Trump incentiva ‘desdolarização’ com tarifaços e retaliações comerciais, diz vencedor do Nobel
Com o novo tarifaço recém-anunciado, o presidente dos EUA, Donald Trump, buscou acertar em um alvo que ele quer derrubar, o enorme déficit em conta corrente do país. Mas acabou acertando outro alvo. E essa face menos visível dos efeitos da guerra comercial americana pode alimentar um processo de desdolarização global.
A análise foi feita pelo vencedor do prêmio Nobel de Economia Roger Myerson ao InvestNews.
“O presidente Trump, claramente, odeia o fato de que os Estados Unidos têm um um déficit crônico na conta corrente comercial por muitos anos”, disse Myerson, que foi premiado com o Nobel em 2007 pelos estudos sobre mecanismos que contribuem ou prejudicam o funcionamento dos mercados, inclusive em relações comerciais.
O economista esteve em São Paulo nesta semana para participar de um evento na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP) sobre a Teoria dos Jogos – o IWGTEA, na sigla em inglês.
Myerson se referiu ao conceito de conta corrente na economia global, que mede, basicamente, o saldo resultante do quanto um país gasta com o resto do mundo e o quanto recebe dos outros países: isso inclui a balança comercial, os serviços e a entrada ou saída de recursos por meio de investimentos (conta financeira ou capital).
Se as despesas são maiores do que as receitas, há um déficit em conta corrente. Se houver um saldo positivo, há um superávit.
No caso dos EUA, essa diferença tem sido historicamente elevada para o lado negativo. No primeiro trimestre de 2026, o déficit comercial alcançou US$ 226 bilhões, apesar de sua política de tarifas sobre parceiros.
Isso acontece porque os Estados Unidos importam mais bens e serviços do que exportam.
Mas boa parte do déficit é compensada pelo fato de existir uma grande demanda global pela dívida federal dos EUA, que funciona como forma de “estoque” de riqueza.
Myerson explicou que os títulos emitidos pelo Tesouro dos EUA são a principal maneira de o mundo guardar riqueza há várias décadas. Isso porque são os ativos mais líquidos, ou seja, são, basicamente, os papéis mais aceitos e mais fáceis para o investidor comprar e vender globalmente.
Essa função de reserva global de valor tem como base um conjunto de fatores. As Treasuries, como são conhecidos os títulos públicos americanos, além de terem o respaldo da maior economia do mundo, rendem juros e tendem a preservar o poder de compra no tempo, porque são denominadas em dólar, a moeda dominante no comércio global.
Trump e seus efeitos colaterais
“Com o mundo em crescimento, a única maneira de garantir que todos tenham os ativos líquidos de que precisam é os Estados Unidos terem um déficit comercial”, afirmou Myerson. “Mas o presidente Trump está empenhado em tentar se livrar disso…”
As ações tomadas pelo presidente dos EUA, como imposição de tarifas, retaliações políticas e exigências de renacionalização de setores produtivos, têm elevado a desconfiança de aliados e parceiros comerciais históricos.
Além disso, a própria ideia de reduzir drasticamente a dívida pública significa que o dinheiro aplicado nos papéis do Tesouro americano terá que migrar para títulos em outras moedas.
Ainda que não veja evidências de um processo de “desdolarização” no mundo, Myerson reforçou que o governo americano tem dado motivos para um movimento de menor confiança na moeda americana como reserva de valor.
“O déficit comercial é um saldo positivo líquido na conta de capital. Significa que há um superávit na conta de capital.”
Para o mundo ter dólares suficientes para usar como reserva e meio de troca internacional, os EUA precisam “exportar” dólares — o que na prática significa rodar déficits externos persistentes.
De fato, apenas no primeiro trimestre de 2026, o saldo da conta financeira dos EUA, ou seja, a diferença entre o quanto de ativos os estrangeiros adquiriram nos mercados americanos em relação ao volume de aplicações de residentes no exterior, alcançou um superávit de US$ 209 bilhões.
Na prática, significa que, a medida que a economia mundial cresce, o volume de ativos líquidos e seguros precisa crescer junto — e só os EUA têm sido capazes de fornecer esse “colchão” em escala.
Por isso, um governo empenhado em zerar o déficit comercial americano, na visão de Myerson, teria que convencer o resto do mundo a confiar menos na dívida americana, e mais na de outros países.
No entanto, o Nobel de Economia ressaltou que confiabilidade histórica dos Estados Unidos não é fácil de replicar. Nesse sentido, o papel do dólar como moeda de reserva global não está ameaçado.
IA acelera produção acadêmica…
Um dos mais renomados especialistas da teoria dos jogos, Paul Milgrom, que venceu o Nobel de Economia em 2020, também esteve presente no evento do IWGTEA, em São Paulo. Ele ressaltou o papel da inteligência artificial como ferramenta para avançar o estudo da teoria dos jogos aplicada aos temas econômicos.
Com o avanço da IA, a teoria dos jogos pode assumir um papel quase como o de “intérpretes do mundo”. Milgrom explicou que ele e Myerson têm usado a própria teoria dos jogos para tentar antecipar os efeitos da IA sobre as pesquisas acadêmicas.
“A IA expandiu enormemente nossa capacidade de realizar trabalhos. Ela pode buscar referências, pode escrever provas de teoremas, pode resumir vastas literaturas para nós.”
…mas há riscos de perda de habilidades
Mas o economista fez questão de evidenciar uma preocupação: à medida que a máquina assume tarefas que antes exigiam prática manual, corre-se o risco de perda de habilidades.
Milgrom comparou a um mundo em que, aos poucos, ninguém mais sabe montar a cavalo tão bem quanto antes. “O fato é que estamos perdendo algumas habilidades e estou preocupado com os tipos de efeitos que isso terá.”
Sobre até aonde vai esse processo, Milgrom preferiu não arriscar. “A IA continua mudando tão rapidamente que seria uma tolice fazer uma previsão para mais de dois ou três anos no futuro.”
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Autor: Sérgio Tauhata
