Da carreira mais promissora ao dilema com o avanço da IA: a crise de identidade dos devs

“A minha identidade é ser programador. No momento em que o ‘ser programador’ começa a mudar, e as skills que eu desenvolvi durante anos não são mais importantes, eu começo a perder a minha identidade.”
O desabafo foi publicado duas semanas atrás no canal de Lucas Montano, uma das vozes mais conhecidas da comunidade de desenvolvedores de software no Brasil.
O vídeo “A situação atual dos devs” tem 13 minutos e foi gravado ao volante de um Tesla cujo teto transparente deixava ver o céu nublado. “Eu tô tão perdido quanto tu. Sinceramente, eu não sei qual é o caminho.” Em duas semanas, tinha quase 80 mil visualizações.
A inquietação de Montano captura uma mudança que atravessa o mundo dos desenvolvedores. Por décadas, escrever código foi o núcleo do trabalho e a habilidade que organizava a carreira: isso atraía gente para a área e justificava salários que se notabilizaram por serem acima da média do mercado, em particular na virada da última década, no boom de novas firmas de tecnologia.
Nesses anos de euforia, devs eram disputados como artigo de desejo por grandes firmas e a carreira ganhou o status de ser a mais promissora que havia também no Brasil. “A Corrida pelos Devs“, capa da Exame em fevereiro de 2020, refletia o sentimento amplo de mercado.
Mas essa efervescência ficou para trás e, agora, ferramentas de inteligência artificial automatizam cada vez mais justamente essa etapa de escrever código — e obrigam a categoria a redefinir o que, afinal, faz um bom profissional e quais os novos caminhos para quem quer subir na carreira.
Gabriel Fróes e Vanessa Weber, programadores há 30 anos e criadores do Código Fonte TV, acompanham desde os anos 1990 as ondas que sacudiram a profissão — a bolha da internet, a era dos aplicativos, a explosão das startups. Nenhuma se parece com esta.
“Programar era o momento de colocar em prática aquilo que você planejou”, diz Gabriel ao InvestNews. “Era o momento mais divertido da profissão. Tiraram justamente isso.”
A mudança já aparece nos hábitos de trabalho da categoria. Ferramentas de IA como GitHub Copilot, Cursor e Claude Code são usadas por 95,5% dos desenvolvedores que responderam à Pesquisa Salarial do Código Fonte TV 2025.
Essas ferramentas sugerem trechos de código, completam funções inteiras e testam se o programa roda — com ganhos de produtividade de até 56%, em um estudo divulgado pelo próprio GitHub.
O ganho é real e tem uma implicação relevante: estreita a porta de entrada da carreira e empurra a categoria para um estágio de desenvolvimento profissional em que saber programar continua necessário mas já não basta. Saber orquestrar agentes de IA é mais valioso, por exemplo.
Por outro lado, com a facilidade em escrever códigos por agentes de IA, times de produtos, em outro exemplo, já não dependem necessariamente de devs para entregar uma funcionalidade.
No Brasil, essa virada chega com agravantes próprios.
Por que os devs? E por que agora?
Nos últimos dias, Meta, Nike e Microsoft anunciaram cortes que podem afetar até 18 mil posições, em meio a reestruturações nas quais a IA aparece como parte relevante do pano de fundo.
Desenvolvedores estão particularmente expostos a essa onda.
Pedro Burgos, colunista e consultor de IA do InvestNews, aponta que a categoria é fragmentada, tem baixa tradição de organização coletiva e foi moldada por vínculos PJ e carreiras individualizadas — “se uma firma quiser passar a faca, não tem quem segure”, diz.
A alta dos salários depois da onda de contratações na pandemia criou outro incentivo para as firmas testarem alternativas. E, no caso dos desenvolvedores, essa troca parece menos arriscada porque o resultado do trabalho é mais fácil de verificar: código roda ou não roda.
A própria evolução da IA reforçou essa exposição. Antes de avançar sobre outras tarefas, os modelos ficaram especialmente bons na programação.
“Os grandes laboratórios querem que os modelos melhorem a si mesmos”, diz Burgos. “Se você deixar a IA muito boa em código, você deixa ela boa em tudo.”
A mesma Pesquisa do Código Fonte TV, com 12.510 respondentes, mostra uma pressão maior sobre a base da carreira. Entre 2024 e 2025, o salário médio dos analistas plenos ficou praticamente estável em termos nominais, enquanto a remuneração de sêniores e tech leads avançou.
