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A indústria quer mais turbinas. Só 4 empresas no mundo fazem as peças delas

As fabricantes de aeronaves aéreas e as gigantes de tecnologia têm uma coisa em comum: estão desesperadas por turbinas, seja para mover seus jatos, seja para abastecer seus data centers. No centro dessa demanda em disparada está um punhado de firmas que fabrica as peças altamente especializadas.

A produção ocidental dessas pás e palhetas de turbina está concentrada em quatro firmas, segundo um relatório da SemiAnalysis: a Howmet Aerospace, de capital aberto; a Precision Castparts, controlada pela Berkshire Hathaway; a Consolidated Precision Products, nas mãos de fundos de private equity; e a DPC Holdings, controladora da britânica Doncasters Group, que estreou bolsa no mês passado. Precision Castparts e Howmet têm as maiores fatias de mercado.

Como em outros setores tomados pela euforia da inteligência artificial, a grande dúvida é se essas firmas podem acabar produzindo em excesso. A natureza altamente concentrada da indústria — com apenas um punhado de participantes experientes — torna a disciplina mais provável.

Pás e palhetas de turbina estão “entre os componentes mais exigentes que a indústria moderna fabrica”, diz o relatório da SemiAnalysis. Cada uma dessas peças é feita com um novo molde de cera, produzido do zero, segundo Kristine Liwag, analista de ações do Morgan Stanley.

Durante o investor day da Howmet no início deste ano, o presidente-executivo John Plant ilustrou por que essas peças são tão difíceis de fabricar. Na decolagem, os motores a jato precisam suportar temperaturas acima de 1.650 °C, ao mesmo tempo que aguentam rotações velozes e pressão intensa.

Embora os padrões técnicos das turbinas de energia não sejam tão rigorosos, a tecnologia envolvida na fabricação dessas peças é parecida. O mercado de turbinas de energia nunca foi grande o suficiente para justificar um novo segmento de fornecedores dedicado só a ele, afirma Liwag.

Essas firmas fornecem para fabricantes de aeronaves como Boeing, Airbus e Embraer; para fabricantes de motores de avião como GE Aerospace, Rolls-Royce e a Pratt & Whitney; e para as fabricantes de turbinas de energia GE Vernova, Siemens Energy, Mitsubishi Heavy Industries e Caterpillar. Elas também fornecem peças para aeronaves militares, como o caça F-35.

Historicamente, o setor é vulnerável à demanda cíclica. A produção de aeronaves, por exemplo, despencou no início da pandemia, em 2020, quando as companhias aéreas adiaram ou cancelaram pedidos. A receita crescente vinda do setor de energia e da indústria de defesa — menos cíclica — deve criar alguma proteção.

A demanda por essas pás e palhetas está em alta. Depois de dois anos de queda na receita, em 2020 e 2021, as vendas da Howmet cresceram a um ritmo de dois dígitos em cada um dos últimos quatro anos. No primeiro trimestre, as vendas para a indústria de aviação comercial subiram 20% em relação ao ano anterior, enquanto a receita com turbinas a gás — o tipo usado pelos data centers — aumentou 39%.

A Howmet, que afirma ter mais de 50% do mercado global de turbinas a gás, espera dobrar a receita desse segmento nos próximos três a cinco anos.

A receita da Precision Castparts com produtos para aviação e para turbinas a gás cresceu 9,4% e 18,9%, respectivamente, no primeiro trimestre, na comparação com um ano antes. Na DPC, as receitas de aviação e de turbinas a gás subiram 43% e 29%, respectivamente, no primeiro trimestre.

As turbinas de energia de grande porte enfrentam filas de pedidos de até oito anos, segundo a BloombergNEF. Já as turbinas menores, aeroderivativas — adaptadas de projetos de motores a jato —, podem levar de 15 a 36 meses.

As longas filas de pedidos estão ajudando a impulsionar o negócio de peças de reposição dessas firmas. As companhias aéreas são obrigadas a voar com aviões mais antigos por mais tempo e precisam continuar comprando sobressalentes.

