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Depois de onze quedas, Ibovespa volta ao patamar do início do ano. É hora de voltar para a bolsa?

Lembra do início do ano, quando investidores estrangeiros aplicaram bilhões na bolsa brasileira? Foi um movimento que buscou aproveitar as ações vistas como pechinchas por aqui.

Mas isso não durou para sempre. A recente sangria de recursos estrangeiros da B3 recolocou o mercado acionário local entre os mais descontados da América Latina – como se diz no jargão do mercado opara ativos com preços abaixo daqueles que indicam seus fundamentos.

Depois de registrar a décima primeira queda seguida nesta terça-feira (18), o Ibovespa voltou para os patamares vistos em janeiro, em termos de múltiplo preço por lucro (P/L).

O referencial passou a negociar com um P/L de 8,4 vezes. Essa métrica basicamente diz que, ao preço atual, o investidor paga o equivalente a 8,4 anos de lucro das firmas que compõem o indicador para “recuperar” esse investimento via lucros das companhias do índice.

Quanto mais alto o múltiplo, mais caro o ativo. No caso do Ibovespa, os 8,4 vezes indicam que a bolsa está abaixo da média histórica dos últimos dez anos, de 10,5 vezes.

No auge da valorização neste ano, em 14 de abril, quando fechou em sua máxima histórica nominal aos 198.657 pontos, o principal índice da bolsa brasileira exibia um P/L de mais de 11 vezes.

De lá para cá, o Ibovespa saiu de uma alta acumulada de 23,74% até abril para um avanço de apenas 3,5% agora em agosto.

O referencial “devolveu” quase 20 pontos percentuais nos últimos cinco meses e está pouco menos de 4% acima da pontuação com a qual começou o ano.

A bolsa está barata?

Mas então a bolsa ficou barata de novo? A saída dos estrangeiros reabriu a janela para investir em ações?

Do ponto de vista puramente dos múltiplos, o Ibovespa parece barato. O referencial tem P/L abaixo dos pares latino-americanos.

O IPC do México, o IPSA do Chile, e o Colcap da Colômbia, por exemplo, apresentam múltiplos bem mais elevados, com P/L de 14,4 vezes, 13,5 vezes e 10,4 vezes, respectivamente.

Parte do “desconto” do Ibovespa, no entanto, vem do custo de capital doméstico mais alto, com a Selic em 14% ao ano. É esperado que o índice acionário negocie com múltiplo estruturalmente mais baixo comparado a mercados com juro real menor.

Porém isso não é tudo. O quadro geral mostra que o recuo do índice brasileiro ocorre devido a uma combinação de fatores que podem permanecer até, ao menos, o fim do ano. Ou além.

Maré financeira mudou

O principal ponto é a inversão do fluxo de recursos de fora. No início do ano, a entrada de mais de R$ 50 bilhões sustentou a valorização da bolsa brasileira. Porém, desde o fim de abril, os investidores vem desacelerando a alocação no país.

E, no últimos meses, o fluxo passou a ser negativo. Ou seja, saem mais recursos que entram no mercado acionário nacional. Apenas em agosto até o dia 13, os estrangeiros retiraram R$ 15,6 bilhões.

Essa inversão de maré financeira veio a reboque da volta da força gravitacional dos mercados americanos. As bolsas de Nova York, por exemplo, operam perto das máximas, sustentadas pelos lucros e receitas recordes das gigantes de tecnologia.

A renda fixa americana também começa a drenar recursos de outros mercados com as taxas no maior nível em vários anos. O retorno do título público de 30 anos do Tesouro dos EUA, por exemplo, tem oscilado em torno de 5,3% ao ano, o que representa o maior patamar em quase duas décadas.

Cenário doméstico também preocupa

Existem ainda fatores locais. No Brasil, a aproximação das eleições reforça a cautela dos investidores internacionais. O dinheiro de fora prefere esperar um desfecho definitivo.

Ainda mais em um cenário no qual existe uma grande indefinição sobre quem vai vencer o pleito entre outubro e novembro.

Esse pé atrás se repetiu nas últimas corridas presidenciais e reflete o pragmatismo do capital de fora. Os investidores preferem aguardar definições das políticas econômica e fiscal do futuro governo antes de assumir qualquer posição.

A concorrência com a renda fixa também representa um desafio para o mercado acionário brasileiro. Com um juro real – acima da inflação – superior a 9% ao ano, os investidores locais têm pouco incentivo para assumir riscos na renda variável.

O que o investidor pode fazer?

Para o investidor, o momento pede uma escolha defensiva de ações, como as de companhias de utilidades públicas – utilities, em inglês.

Entre as ações mais resillientes neste ano, segundo analistas, aparecem companhias de energia e petróleo, como Eneva, Prio e Petrobras. A lista inclui ainda firmas de saneamento e mineração.

Investidores de perfil mais arrojado, que conseguem aguentar o sobe-e-desce da bolsa, que tende a ficar mais intenso até as eleições, podem começar a se posicionar para uma retomada da renda variável em algum momento após o pleito.

Ainda que exista um cenário indefinido, a experiência de votações anteriores mostra que a saída de cena das incertezas relacionadas à votação costuma trazer períodos de maior otimismo – mesmo que temporário – com a bolsa independentemente de quem vencer a disputa política.

Nesse sentido, os ETFs de Ibovespa, que seguem o principal índice da bolsa, são uma forma de acrescentar o mercado acionário local ao portfólio – é o caso dos fundos BOVA11 (da BlackRock), e BOVV11 (do Itaú).

Outra opção é NBOV11, da Nu Asset. Ele replica a carteira do Ibovespa mais uma seleção de firmas que negociam em Nova York mas estão expostas à economia brasileira, como Mercado Livre, Nubank e XP.

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Autor: Sérgio Tauhata

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