Até o Claude desconhece informações sobre a esposa de Dario Amodei – e a influência dela na Anthropic

Quando o primeiro-ministro indiano Narendra Modi convidou líderes de firmas de inteligência artificial para uma reunião em Nova Délhi no início deste ano, os protocolos de segurança permitiam que cada executivo levasse uma pessoa adicional. A maioria levou colegas, mas o CEO da Anthropic, Dario Amodei, levou sua mulher, Cami Clark.
Clark não trabalha na Anthropic, mas é frequentemente vista sentada na primeira fila enquanto Amodei fala em eventos como o Fórum Econômico Mundial de Davos, ou conversando com investidores em encontros como a conferência da Allen & Co., em Sun Valley.
Ela atua como uma espécie de caixa de ressonância e conselheira estratégica de Amodei, segundo pessoas próximas à firma. Também foi responsável por levar à Anthropic um importante investidor inicial, o ex-CEO do Google Eric Schmidt — com quem havia se relacionado — quando a firma estava começando, no início de 2021, disseram algumas dessas pessoas.
Apesar de sua influência, há pouquíssimos detalhes sobre Clark disponíveis na internet — e foram feitos esforços para remover referências a ela, segundo uma análise do Wall Street Journal e uma pessoa familiarizada com o assunto.
O casal se casou em 2022, mas a página de Amodei na Wikipédia só passou a informar que ele era casado neste verão e ainda não diz com quem. Buscas por “wife of Dario Amodei” (“mulher de Dario Amodei”) no Google frequentemente mostram uma fotografia de sua irmã, Daniela Amodei, que ajuda a administrar a firma.
Até mesmo o Claude, chatbot de inteligência artificial da Anthropic, responde a perguntas sobre o assunto dizendo que “o estado civil de Dario Amodei não parece estar claramente confirmado”.
Enquanto a Anthropic avança rapidamente rumo a um IPO que pode superar US$ 2 trilhões já neste outono, Clark é uma das vozes mais influentes nas decisões de um CEO que está na linha de frente da indústria de inteligência artificial — uma revolução que está transformando todos os aspectos do trabalho e da vida e, ao mesmo tempo, desperta entusiasmo e temor na maior parte do público.
É uma ascensão notável para uma mulher que não concluiu a faculdade, teve um breve casamento anterior, aos 20 anos, com um homem mais de 40 anos mais velho que ela, e já declarou falência.
Sua carreira inclui a cofundação de uma firma de “pornografia gratuita de luxo” voltada para mulheres, na qual tentou, sem sucesso, convencer o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein a investir, além da criação de um “aplicativo de dieta social” para mulheres que posteriormente se transformou em uma firma de inteligência artificial voltada à saúde feminina.
Ela estabeleceu conexões com pessoas poderosas, incluindo Schmidt, a quem aproximou de Amodei. O bilionário deixou seus cargos no Google e na Alphabet, controladora da firma, em 2020 e passou a investir em startups de tecnologia, entre outras atividades.
Ela também tentou convencer Schmidt a apoiar um fundo de venture capital que os dois administrariam para investir na Anthropic e em outras firmas de inteligência artificial, mas o projeto não avançou.
O Claude, chatbot da firma, é hoje o principal rival do ChatGPT, da OpenAI, enquanto sua ferramenta Claude Code foi adotada por milhões de engenheiros e consumidores comuns para tarefas como programação e análise de dados.
O poderoso modelo Mythos, capaz de encontrar e explorar vulnerabilidades, abalou os mercados e alimentou pedidos de alguns integrantes da Casa Branca por uma supervisão federal maior sobre novos modelos de inteligência artificial. O próprio Amodei tem sido uma voz proeminente nos alertas ao público sobre os riscos de segurança da IA.
Primeira parceira
Clark nasceu em Reno, no estado de Nevada, em 1979. Era empreendedora e frequentemente circulava entre pessoas ricas e poderosas, além de jovens profissionais em ascensão no Vale do Silício.
A conexão mais importante acabaria sendo Amodei, com quem começou a se relacionar em 2014. Pouco antes, a partir de 2011 e durante três anos, ela manteve um relacionamento com Schmidt, que na época era presidente-executivo do Google.
Clark passou um período na casa coletiva em San Francisco onde Amodei, seu amigo Holden Karnofsky e sua irmã, Daniela — que posteriormente se casaria com Karnofsky — viviam com outras figuras importantes dos círculos de segurança da IA e Altruísmo Eficaz. O movimento, concentrado principalmente no Vale do Silício, busca usar dados e raciocínio para determinar como fazer o maior bem possível.
Quando começaram a se relacionar, Amodei ainda era acadêmico e trabalhava como pesquisador de pós-doutorado na Escola de Medicina da Universidade Stanford, depois de obter um doutorado em neurociência computacional pela Universidade Princeton. Mais tarde, passou pela Baidu e pelo Google antes de ingressar na OpenAI, em 2016.
Amodei subiu rapidamente na hierarquia e ajudou a liderar pesquisas importantes sobre as chamadas “leis de escala” — a ideia de que a inteligência aumenta proporcionalmente ao crescimento do poder computacional e da quantidade de dados usados no treinamento.
