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Brasil vira peça-chave na definição dos preços dos fertilizantes

O prêmio de risco da guerra com o Irã, que havia se espalhado pelos mercados de grãos e fertilizantes, está desaparecendo rapidamente à medida que diminuem os temores de interrupções prolongadas no fornecimento, reduzindo uma das maiores ameaças à inflação dos alimentos.

Os preços da ureia, um dos fertilizantes mais importantes do mundo, caíram mais de 30% desde meados de abril, apagando todos os ganhos provocados pelo conflito. Isso também pressiona para baixo os preços do milho, do trigo e de outros produtos agrícolas. Na sexta-feira, o Índice Spot de Agricultura da Bloomberg, que acompanha 10 das commodities agrícolas mais negociadas do mundo, atingiu seu menor nível desde 5 de março.

A reversão é significativa. Nas primeiras semanas da guerra, o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz interrompeu cerca de um terço da oferta global de ureia comercializada internacionalmente, provocando uma disparada dos preços e levando agricultores a buscar alternativas.

A queda atual pode reduzir os custos de produção agrícola e desacelerar a inflação dos alimentos. Ainda assim, especialistas alertam que os preços da energia continuam elevados e que o mercado de fertilizantes permanece vulnerável a novos episódios de tensão no Oriente Médio.

“O que estamos vendo é o mercado eliminando o prêmio de risco”, disse Kang Wei Cheang, corretor agrícola da StoneX, em Cingapura. “Mas ainda não estamos totalmente livres do problema. O choque inicial foi real.”

A forte queda da ureia, o fertilizante nitrogenado mais utilizado no mundo, ocorreu após a China flexibilizar restrições às exportações e à medida que o mercado passou a incorporar a oferta que havia ficado retida em Ormuz, segundo a FertiStream, uma das maiores tradings globais de fertilizantes.

Os preços fracos dos grãos também reduziram a demanda dos agricultores, afirmou Milton Sato, chefe de inteligência global de mercado da firma.

Além disso, alguns produtores do Sul da Ásia retomaram a produção após cortes realizados nas primeiras semanas do conflito.

O mercado de ureia também segue um padrão sazonal. A temporada de plantio já terminou em grande parte do Hemisfério Norte, enquanto o Brasil adiou compras e reduziu as importações em relação ao ano anterior, segundo a Bloomberg Intelligence.

Com a diminuição das preocupações sobre a oferta do Oriente Médio, os compradores estão menos preocupados com uma escassez imediata, afirmou Andrew Whitelaw, fundador da consultoria agrícola Episode 3.

“O mercado de fertilizantes passou por uma mudança notável no último mês”, escreveu Whitelaw em publicação divulgada na terça-feira. “Hoje, a discussão é até onde os preços ainda podem cair.”

Reviravolta nos grãos

A recuperação dos mercados agrícolas também é evidente nos preços das commodities. O Índice Spot de Agricultura da Bloomberg caiu cerca de 10% desde o pico alcançado em meados de maio e se aproxima dos níveis observados antes da guerra, quando colheitas abundantes e estoques globais elevados pressionavam os preços.

As boas condições das lavouras nos Estados Unidos e o início das colheitas no Hemisfério Norte aumentaram a oferta global, derrubando os preços dos grãos.

Os estoques mundiais continuam confortáveis e, mesmo com custos agrícolas mais elevados e riscos associados ao fenômeno El Niño, “os balanços globais de oferta e demanda não são preocupantes”, afirmou Ishan Bhanu, principal analista de commodities agrícolas da Kpler.

Atenção ao Brasil

Apesar da correção recente, o mercado continua sensível aos preços da energia e aos desdobramentos geopolíticos. Qualquer nova interrupção no fornecimento pode voltar a impulsionar os preços, segundo Cheang, da StoneX.

Os custos dos combustíveis permanecem elevados, mantendo pressão sobre os preços dos alimentos e dos produtos vendidos nos supermercados.

O Brasil será um mercado-chave para acompanhar nos próximos meses. Os preços da ureia devem voltar a subir no segundo semestre, possivelmente já a partir de julho, à medida que compradores retomem as aquisições do fertilizante, afirmou Alexis Maxwell, analista da Bloomberg Intelligence em Chicago.

“Agora todos os olhos se voltam para o Brasil”, disse ela, acrescentando acreditar que os preços da ureia já atingiram o pico para 2026.

Os traders também acompanharão o comportamento dos preços dos fertilizantes pagos pelos agricultores durante o restante do verão no Hemisfério Norte e no outono, período em que os produtores começam a garantir insumos para a próxima safra, afirmou David Ortega, professor de economia alimentar da Universidade Estadual de Michigan.

Segundo Ortega, se houver um acordo de paz e o cessar-fogo se mantiver, os preços tendem a se estabilizar. Ainda assim, os riscos inflacionários permanecem.

“A correção do mercado é uma boa notícia, mas eu teria cautela em tratá-la como o fim da história”, disse Ortega. “Ainda existem muitas pressões inflacionárias relacionadas ao conflito, além de um elevado grau de incerteza.”

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Autor: Karla Mamona

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