As peças de reposição também estão em alta para as turbinas a gás, porque a base instalada está sendo usada muito mais intensamente do que o esperado, disse Plant, da Howmet, em uma conferência no início do ano. Ele descreveu as pás de turbina como as “pastilhas de freio da indústria de turbinas”, por serem as peças que se desgastam mais rápido. No total, o negócio de reposição inchou para cerca de 23% da receita da Howmet, ante 11% em 2019.

As memórias dolorosas de crises anteriores devem ajudar a limitar o excesso de produção. A DPC registrou prejuízos líquidos nos últimos dois anos e no primeiro trimestre de 2026, por causa dos juros altos que paga sobre um empréstimo tomado em 2020, como parte de uma reestruturação. A firma planeja usar os recursos do IPO para abater a dívida. A Berkshire Hathaway fez uma baixa contábil de US$ 10 bilhões na Precision Castparts em 2020. Em uma carta a investidores, Warren Buffett escreveu que pagou caro demais pela firma quando a comprou, em 2016.

Os fabricantes provavelmente estão relutantes em fazer grandes investimentos porque são os que “têm mais a perder se seguirem a bolha de IA até o precipício”, diz o relatório da SemiAnalysis. Isso porque eles “arcam com os custos fixos do ciclo”, afirma Nigel Chiang, analista da SemiAnalysis. Correr atrás da demanda significa encomendar fornos a vácuo especializados, com prazos de entrega de mais de dois anos, contratar e treinar pessoas e formar estoques caros de superligas, diz Chiang.

Até agora, eles não anunciaram grandes expansões. A Howmet disse que vai elevar os investimentos para US$ 500 milhões neste ano, alta de 10% em relação ao ano anterior. A DPC, uma participante menor, planeja gastar US$ 58 milhões nos próximos 12 meses, ante US$ 31 milhões em 2025. A firma afirmou que os grandes clientes vão bancar as expansões de capacidade, arcando com até 80% do investimento necessário.

Ken Herbert, analista do RBC Capital Markets, disse que ampliar a capacidade de fabricação desses componentes de turbina é “extremamente intensivo em capital” e que pode levar tempo até que novas fábricas produzam um bom aproveitamento de peças livres de defeitos.

Uma nova linha de fábrica pode descartar mais de 50% da produção por um período prolongado, afirmou. Um aumento rápido da produção pode esbarrar na cadeia de suprimentos de matérias-primas como níquel, titânio, cobalto e vanádio, encontradas em apenas algumas regiões do mundo.

Liwag disse que o excesso de capacidade não deve ser um problema para o setor antes de 2030. Até agora, as companhias aéreas têm relutado em cancelar pedidos mesmo diante de incertezas como a guerra do Irã. “Se você cancelasse sua vaga na fila, teria de esperar de cinco a 10 anos para conseguir uma nova”, disse ela.

Enquanto isso, as longas filas de pedidos tanto na aviação quanto no setor de energia devem dar a esses fabricantes espaço para aumentar preços. A alta de preços ajudou a elevar as margens operacionais da Howmet para 25,5% no ano passado, ante 16,6% em 2019.

Existem apenas duas fabricantes de peças de turbina de capital aberto. As ações da Howmet subiram mais de cinco vezes nos últimos três anos e são negociadas a 49 vezes o lucro projetado — um prêmio em relação a clientes como GE Vernova e Rolls-Royce, embora essas duas também estejam caras, a 40 e 35 vezes o lucro, respectivamente. As ações da DPC, que ainda dá prejuízo, acumulam alta de 46% em relação ao preço do IPO nas duas semanas desde a estreia na bolsa.

Os negócios de aviação e de equipamentos de energia são cíclicos, mas estão em ciclos diferentes, e as barreiras de entrada são altas. Enquanto essas fabricantes de peças especializadas conseguirem continuar cobrando preços mais altos e mantendo a disciplina na produção, os investidores devem estar dispostos a pagar um prêmio por suas ações.

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Autor: Alexandre Versignassi

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