À medida que Amodei avançava dentro da OpenAI, Clark passou a acompanhá-lo em eventos da firma. Pessoas que trabalharam com ele e conheciam o casal disseram que ela fazia questão de que as ideias dele recebessem o crédito que, em sua avaliação, mereciam.
Ela apresentou Mira Murati, uma de suas amigas mais próximas, ao cofundador da OpenAI Greg Brockman, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. Clark havia trabalhado com Murati na Leap Motion, firma que fabricava dispositivos de rastreamento das mãos para realidade virtual. Murati entrou na OpenAI em 2018 como vice-presidente de IA aplicada e parcerias e mais tarde se tornou diretora de tecnologia da firma.
Clark também apresentou Amodei a Schmidt, que ficou impressionado com o jovem cientista. Em 2018, Schmidt visitou o apartamento de Amodei e Clark em San Francisco e ficou impressionado com as ideias dos dois, disse Schmidt à Bloomberg.
Quando surgiram tensões entre Amodei e os cofundadores da OpenAI Sam Altman e Brockman sobre quem detinha o poder na startup, Amodei, sua irmã e outros cinco funcionários deixaram a firma para fundar a Anthropic, em dezembro de 2020.
Em maio de 2021, a Anthropic anunciou que havia levantado US$ 124 milhões em sua rodada Série A, liderada pelo engenheiro do Skype Jaan Tallinn e com a participação do cofundador do Facebook Dustin Moskowitz, do fundador da Jane Street James McClave e do Center for Emerging Risk Research, além de Schmidt.
Clark, que ainda não era casada com Amodei, queria participação acionária na nova firma, segundo documentos analisados pelo Journal. Em fevereiro de 2021, Clark apresentou a Schmidt a ideia de criar um novo fundo de venture capital chamado Mother of AGI Fund.
O objetivo era ser “uma solução elegante para formalizar o envolvimento de Cami na Anthropic (firma de Dario), administrar o investimento de Eric” e investir no “ecossistema de AGI”, segundo uma proposta de 40 páginas.
Outras pessoas da Anthropic, incluindo Daniela Amodei e outros cofundadores, não apoiaram o plano, segundo pessoas familiarizadas com o assunto, e ele não avançou.
No fim daquele ano, pessoas próximas disseram se lembrar de ter visto o que parecia ser um anel de noivado na mão de Clark e, pouco depois, o casal se casou na Itália.
Conhecida por ser sociável e extrovertida, Clark interagiu com políticos e potenciais investidores em nome de Amodei, conversando com eles e levando-os para conhecer seu marido, mais reservado e intelectual, em conferências e eventos.
A Anthropic atraiu a ira do governo Trump no início deste ano depois que Amodei se recusou a retirar restrições sobre como o Claude poderia ser usado pelo Pentágono.
O governo classificou a Anthropic como um risco para a cadeia de suprimentos, e parceiros do Pentágono foram efetivamente proibidos de usar sua tecnologia em trabalhos com o Departamento de Defesa — uma classificação que a firma contestou judicialmente. Em junho, o governo acrescentou restrições a modelos adicionais de IA da Anthropic, que posteriormente foram retiradas. O impasse trouxe uma atenção indesejada para a firma antes de seu IPO.
Recentemente, Clark disse a pessoas envolvidas com política que a firma considera sua missão proteger os Estados Unidos e que não é tão “woke” quanto seus críticos podem imaginar, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
Na conferência de Sun Valley, em julho, onde passou boa parte da semana ao lado do marido, ela almoçou com Ivanka Trump, uma amiga, e conversou com Jared Kushner, que Amodei havia procurado no início do ano para obter um investimento, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
“firma revolucionária de pornografia”
Os primeiros anos da trajetória de Clark mostram uma jovem tentando obter sucesso em uma série de negócios, muitos deles fundados por ela, incluindo uma firma de pornografia voltada para mulheres.
Em 1999, aos 20 anos, ela se casou com o arquiteto de Reno Waldemar Eklof III, de 64 anos, que havia projetado edifícios como o Atlantis Casino Resort. Eles se divorciaram três anos depois. Em um site pessoal que não existe mais, Clark disse que abandonou a faculdade de arquitetura em 1999.
Registros imobiliários mostram que ela se mudou para San Francisco em 1999 e passou uma década na cidade antes de viver períodos em Nova York e Los Angeles. Nesse período, trabalhou para uma firma de financiamento imobiliário chamada OLG Financial. Enquanto buscava levantar dinheiro para um empreendimento posterior, ela se descreveu como “cofundadora da OLG Financial Corp.” Os documentos de constituição da firma, de 2005, porém, não incluem seu nome.
Um credor executou a hipoteca do apartamento de Clark em San Francisco em 2007 e, dois anos depois, ela entrou com pedido de falência, segundo registros imobiliários e documentos judiciais.
