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O Panamá irritou a China. Agora está pagando o preço

O Panamá está pagando um preço por seu envolvimento na disputa entre as duas maiores potências globais: o governo da China e a administração de Donald Trump.

Em janeiro, sob forte pressão de Washington, a Suprema Corte do Panamá deu uma vitória ao presidente Trump em sua agenda de segurança na América Latina e reduziu a influência chinesa na região ao retirar a firma de Hong Kong CK Hutchison de dois portos operados pela companhia nas extremidades do Canal do Panamá.

Agora, o governo chinês está pressionando o Panamá com medidas que têm afetado sua importante indústria naval, prejudicando os planos do país de se tornar um polo logístico global em um momento de crescente importância geopolítica do canal, após o bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã.

O desgaste diplomático está saindo caro.

Pouco depois de os juízes panamenhos decidirem que os contratos da Hutchison para operar os portos de Balboa, no litoral do Pacífico, e Cristóbal, no lado atlântico, eram inconstitucionais, autoridades chinesas começaram a inspecionar e deter navios panamenhos. Dados de inspeções portuárias na região Ásia-Pacífico mostram que quase 500 embarcações com bandeira do Panamá foram detidas por motivos de segurança em portos chineses desde janeiro, incluindo 146 navios apenas em maio, contra 23 em janeiro.

Autoridades do governo Trump afirmam que as interrupções têm consequências comerciais e estratégicas para exportadores e consumidores americanos.

“A resposta da China foi rápida e punitiva”, afirmou Warren Stephens, representante dos Estados Unidos na Organização Marítima Internacional, agência ligada às Nações Unidas.

Navios com bandeira do Panamá transportam uma parcela relevante do comércio dos Estados Unidos, levando bens de consumo, roupas, eletrônicos e móveis de portos chineses para a costa leste americana por meio do Canal do Panamá. Os EUA são o principal usuário da hidrovia, que movimenta cerca de 6% do comércio marítimo global. O canal está mais movimentado do que nunca, com o tráfego crescendo mais de 5% em termos anuais nos últimos meses.

“Pequim tomou medidas diretas contra embarcações com bandeira panamenha — ações que os Estados Unidos classificaram como uma tentativa deliberada de enfraquecer a soberania do Panamá, interromper cadeias globais de suprimentos e reduzir a confiança no comércio internacional”, disse Stephens em discurso na agência da ONU no início de julho.

Quando um navio atraca em um porto chinês, inspetores responsáveis por avaliar as condições de segurança de embarcações estrangeiras entram no navio. Eles encontram diversos motivos para deter a embarcação, independentemente de sua idade ou condição real, segundo marinheiros e um gestor de navios que trabalham regularmente com embarcações que chegam a portos chineses. O navio então é obrigado a permanecer ancorado em um local determinado para corrigir os problemas apontados, às vezes por mais de um mês, disseram eles.

A China afirma que as acusações de que está mirando especificamente navios panamenhos são falsas.

“Embarcações com bandeira panamenha representaram menos de 20% de todos os navios estrangeiros que chegaram aos portos chineses desde janeiro, mas foram responsáveis por cerca de 50% dos acidentes e das consequentes mortes e desaparecimentos”, afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, acrescentando que as inspeções chinesas seguem “plenamente as convenções internacionais”.

Ainda assim, as medidas da China expuseram a vulnerabilidade das receitas que o Panamá obtém com seu negócio de registro de navios, um dos maiores do mundo. A situação ficou tão grave neste ano que algumas embarcações com bandeira panamenha mudaram seu registro para evitar as inspeções rigorosas. Cerca de 8.500 navios navegam pelos mares sob a bandeira do Panamá, e as inspeções direcionadas da China podem levar mais armadores a buscar outra nacionalidade para suas embarcações.

Enquanto isso, a Hutchison busca US$ 2 bilhões em indenizações contra o Panamá em tribunais internacionais de arbitragem. A firma argumenta que sua retirada prejudicou a reputação do país como um local confiável para negócios.

Autoridades chinesas acusaram o país centro-americano de ceder à pressão dos Estados Unidos e exigiram que o Panamá corrija seus erros e proteja os direitos legais de firmas chinesas.

“Qualquer pessoa que enxergue a situação com clareza pode ver que isso é motivado por questões políticas”, afirmou Xie Feng, embaixador chinês e observador da Organização dos Estados Americanos (OEA), em comentários incomumente duros durante uma reunião regional realizada recentemente no Panamá.

“Se contratos puderem ser ignorados, princípios de mercado forem desconsiderados, ativos forem tomados e operadores forem expulsos a qualquer momento, quem terá confiança para investir e buscar cooperação?”, disse.

O chanceler panamenho, Javier Martínez-Acha, afirmou que o país tem o direito soberano de regular seus portos nacionais e defendeu a independência do Judiciário. Ele e outros altos funcionários do Panamá se reuniram com representantes chineses em uma tentativa de reduzir as tensões antes de um grande teste: a renovação, pela China, de um acordo marítimo que concede acesso preferencial aos seus portos para navios com bandeira panamenha.

Este é um momento delicado para o Panamá. A gigante estatal chinesa de transporte marítimo Cosco já suspendeu embarques de carga para Balboa, um dos portos operados pela Hutchison e uma peça fundamental da estrutura logística do país. No terminal, milhares de contêineres são transferidos mensalmente entre rotas globais de transporte marítimo. A Cosco não respondeu aos pedidos de comentário.

O Ministério dos Transportes da China também afirmou ter convocado representantes das gigantes marítimas A.P. Moller-Maersk e Mediterranean Shipping Company (MSC). Unidades das duas firmas foram contratadas pelo Panamá para assumir a gestão de Balboa e Cristóbal por 18 meses, enquanto as autoridades procuram novos operadores de longo prazo para os portos. A mensagem da China: não prejudicar os interesses de firmas chinesas, segundo uma pessoa familiarizada com as conversas. Ambas as companhias recusaram comentar.

O Panamá agora corre o risco de enfrentar uma demanda fraca de operadores portuários globais interessados em administrar os dois terminais, em parte porque as autoridades do canal também preparam um processo paralelo de licitação para construção e operação de outros dois terminais de contêineres no canal.

“Precisamos decidir com o governo quais portos serão licitados primeiro”, afirmou o administrador do canal, Ricaurte Vásquez.

“Os quatro não deveriam ir ao mercado ao mesmo tempo, porque haverá oferta demais”, disse Vásquez ao The Wall Street Journal.

Qualquer acordo que conceda participação em algum dos portos do Panamá a uma firma de origem chinesa poderia irritar Trump, que já havia criticado as operações da Hutchison nos terminais de contêineres panamenhos.

Autoridades panamenhas e chinesas realizaram conversas em Pequim no início deste mês para renovar o acordo marítimo que concede condições favoráveis a navios com bandeira do Panamá. Funcionários do Panamá afirmaram que as negociações produziram resultados iniciais, incluindo uma redução significativa no número de embarcações panamenhas detidas para inspeção em portos chineses durante julho.

Mas a China ainda não informou se renovará o acordo marítimo nem como o Panamá poderá lidar com as preocupações relacionadas aos direitos e interesses de firmas chinesas.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original

Autor: The Wall Street Journal

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