde o retorno do presidente Donald Trump à Casa Branca.
Bitzer afirmou que políticas tarifárias anteriores, baseadas na quantidade de aço usada em um eletrodoméstico, “deixavam muitas brechas para talvez não haver uma declaração completa do custo real”. Uma política simplificada, que entrou em vigor em abril, aplica tarifa fixa de 25% sobre o valor total do produto, o que, segundo ele, dá à Whirlpool a vantagem competitiva esperada sobre rivais estrangeiros.
Escreva para John Keilman em john.keilman@wsj.com
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: The Wall Street Journal