Escalada em Ormuz ameaça trégua na inflação e eleva volatilidade no mercado
O IPCA, índice que mede os preços pagos pelos consumidores no Brasil, subiu 0,16% em junho, bem abaixo do esperado pelo mercado, e trouxe algum alívio à leitura de inflação na sexta-feira (10). Esse alívio, porém, já começa a perder espaço e ter efeito limitado.
Neste fim de semana, os ataques entre Estados Unidos e Irã escalaram: os EUA bombardearam o país do Golfo Pérsico, que retaliou com ataques contra cinco nações árabes aliadas aos americanos. O aumento da tensão na região tende a pressionar o preço do petróleo e, por extensão, tudo o que ele afeta.
Washington e Teerã divergem sobre a situação do Estreito de Ormuz. O Irã declarou a via fechada “até novo aviso”, enquanto o Comando Central dos Estados Unidos nega e diz que o tráfego segue livre.
Na prática, o movimento no estreito despencou. A Bloomberg registrou apenas dois navios-tanque de produtos de petróleo se aproximando da via no domingo, e o Centro de Informação Marítima Conjunta, órgão internacional de monitoramento, classificou a ameaça à segurança marítima como “severa”.
O presidente americano Donald Trump disse, em entrevista à NBC, que os EUA “bombardearam pra valer” o Irã. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, escreveu em rede social que “o Irã fez uma escolha ruim” e que “agora eles pagam”. Do lado iraniano, o Corpo de Guardas Revolucionários afirmou que não vai permitir a passagem de embarcações pelo estreito até o fim da “interferência estrangeira”.
Por Ormuz passa cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados no mundo. A reação já apareceu nas cotações internacionais: segundo a Benzinga, o WTI subiu para US$ 73 e o Brent para US$ 78 no domingo, com o mercado reagindo à escalada e ao risco de mais interrupções na região.
Essa recomposição da cotação do petróleo não deve se refletir imediatamente nas bombas de gasolina. Desde 2023, a Petrobras abandonou a política que atrelava o preço da gasolina automaticamente ao petróleo internacional e passou a suavizar o repasse ao consumidor.
Mas esse repasse pode só levar mais tempo. Além disso, há repasses para outros derivados da matéria-prima, como fertilizantes, por exemplo. Por isso, mesmo que o conflito se resolva e o preço do petróleo caia com mais força, boa parte dos aumentos feitos em cadeia que já se espalharam pela economia não será revertida na mesma proporção.
E a aversão ao risco geopolítico tende a fortalecer o dólar globalmente e pressionar bolsas, isso pesa contra o real e o Ibovespa. Há, porém, muita incerteza no mercado e, com isso, maior oscilação. Na última sexta-feira, o dólar fechou em baixa na faixa dos R$5,10, acompanhando o recuo da moeda norte-americana ante outras divisas de países emergentes no exterior.
Alívio limitado nos preços
O IPCA de junho ficou bem abaixo da mediana do mercado, de 0,31%, e da projeção do Bank of America (BofA), de 0,36%. Alimentos e energia elétrica levaram o índice para baixo, com destaque para tomate e batata. Os núcleos de inflação também desaceleraram, e a taxa em 12 meses recuou para 4,64%, de 4,72% em maio.
Diante do resultado, o BofA passou a projetar mais um corte de 0,25 ponto percentual na Selic em agosto, levando a taxa a 14%. O banco manteve a estimativa de IPCA de 5,5% para 2026, com risco para baixo.
Há dois pontos de atenção nessa leitura. O primeiro é que 4,64% ainda está acima do teto da meta de inflação. O segundo é que a queda nos preços de alimentos em junho foi pontual, concentrada em poucos itens, e não necessariamente indica uma tendência.
Um El Niño forte está no radar do governo para os próximos meses, com risco de pressionar justamente os preços de alimentos que ajudaram a puxar o índice para baixo. A escalada em Ormuz acrescenta outra fonte de pressão, agora pelo lado dos combustíveis.
Dívida pública sob holofote
Enquanto isso, cresce a preocupação com a capacidade do governo de financiar sua dívida. O Tesouro Nacional tem enfrentado dificuldade para rolar as NTN-B, títulos que pagam inflação mais uma taxa fixa. Diante de juros altos exigidos nos leilões, o Tesouro tem usado o colchão de liquidez para pagar papéis vincendos ou trocá-los por LFT, título indexado à Selic e com mais demanda no mercado.
A rejeição às NTN-B tem relação direta com a incerteza sobre os juros: o Banco Central sinaliza mais cortes, enquanto o Federal Reserve caminha para o lado oposto. Isso torna o título de inflação mais arriscado do que um papel pós-fixado.
O juro real da NTN-B com vencimento em 2029 rompeu a marca de 7% em novembro de 2024, superou 8% em outubro de 2025 e voltou a subir acima de 7% em junho deste ano.
O leilão do Tesouro marcado para terça-feira (14) é o primeiro termômetro da semana para medir o apetite do mercado por dívida pública brasileira. Na sexta-feira (17), saem o IGP-10, da FGV, e o IBC-Br, prévia mensal do PIB calculada pelo Banco Central, que devem ajudar a calibrar a leitura sobre atividade econômica e inflação.
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Autor: Raquel Brandão