Um desenvolvedor sênior ganha hoje cerca de R$ 15,6 mil por mês — mais de quatro vezes o rendimento médio habitual do trabalhador brasileiro. A promessa de ascensão que atraiu milhares de profissionais que fizeram transição de carreira — 37,3% do total, segundo a mesma pesquisa — continua de pé para quem já está dentro.
Vanessa Weber viveu algo parecido no início da própria trajetória, quando a bolha da internet na virada para o ano 2000 estourou logo depois de ela entrar no mercado.
“A gente vê muitas das pessoas que estão agora com essa dificuldade percebendo as mesmas coisas que a gente percebeu lá atrás”, diz.
O boom de tecnologia de 2019 e 2020, contudo, quando a pandemia acelerou a digitalização e as firmas, com a demanda aquecida e o custo de capital mais baixo, contratavam pessoas sem experiência mas dispostas a aprender, distorceu as expectativas.
“Criou-se uma impressão errada de que era muito fácil entrar nesse mercado”, diz Vanessa. “Hoje vemos que aquele período foi uma anomalia.”
Um país de PJs sem rede
A polarização entre veteranos e iniciantes ganha contornos próprios no Brasil. Burgos avalia que o país opera com um atraso de cerca de um ano e meio em relação ao Vale do Silício na adoção de ferramentas de IA.
Na leitura dele, os departamentos de TI das firmas brasileiras tendem a ser conservadores e acabam funcionando como freio institucional.
Gabriel aponta outro entrave nos sistemas legados, velhos e mal documentados, que sustentam boa parte do setor monetário — muitos escritos em COBOL, uma linguagem criada nos anos 1960 que a comunidade dev já declarou morta dezenas de vezes, mas que segue processando trilhões em transações bancárias diárias e rodando nos mainframes – os supercomputadores – dos grandes bancos.
“A IA transforma aquilo que já está ruim em algo pior”, diz. “Quanto mais você interage com ela em um sistema legado, mais a dependência cresce.”
A fragilidade é contratual, também. A Deel, plataforma global de contratação, registra que 84% dos contratos de tecnologia no Brasil são de prestadores de serviço independentes.
A pejotização se consolidou como norma do setor, e grande parte da categoria opera sem FGTS, sem 13º salário e sem representação coletiva.
Para muitos desses profissionais, a principal válvula de escape era o mercado internacional — plataformas como Upwork, Fiverr e Toptal permitiam que um dev em Recife ou Belo Horizonte atendesse clientes americanos ganhando em dólar, de casa.
Burgos observa que essa fonte está secando. “Tinha muito brasileiro fazendo isso, e esse mercado encolheu muito nos últimos dois anos”, diz.
Um estudo da Ramp, plataforma americana de gestão de despesas, dimensiona a contração: a fatia do orçamento das firmas destinada a plataformas de freelancers caiu de 0,66% para 0,14% entre o fim de 2021 e o terceiro trimestre de 2025. A taxa de substituição, segundo o estudo, é de três centavos em IA para cada dólar cortado de trabalho humano.
E agora?
No vídeo do YouTube, Lucas Montano conta que achava “um absurdo quando diziam que código é só o caminho, não o objetivo”. “Mas é”, reconheceu o dev. “‘Codar’ é o caminho. E quando nem tu mais usa esse caminho, o que sobra?”
Sobra, segundo Burgos, a capacidade de entender o negócio por trás do código. As fronteiras entre desenvolvedor, designer e gerente de produto estão se dissolvendo. “O designer já cria o código direto, o programador já cria a interface. Você está criando pessoas com superpoderes.”
Gabriel e Vanessa, do Código Fonte, apontam na mesma direção, com um acréscimo prático. Algoritmos, lógica e estrutura de dados continuam sendo a fundação de qualquer ferramenta que venha depois — ninguém deveria abandonar esses fundamentos, dizem.
Mas comunicação e visão de negócio se tornaram tão importantes quanto o domínio técnico. Entre as áreas que mais devem crescer em demanda, Vanessa destaca segurança da informação.
“Talvez você [como dev] não se imagine desenvolvendo um site com JavaScript e HTML. Mas vai se especializar em outra tecnologia que vai te dar sustento.”
Depois de três décadas de mudanças, Gabriel se permite apenas duas certezas. “A área vai continuar mudando”, diz. “E o COBOL vai continuar rodando.”
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Greg Prudenciano