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De Mataripe a portos, Emirados Árabes despejam bilhões no Brasil e pedem ‘estabilidade regulatória’

A AD Ports, uma estatal de portos e logística de Abu Dhabi, um dos sete emirados que compõem os Emirados Árabes Unidos (EAU), fez sua estreia no Brasil na semana passada ao pagar US$ 835 milhões – cerca de R$ 4,3 bilhões – pela CLI, firma dona de dois dos terminais portuários por onde o Brasil embarca soja, milho e açúcar, em Itaqui (Maranhão) e em Santos (São Paulo).

Para Sharif Essa Al Suwaidi, embaixador dos Emirados Árabes Unidos no Brasil desde outubro, o negócio simboliza como os dois países vivem “um dos momentos mais fortes e dinâmicos da história” das relações bilaterais, estabelecidas há mais de meio século, em 10 de junho de 1974.

“Quando um grupo como a AD Ports entra no mercado brasileiro, sobretudo em logística ligada à exportação de alimentos e à infraestrutura, isso reflete confiança no papel do Brasil na economia global”, disse Al Suwaidi em entrevista por escrito ao InvestNews.

Por trás de tudo está a segurança alimentar, prioridade declarada dos Emirados Árabes, que importam a maior parte do que a população consome. O embaixador diz que o Brasil é parceiro fundamental nessa estratégia e que a ambição é maior do que o comércio. “O que estamos construindo vai muito além de uma relação tradicional de comprador e vendedor”, prossegue o diplomata.

Portfólio

Dos emirados que formam os EAU, é a capital, Abu Dhabi, que tem feito os investimentos mais notórios no Brasil. Além da AD Ports, é de lá também o fundo soberano Mubadala.

Por meio de sua gestora, a Mubadala Capital, o fundo vai do etanol da Atvos à segunda maior refinaria do país, a de Mataripe, operada pela Acelen. É sócio minoritário do Porto do Açu e dono das operações de Burger King, Starbucks e Subway no Brasil, via Zamp, além da rede de academias Bluefit.

“Cada firma emirati tem sua própria governança e estratégia de investimento. Mas há também uma visão compartilhada sobre a importância de construir parcerias sólidas com países como o Brasil”, diz.

Dados da própria embaixada dos Emirados Árabes Unidos apontam para pelo menos US$ 5 bilhões em investimentos diretos no Brasil. Mas isso é só uma estimativa, uma vez que a própria Mubadala Capital possui cerca de US$ 6 bilhões em ativos no país. 

Ativos Mubadala Capital no Brasil: atividades portuárias (Porto do Açú, Porto Sudeste) e mineração (Morro do Ipê).

“Excluindo os Estados Unidos, os Emirados estão entre os países com maior volume de investimentos no Brasil em setores estratégicos”, diz Sharif Essa Al Suwaidi.

Relação mais próxima

Nos últimos dois anos, Brasil e Emirados Árabes estreitaram laços no âmbito do BRICS, ampliados durante a presidência brasileira do grupo de países emergentes, e trocaram visitas de alto nível. O embaixador citou dois encontros recentes como a base da confiança que destrava investimentos.

O príncipe-herdeiro de Abu Dhabi, xeque Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, esteve no Brasil em 2024, quando assinou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva um memorando de cooperação econômica, e voltou em julho de 2025 para liderar a delegação emirati na cúpula do BRICS no Rio de Janeiro.

Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan e Lula, durante encontro dos BRICS, no Rio (Ricardo Stuckert/PR)
Princípe Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan e Lula, em encontro do BRICS, no Rio (Ricardo Stuckert/PR)

Essa relação, na visão do embaixador, caminha para ser de mão dupla. Ele afirma que cerca de 15 mil brasileiros vivem hoje nos EAU, trabalhando em setores como tecnologia, aviação, educação, hotelaria e serviços monetários.

Além disso, prossegue o diplomata, existe espaço para que empresários do Brasil façam o caminho inverso. “Vemos espaço significativo para companhias e investidores brasileiros nos Emirados”, diz.

Impasse em Mataripe

Se de um lado os EAU intensificam os aportes no Brasil, de outro estão na ponta vendedora de um de seus maiores ativos: a Refinaria de Mataripe, na Bahia, a segunda maior do país, que foi comprada da Petrobras em 2021 por US$ 1,65 bilhão pela Acelen, controlada pela Mubadala Capital.

A estatal brasileira manifesta interesse em retomar o ativo desde 2024, e a possibilidade voltou aos planos no começo deste ano. Diante da disparada do preço do diesel por causa da Guerra do Irã, Lula afirmou categoricamente, ao lado da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, que a estatal recompraria a unidade.

“Vamos comprar de volta a refinaria na Bahia. Pode demorar um pouco, mas nós vamos”, disse. Questionada pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários), a Petrobras respondeu que analisa a eventual compra.

O embaixador evita comentar a alegada negociação. Afirma apenas que “a energia, especialmente a renovável e a transição energética, segue como um dos pilares mais importantes da cooperação”, e que a “estabilidade regulatória” seguirá importante para destravar novos projetos.

Outros negócios

A aproximação também avança em outras frentes.

Os dois países podem assinar em julho, na cúpula do Mercosul em Assunção, no Paraguai, um acordo de livre comércio em negociação desde 2024. O ponto que ainda trava é o pleito emirati de zerar tarifas para cerca de vinte petroquímicos, setor sensível para a indústria brasileira.

Al Suwaidi não entra no detalhe. “As negociações ainda estão em curso, é melhor que as equipes técnicas tratem disso”, afirma, embora reconheça que toda negociação comercial grande envolve “preocupações setoriais”.

Embaixador Sharif Essa Al Suwaidi e o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (Divulgação)
Embaixador dos EAU, Sharif Essa Al Suwaidi, e o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (Divulgação)

O embaixador dos EAU conduziu no domingo (7) uma missão comercial no Rio de Janeiro, no luxuoso Copacabana Palace, para aproximar empresários brasileiros e investidores dos Emirados Árabes.

A comitiva reuniu nomes como a Câmara de Comércio Brasil-Emirados, a gestora de venture capital SP Ventures, a consultoria Arthur D. Little e as firmas IDEA Holding, Maranata Investments e IVL Trading.

Nesta quarta-feira (10), haverá outro encontro em que será assinado um memorando de cooperação acadêmica entre a American University of Sharjah e a Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

Até o momento, nenhum novo negócio foi fechado. Mas a missão pode abrir caminho para, em breve, a assinatura de mais um cheque bilionário vindo de Abu Dhabi.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
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Autor: Rikardy Tooge

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