Por volta de 2010, ela e Michelle Capocefalo fundaram a Eddice, que se descrevia como uma “firma revolucionária de pornografia”. Batizada em homenagem à avó materna de Clark, Eddice tinha como objetivo enfatizar uma visão positiva do sexo em uma indústria pornográfica voltada aos homens e usava o slogan: “intelectualmente promíscua”.
O site incluía um blog que reunia conteúdos com títulos como “Lady Porn Day” e “Orgasm, Inc.” Também destacava o trabalho de intelectuais como o comentarista Clay Shirky e o especialista em marketing e autor Seth Godin.
Em determinado momento, depois de informar aos leitores que sua conta no PayPal havia sido congelada, a firma de Clark anunciou em seu site que estava fazendo uma campanha de financiamento coletivo. “Estamos levantando US$ 350 mil para produzir EDDICE.COM e nossos quatro primeiros filmes, AMERICAN GIRL IN PARIS.”
Em um de seus pitches, parte do qual foi analisada pelo Journal, Clark dizia que seu currículo incluía “investimentos imobiliários + firmariais”, além de experiência como “consultora de distribuição + estratégia de marca, com formação em design de interiores/arquitetura”.
O mundo de Jeffrey Epstein
Clark e Capocefalo participaram da conferência Digital-Life-Design de 2011, em Munique, um encontro sobre tecnologia, mídia, ciência e artes que executivos costumavam frequentar a caminho do Fórum Econômico Mundial de Davos. Naquele ano, o discurso principal foi feito por Schmidt, então ainda CEO do Google.
Pouco se sabe publicamente sobre o relacionamento de três anos entre Clark e Schmidt, que continua casado com outra mulher. Schmidt também foi investidor em uma das startups de Clark, voltada à saúde feminina, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
Na conferência de Munique, Clark e Capocefalo conheceram John Brockman, agente literário especializado em livros científicos, que apresentou Epstein a acadêmicos e integrantes das elites do Vale do Silício, segundo documentos sobre Epstein divulgados recentemente pelo Departamento de Justiça.
Brockman apresentou as duas mulheres a Epstein naquele mês de março. Escrevendo que estava a caminho de uma festa da revista Wired na qual Brockman seria o homenageado, ele disse a Epstein: “Você deveria jantar com minhas garotas — Cami e Michelle. Elas estão em Los Angeles levantando dinheiro para um filme pornô voltado ao mercado feminino.” Em seguida, compartilhou o site da Eddice.
Brockman terminou o e-mail de 3 de março mencionando uma festa de aniversário que seria realizada para ele naquele sábado, dizendo que Clark e Capocefalo estariam presentes. Pouco depois, Clark respondeu ao e-mail para Epstein: “Olá, Jeffrey! Adoraríamos jantar com você esta noite.” Ela enviou seu número de celular. John Brockman não respondeu aos pedidos de comentário.
Na semana seguinte, Clark enviou a Epstein um e-mail com um anexo. “Achamos que você e as mulheres poderiam gostar do roteiro/tratamento dos nossos quatro primeiros filmes, American Girl in Paris. Um pouco impróprio para o trabalho”, escreveu.
Um ano depois, ela voltou a procurar Epstein. Inicialmente, ele não se lembrava dela. Ela respondeu que os dois haviam sido apresentados por John Brockman um ano antes. “Temos a firma de pornografia gratuita de luxo. Isso faz você se lembrar?”
Epstein respondeu: “Sim, um grande sino.”
Clark brincou de volta: “Haha, eu ia dizer que você seria a primeira pessoa que não se lembraria de nós.”
Ela tentou convencê-lo a investir na firma, dizendo que elas haviam acabado de contratar alguém da firma de Oprah Winfrey e da Katalyst, de Ashton Kutcher, firma de mídia responsável por programas como “Punk’d”. “Você ainda está interessado?”
Epstein, então um criminoso sexual registrado, respondeu: “Não posso fazer TV de sexo.”
Ela então passou a apresentar a ele outra firma, um “aplicativo + site de dieta social voltado para mulheres”, que combinaria dados de Fitbits e outros dispositivos de monitoramento de saúde, informações inseridas pelos usuários sobre alimentação, ciclos menstruais, humor e localização, além da possibilidade de compartilhar tudo isso, à maneira do Facebook.
A interação entre os dois continuou por dois anos, mostram os arquivos de Epstein divulgados pelo governo. Clark convidou Epstein para uma festa de inauguração da casa dela e de Capocefalo em Manhattan e adicionou-o como amigo no LinkedIn.
Em 2013, Epstein recebeu uma mensagem automática do LinkedIn dizendo que deveria parabenizar Clark por seu novo cargo como CEO da Female Algorithm Technologies.
Há poucos vestígios disso na internet, exceto por uma conta no Tumblr com estética provocativa que combinava fotos de mulheres nuas, um retrato de Steve Jobs com um dos primeiros computadores Macintosh e lemas escritos em letras maiúsculas, como “GRANDES MENTES F— UMAS ÀS OUTRAS”, usando o palavrão por extenso, e “VAMOS GANHAR MUITO DINHEIRO”.
Contato: Keach Hagey — Keach.Hagey@wsj.com
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: The Wall Street Journal