O discreto bilionário que está conquistando as ligas esportivas mais ricas do mundo
Stan Kroenke estava sentado no fundo de uma sala de conferências cheia de outros donos de equipes da NFL neste mês quando discretamente tirou um iPad para assistir ao outro tipo de futebol.
Ele estava em Orlando, supostamente ouvindo Roger Goodell, em sua função como proprietário do Los Angeles Rams. Mas, naquele momento, estava muito mais preocupado com acontecimentos a 6,4 mil quilômetros de distância envolvendo o Arsenal, tradicional clube do norte de Londres que faz parte de seu portfólio há quase duas décadas.
Ao lado de alguns de seus principais executivos, Kroenke assistiu maravilhado enquanto o Bournemouth eliminava matematicamente o poderoso Manchester City da disputa pelo título. Após uma espera de 22 anos, o Arsenal era campeão novamente.
Para os torcedores do Arsenal, foi um momento de euforia há muito aguardado — apesar de já terem organizado protestos contra Kroenke do lado de fora do próprio estádio do clube. E, para Kroenke, foi apenas o título mais recente no que pode ser a maior sequência de conquistas globais já alcançada por um dono de equipes esportivas.
“Foi extremamente emocionante”, disse Kroenke em uma rara entrevista. “Não acho que conseguimos fazer essas coisas sem emoção, sem uma crença profunda.”
Nos últimos cinco anos, essa convicção ajudou Kroenke, hoje com 70 anos, a conquistar praticamente todas as ligas esportivas mais ricas e populares do mundo. Seus Rams, o Denver Nuggets, da NBA, e o Colorado Avalanche, da NHL, já haviam conquistado títulos antes de o Arsenal entrar para a lista. O time feminino do Arsenal e a equipe profissional de lacrosse Colorado Mammoth também levantaram troféus importantes recentemente.
Arsenal x Paris Saint-Germain
E Kroenke talvez ainda não tenha terminado. Se o Arsenal vencer o Paris Saint-Germain na final da Liga dos Campeões neste sábado, o clube não será apenas campeão inglês. Será coroado campeão de toda a Europa — um cenário difícil de imaginar no fim da década de 2010, quando torcedores do Arsenal organizaram a campanha “Kroenke Out” sob o slogan: “Nós nos importamos, e você?”
“Sabemos qual era a relação com a diretoria naquela época”, diz o técnico do Arsenal, Mikel Arteta. “Para mim, esta é uma das maiores vitórias que tivemos.”
Kroenke, cujas passagens pelos clubes geraram tanta controvérsia quanto sucesso, faz o possível para permanecer fora dos holofotes. Mas pessoas próximas afirmam que isso não deve ser confundido com apatia. Segundo elas, ele pensa no longo prazo em uma indústria obcecada por resultados imediatos, dando amplos poderes a pessoas escolhidas pessoalmente por ele — de executivos experientes a treinadores ainda pouco testados, como Arteta ou Sean McVay, dos Rams.
“Ele é muito consistente: tem grande ambição e uma visão clara de onde quer chegar”, diz Jerry Jones, dono do Dallas Cowboys. “E, quando faz algo, faz de maneira substancial.”
O sucesso também representa uma reviravolta extraordinária para um investidor que ficou mais conhecido por irritar torcedores dos dois lados do Atlântico.
Na NFL, ele desagradou fãs de seu estado natal, Missouri, ao transferir os Rams para Los Angeles em 2016 após um controverso processo de relocação dentro da liga. A disputa judicial com autoridades de St. Louis resultou em um acordo de US$ 790 milhões, gerando tensão entre outros proprietários da NFL sobre quem arcaria com os custos. Kroenke acabou concordando em pagar mais de US$ 500 milhões. Ele gastou dez vezes mais para construir o moderno estádio SoFi Stadium, em Los Angeles.
“Foi um processo muito caro dentro da NFL. Ele enfrentou isso de cabeça erguida”, diz Jones. “E, de tudo isso, surgiu uma das grandes joias da NFL.”
Na Europa, Kroenke foi criticado por agir lentamente para encerrar o ciclo do histórico técnico Arsène Wenger no Arsenal em 2018 e acusado de lucrar com o clube sem realizar investimentos relevantes. Mais tarde, em 2021, voltou a irritar torcedores ao participar do fracassado projeto da Superliga Europeia — iniciativa vista como uma tentativa de enriquecimento dos maiores clubes do continente.
E, durante todo esse período, Kroenke praticamente não falou em público. Críticos passaram a chamá-lo de “Silent Stan”.
“Se você deixar que essas coisas o desanimem quando acredita estar fazendo o certo para sua organização e para sua visão de mundo”, diz Kroenke, “você nunca irá muito longe.”
