A disputa em torno da guitarra elétrica mais popular do mundo
O caso de amor de Phillip McKnight com guitarras Stratocaster começou aos 15 anos, quando ele comprou uma versão falsificada do ícone da Fender — junto com um amplificador — por US$ 120. Hoje, o instrumento favorito do ex-dono de loja de guitarras também se parece com uma Strat, mas foi feito por um fabricante customizado.
“Minha Fender favorita não é uma Fender”, disse McKnight, que hoje comanda um canal de YouTube sobre guitarras e equipamentos.
A Fender Musical Instruments quer mudar isso e reivindicar controle sobre o formato icônico.
No início deste mês, a Fender enviou notificações extrajudiciais a outras fabricantes de guitarras, exigindo que parem de produzir modelos com formato semelhante ao da Stratocaster e que recolham e destruam esses instrumentos. Os alvos vão de pequenas fabricantes da Califórnia a marcas conhecidas como PRS Guitars.
Fortalecida por uma recente decisão judicial na Europa, a Fender tenta assumir controle sobre o formato de guitarra elétrica mais popular do mundo mais de sete décadas após seu lançamento. O design curvilíneo ajudou a definir o instrumento, usado por artistas famosos como Jimi Hendrix e Stevie Ray Vaughan. Ao longo dos anos, outras firmas criaram suas próprias versões — algumas como cópias baratas, outras como instrumentos customizados disputados que custam milhares de dólares.
As vendas de guitarras elétricas nos EUA esfriaram após o boom registrado durante a pandemia de Covid-19, quando muitos consumidores decidiram aprender a tocar. O número de guitarras elétricas e baixos vendidos caiu cerca de 4% no ano passado no país, segundo dados da publicação especializada Music Trades.
O CEO da Fender, Edward “Bud” Cole, afirmou que a firma respeita fabricantes independentes e a comunidade de guitarristas, mas que a Fender “tem a responsabilidade de proteger os designs icônicos e a identidade de marca associados aos seus instrumentos ao redor do mundo”.
“Acreditamos que competição e inovação são saudáveis para a indústria, e incentivamos a criação de designs novos e distintos que impulsionem a inovação em guitarras, em vez de depender de cópias diretas do trabalho pioneiro de Leo Fender”, disse Cole.
Pequenos fabricantes, que há muito consideravam estar legalmente protegidos para vender guitarras no formato Strat, afirmam que as ações da Fender podem colocar seus negócios em risco.
A fabricante familiar LSL Instruments, da região de Los Angeles, publicou uma campanha no GoFundMe pedindo doações para custear honorários advocatícios. Caso a demanda da Fender seja bem-sucedida, “isso criaria um monopólio, limitando vendas e restringindo opções para músicos em todos os lugares”, escreveu online a proprietária Lisa Lerman.
Registro de marca
A Fender perdeu, em 2009, uma tentativa de registrar como marca os formatos das guitarras elétricas Stratocaster e Telecaster e do baixo Precision. Mais de uma dúzia de firmas contestaram o pedido, argumentando que o formato havia se tornado genérico após décadas de uso disseminado. O Conselho de Julgamento e Recursos de Marcas dos EUA concordou com o argumento.
Mas, neste ano, o Tribunal Regional de Düsseldorf, na Alemanha, decidiu em favor da Fender em um processo de direitos autorais contra uma fabricante chinesa de instrumentos musicais, que sequer respondeu à ação. O tribunal emitiu decisão à revelia e afirmou que a Stratocaster é uma obra de arte protegida por direitos autorais.
A Fender afirmou que a decisão garante à companhia direitos aplicáveis contra quaisquer guitarras que usem o formato do corpo da Stratocaster e sejam fabricadas, vendidas ou distribuídas na Alemanha e na União Europeia, “independentemente de onde essas guitarras sejam produzidas”.
A PRS Guitars, marca usada por músicos como John Mayer e Carlos Santana, confirmou estar entre as firmas que receberam a carta. A companhia afirmou discordar da avaliação da Fender e não quis comentar além disso.
Na terça-feira, a Fender afirmou que, no momento, não está exigindo que as firmas recolham ou destruam produtos. “Em vez disso, a Fender está trabalhando com os fabricantes para redesenhar os formatos, enquanto eles liquidam os estoques existentes não autorizados”, disse a companhia.
Na Alemanha, a Fender argumentou que Leo Fender, fundador da firma em 1946, desenhou artisticamente a Stratocaster para refletir as curvas do corpo feminino. Advogados das fabricantes de guitarras dizem que o instrumento, na verdade, foi criado por várias pessoas, que chegaram ao formato contornado por questões de conforto.
Na semana passada, um advogado representando algumas fabricantes enviou sua própria carta em resposta às alegações da Fender, apontando para a decisão de 2009 e argumentando que a história da origem da Stratocaster contada pela Fender foi inventada.
O uso “sem oposição” do formato Strat ao longo de décadas “demonstra que a Fender não tem base para alegar que é, ou tem o direito de ser, a fabricante exclusiva de guitarras com o corpo no formato Strat”, afirma a carta de 21 de maio.
McKnight, que visitou fábricas de guitarras ao redor do mundo para entender melhor como diferentes modelos são produzidos para seu canal no YouTube, disse acreditar que as ações da Fender estão prejudicando a marca, especialmente entre músicos.
“Acho que muitas firmas vão parar de fazer cópias porque a Fender está tornando a Strat dela algo sem graça”, afirmou McKnight.
Escreva para Katherine Sayre em katherine.sayre@wsj.com.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Karla Mamona
