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Dono da LVMH estreia no X para negar racha entre herdeiros

Bernard Arnault entrou no X, antigo Twitter, para fazer sua primeira publicação na rede: uma carta aberta contra o jornal francês Le Monde. O texto rebate uma série de seis reportagens sobre a disputa entre seus cinco filhos pelo controle do maior grupo de luxo do mundo.

A carta foi divulgada no fim de semana pela área de imprensa da LVMH e republicada por Arnault nesta segunda-feira.

O gesto é raro para o empresário francês de 77 anos, o homem mais rico do país, que costuma reservar suas manifestações públicas para assembleias de acionistas e divulgações de resultados da LVMH.

Antoine e Bernard Arnault (Nathan Laine/ Bloomberg)

Ele disse estar “profundamente emocionado” com a repercussão. A publicação mostra o tamanho do incômodo causado pela série do Le Monde, que descreveu a sucessão como “o veneno no coração da LVMH”.

O conglomerado reúne mais de 70 marcas, entre elas Louis Vuitton, Dior, Tiffany & Co., Sephora, Bulgari, Moët & Chandon e Dom Pérignon. Os cinco filhos de Arnault ocupam posições de destaque no grupo e são vistos como possíveis herdeiros do comando.

Cinco filhos, nenhum sucessor

A reportagem do Le Monde afirma que Arnault preparou todos os filhos para assumir posições de liderança, mas sem indicar claramente quem deverá sucedê-lo.

Delphine Arnault, de 51 anos, é presidente e CEO da Christian Dior Couture. Antoine Arnault, de 49, ocupa cargos estratégicos no grupo e participa da administração da holding familiar. Alexandre, de 34, Frédéric, de 31, e Jean, de 27, também acumulam funções em diferentes marcas da LVMH.

Segundo o jornal francês, a forma como Arnault distribuiu os cargos teria incentivado a competição entre os irmãos e provocado a formação de alianças entre os filhos de seus dois casamentos. A série também afirma que investidores estariam inquietos com a falta de um plano sucessório mais definido.

Arnault rejeitou a descrição. Na carta, escreveu que gostaria que o jornal tivesse reconhecido uma nuance: a possibilidade de “cinco personalidades fortes trabalharem sob o mesmo teto sem que isso se transforme em uma ópera italiana”. Ele não indicou, porém, quem poderá assumir o grupo no futuro nem apresentou novos detalhes sobre o processo de sucessão.

“Última família real da França”

Arnault também respondeu, em tom irônico, à descrição dos Arnault como “a última família real da França”. O empresário agradeceu sarcasticamente ao Le Monde por ter destinado seis meses de investigação, duas jornalistas em tempo integral e seis reportagens em páginas duplas à sua família.

“Sei muito bem que, ao responder, dou a essa série o destaque que talvez ela esperasse: um episódio final, assinado de próprio punho. Pois bem”, escreveu. Arnault afirmou ainda que aqueles que apostam em uma ruptura familiar “para vender jornais” terão de esperar muito tempo.

A relação entre a família e o próprio Le Monde adiciona mais uma camada ao episódio. Xavier Niel, principal acionista individual do jornal, é companheiro de Delphine Arnault desde 2010 — o casal não é oficialmente casado. Arnault usou essa ligação para rebater as acusações de que pressionaria veículos de imprensa diante de coberturas negativas: segundo ele, a própria publicação da série em um jornal ligado ao companheiro de sua filha enfraqueceria essa tese.

O Le Monde não respondeu publicamente à carta e manteve as seis reportagens disponíveis sem alterações, segundo a Forbes.

Política, impostos e influência

A reação de Arnault não se limitou à sucessão. O bilionário também rebateu acusações de influência excessiva sobre líderes políticos franceses. Em tom de provocação, declarou-se “culpado” por ter conversado com cinco presidentes da França, mas lembrou que também se reuniu com chefes de Estado dos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, além do imperador do Japão.

“Devo entender que apenas os cochichos franceses são escandalosos?”, questionou. Arnault argumentou que a interlocução com governos estrangeiros faz parte da atuação de uma companhia exportadora, comparando a LVMH a grupos franceses como Airbus, L’Oréal e Renault. Cerca de 75% da receita da firma vem de fora da Europa.

O empresário também contestou críticas aos incentivos fiscais obtidos por meio de doações culturais e filantrópicas. Entre as contribuições citadas estão € 200 milhões para a reconstrução da Catedral de Notre-Dame, € 50 milhões para um instituto de matemática da École Polytechnique e a criação da Fondation Louis Vuitton.

Arnault afirmou que o regime de incentivos fiscais para doações foi aprovado pelo Parlamento francês em 2003 e está disponível para firmas e cidadãos. “Se o mecanismo causa uma indignação tão profunda, resta convencer o legislador a revogá-lo”, escreveu. “Até lá, eu o defendo. Ninguém me obrigou.”

A ofensiva pública acontece enquanto a LVMH enfrenta um cenário mais difícil para o mercado de luxo. A companhia encerrou 2025 com receita de € 80,8 bilhões, queda de 5% em termos reportados e de 1% em bases orgânicas, segundo os números citados pela Forbes. A divisão de moda e artigos de couro, principal negócio do grupo, sofreu com a menor demanda global, principalmente entre consumidores chineses.

No primeiro trimestre de 2026, a receita somou € 19,1 bilhões, recuo de 6% em relação ao mesmo período do ano anterior. O grupo também mencionou o enfraquecimento dos gastos de turistas e os impactos do conflito no Irã sobre centros de consumo de luxo no Oriente Médio, como Dubai — as tensões teriam retirado cerca de um ponto percentual do crescimento orgânico no trimestre.

As ações da LVMH acumulavam queda de aproximadamente 30% no ano. O bilionário tem fortuna estimada em US$ 142,4 bilhões e ocupava a nona posição no ranking global da Forbes na segunda-feira.

Apesar do tom duro da carta, Arnault encerrou sua resposta com uma última ironia dirigida ao jornal.

“Quanto a mim, fiquem tranquilos: continuarei fazendo as palavras cruzadas do Le Monde, que são excelentes.”

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Autor: Redação InvestNews

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