Antes de se tornar um magnata internacional do esporte, ele era Enos Stanley Kroenke, criado no interior do Missouri e com tradição esportiva até no nome: suas referências eram as lendas do beisebol Enos Slaughter e Stan Musial, do St. Louis Cardinals.
Kroenke construiu fortuna no mercado imobiliário e se casou com Ann Walton Kroenke, herdeira do Walmart, antes de mergulhar no esporte. Seu primeiro passo foi comprar uma participação minoritária no St. Louis Rams em 1995.
Ao mesmo tempo, passou a adquirir vastas áreas de terra. A única coisa pela qual talvez seja tão apaixonado quanto esportes é pecuária. Após comprar 937 mil acres no Novo México no ano passado — equivalente a 1,2% do quinto maior estado dos EUA —, suas propriedades chegaram a 2,7 milhões de acres espalhados pelo país, o equivalente a cerca de 2 milhões de campos de futebol. Acredita-se que ele seja o maior proprietário privado de terras dos Estados Unidos.
“Ele é o pensador mais voltado para o longo prazo que já conheci”, afirma Kevin Demoff, presidente de operações da Kroenke Sports and Entertainment. “Isso vem da experiência dele no mercado imobiliário. Você investe em algo, constrói e dá tempo.”
Essa abordagem paciente sustentou praticamente todas as decisões tomadas por Kroenke em suas três décadas no esporte. Nos Rams, ele manteve confiança no gerente-geral Les Snead durante temporadas ruins antes de apostar em uma das contratações mais ousadas da NFL. Quando contratou McVay em 2017, ele se tornou o técnico mais jovem da história moderna da liga.
Pouco depois da entrevista final, realizada durante um jantar no restaurante Spago, em Beverly Hills, Kroenke percebeu que havia encontrado ouro. Na primeira temporada de McVay, o ataque dos Rams saiu da pior para a melhor posição da NFL. Desde então, a equipe disputou dois Super Bowls e conquistou o troféu Lombardi há quatro anos no SoFi Stadium.
“Ele não tem medo de pensar fora da caixa quando acredita em algo”, diz McVay. “Grandes lideranças exigem coragem, e ele certamente tem muita.”
Foi preciso ainda mais do que coragem para conduzir o Arsenal por seu período mais turbulento em décadas. Quando Kroenke incentivou Wenger a deixar o clube em 2018, encerrando um reinado de 22 anos, também colocava fim a duas décadas de raízes profundas e conhecimento institucional. Por isso, a contratação seguinte, de Unai Emery, parecia fadada ao fracasso desde o início. Emery durou apenas 18 meses.
O caminho mais fácil seria apostar em um treinador renomado disponível no mercado. Em vez disso, Kroenke e seu filho Josh escolheram algo completamente diferente: Arteta, então com 37 anos, ex-meio-campista do Arsenal e assistente técnico no Manchester City.
“Normalmente, levaria quatro anos para reconstruir um elenco”, diz Arteta, hoje com 44 anos. “E nós não tínhamos esse tempo. Então tivemos de reinventar a maneira como faríamos isso.”
Durante esse período, Kroenke manteve apoio a Arteta mesmo após três temporadas consecutivas fora do G4 da Premier League. Também investiu mais de US$ 1,25 bilhão em novos jogadores. O resultado foi um time constantemente competitivo liderado por um técnico que, com 6,5 anos no cargo, se tornou o mais longevo da primeira divisão inglesa.
“Isso é muito, muito raro de encontrar na nossa indústria”, diz Arteta.
Kroenke acredita que ter um amplo portfólio de equipes beneficia toda a rede porque encontra “problemas semelhantes entre ligas e oportunidades parecidas” mesmo em esportes completamente diferentes. E quase tudo começa e termina na cultura organizacional. Por isso, ele incentiva integração entre as franquias, com os mesmos executivos — incluindo Josh Kroenke — atuando em diferentes equipes.
McVay também aproveitou essas conexões. Ele afirma que aprender com outros esportes o tornou um treinador melhor e considera Arteta um grande amigo. “Isso nos dá uma vantagem clara”, diz McVay. “Sem dúvida.”
Com chance de ampliar ainda mais sua coleção de troféus neste sábado, Kroenke não acompanhará o resultado por uma tela portátil. Ele já está em Budapeste, cidade que recebe a final.
Independentemente do resultado, os Kroenke aprenderam que a sensação da vitória pode durar pouco.
“Sempre dizemos que você é tão bom quanto seu último jogo”, afirma Josh Kroenke. “Se você não termina no topo com um título, imediatamente volta à prancheta tentando descobrir como chegar lá de novo.”
Escreva para Andrew Beaton em andrew.beaton@wsj.com e Joshua Robinson em Joshua.Robinson@wsj.com.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Karla Mamona
