A nova guerra marítima: como drones e mísseis ‘estrangulam’ o comércio global

O Estreito de Ormuz ainda domina o noticiário e as preocupações globais como principal rota de exportação de óleo, combustíveis, fertilizantes e outras matérias-primas do Oriente Médio para o mundo.
O bloqueio da rota estratégica se mantém como principal pesadelo do comércio internacional. Mas está longe de ser o único.
Há um processo de transformação das vias marítimas em várias partes do planeta — as “avenidas” por onde passa quase tudo — em verdadeiras linhas de frente de combate.
Antes vistos como conflitos isolados, as frentes de batalhas no Oriente Médio e na Ucrânia começam a convergir em meio a uma estratégia de transformar em arma tanto as rotas globais e quanto a infraestrutura responsável por abastecer as cadeias no mundo todo.
Drones e mísseis mudaram roteiro
Essa nova fase das duas guerras começou a se ampliar, justamente, diante da percepção de que drones e mísseis baratos podem criar uma espécie de efeito “Davi contra Golias”.
Na história bíblica, em uma luta de forças desiguais, o jovem Davi usou uma “funda”, uma espécie de estilingue, para vencer o gigante Golias.
O uso de drones e mísseis permite que forças militares menores ou com menos recursos consigam causar prejuízos bilionários contra potências. São armas de custo baixo e que podem ser produzidas em massa.
Com essa estratégia, o Irã e seus aliados Houtis, do Iêmen, tentam estrangular o Estreito de Ormuz e o Mar Vermelho. Já na Guerra da Ucrânia, os ataques praticamente fecharam as rotas no Mar Negro e de Azov.
Os ataques a navios mercantes têm causado um efeito dominó: rotas consolidadas são abandonadas, o frete disparou e cadeias de suprimento foram interrompidas.
A conta é alta. Cerca de 80% de tudo o que é comercializado no mundo viaja por navio.
As restrições que começaram com o petróleo e energia agora têm se alastrado para setores como alimentos, eletrônicos e até bens de consumo.
Davi e Golias no Mar Negro
Rússia e Ucrânia transformaram o Mar Negro em outra frente de combate. Os países têm atacado com mísseis e drones portos, estruturas logísticas, cargueiros e petroleiros de ambos os lados e de aliados.
Os números assustam. A Quantum Srtategy estima que a nova frente de conflito o conflito já ameaça até 30% das exportações de petróleo russo no Mar Negro e 25% dos seus grãos.
A Rússia responde por mais de um quinto do trigo vendido no mundo, o que afeta diretamente o setor de alimentos.
Mar Vermelho tingido de drones
O estreito de Bab el-Mandeb, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e ao Oceano Índico, tornou-se um novo grande foco de tensão no comércio marítimo global.
Os Houthis ampliaram as ameaças à navegação. O grupo rebelde do Iêmen, apoiado pelo Irã, anunciou um bloqueio marítimo e continua ameaçando embarcações que cruzam o estreito. Nos últimos dias, o tráfego caiu acentuadamente.
Cerca de 12% do comércio marítimo mundial passa pelo Mar Vermelho, incluindo grande parte das exportações de petróleo e derivados do Golfo para a Europa. O estreito é a porta de entrada para o Canal de Suez, no Egito, que liga os mares Vermelho e Mediterrâneo.
Muitas embarcações vindas da Ásia têm desviado a rota pelo Cabo da Boa Esperança, no sul da África, o que aumenta a viagem em cerca de 10 a 17 dias. A mudança eleva significativamente custos com combustível, seguros e frete.
As transportadoras passaram a aplicar sobretaxas de aproximadamente US$ 1,5 mil a US$ 4 mil por contêiner, especialmente aqueles vindos da Ásia e Oriente Médio.
Em locais como Ormuz, as frotas de navios vivem um dilema diário. Pouco importa se os governos dizem que a passagem está “aberta e segura”: a decisão final de arriscar a vida da tripulação e o navio é do dono.
Canal do Panamá sob tensão
Mas tem mais: outro alarme já começa a tocar para o comércio global. Para Lars Jensen, CEO da Vespucci Maritime, o próximo ponto de ruptura não será no Oriente Médio, mas bem mais perto: no Canal do Panamá.
O atalho histórico entre o Pacífico e o Atlântico já está no meio de uma disputa geopolítica pesada entre Estados Unidos, China e o próprio Panamá.
Dados de autoridades portuárias globais mostram que quase 500 embarcações com bandeira do Panamá foram detidas por motivos de segurança em portos chineses desde janeiro, incluindo 146 navios apenas em maio.
As detenções foram uma retaliação contra a decisão da Justiça do panamenha de o retirar o controle de dois portos na região de uma firma de Hong Kong CK Hutchison.
Além da questão diplomática e geopolítica, as secas e restrições climáticas previstas para os próximos meses para a região, podem levar o Panamá a virar um pesadelo logístico.
O seguro é quem manda
Com o trânsito operando pela metade em Ormuz, grandes firmas de suprimentos e gigantes como a Maersk têm corrido para desviar rotas, estocar produtos antecipadamente e desviar petróleo por oleodutos terrestres.
Tudo isso gera taxas extras, atrasos e custos elevados que acabam repassados.
Outro problema que os novos gargalos marítimos enfrentam é o aumento do custo do seguro.
As seguradoras continuam oferecendo cobertura para riscos de guerra, mas a conta subiu de patamar. Na prática, poucos armadores estão dispostos a pagar o preço para arriscar passar por Ormuz hoje.
O seguro é mais que apenas uma proteção contra imprevistos. Trata-se de uma condição muitas vezes obrigatória para o transporte marítimo.
Há convenções internacionais, por exemplo, que estabelecem a exigência de seguro ou outra garantia financeira para o transporte de determinados produtos como petróleo e outras matérias-primas.
Na prática, sem os certificados exigidos, a embarcação pode ter a entrada recusada no porto, ser detida pela autoridade portuária, perder autorização para carregar ou descarregar, enfrentar multas e outras medidas administrativas.
Além disso, portos, bancos, donos da carga e firmas que contratam o transporte dificilmente aceitam operar com uma embarcação sem cobertura.
Impactos de longo prazo
O impacto na economia global das novas frente marítimas de conflito é mais profundo do que se imagina. As firmas estão percebendo que dependências marítimas históricas viraram uma armadilha.
Não se trata mais de criar um “plano B” temporário para uma crise passageira, mas de reestruturar a logística global do zero: construir corredores terrestres e novos oleodutos, criar depósitos perto dos mercados consumidores e encontrar rotas alternativas.
Os navios vão continuar carregando a maior parte do volume do planeta por ser mais barato, mas enfrentam uma desconfiança crescente.
No mundo dos negócios, a previsibilidade é um dos ativos mais valorizados. A história, provavelmente, vai lembrar de 2026 como o ano em que a incerteza virou um custo fixo global.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Sérgio Tauhata
