Mais café no mundo não garante alívio nos preços. Entenda o motivo
Depois de anos de escassez, o mundo finalmente está recebendo mais café. A questão é quanto dessa produção chegará aos armazéns das bolsas de commodities, que servem de referência para os preços em todo o setor.
O mercado de café arábica tem apresentado volatilidade incomum neste ano, em grande parte devido aos estoques extremamente reduzidos de grãos disponíveis para liquidar contratos futuros próximos do vencimento.
Os estoques certificados pelas bolsas caíram ao menor nível desde 1999, ajudando a levar os preços para perto das máximas do ano, em torno de US$ 3,50 por libra-peso.
Esses estoques precisam ser recompostos para que os preços se tornem mais estáveis. Caso contrário, as torrefadoras de café — e, em última instância, os consumidores — continuarão expostos a fortes oscilações de preços, mesmo com a melhora da oferta global.
Na sexta-feira, os contratos futuros de café em Nova York subiram até 5,6%, a caminho da maior alta semanal desde 10 de julho.
A expectativa é de que haja grãos suficientes para atender à demanda. A safra 2026/2027 deve registrar o maior superávit em anos, impulsionada pela possibilidade de uma colheita recorde no Brasil, principal produtor mundial.
No entanto, operadores e analistas não sabem ao certo se os preços atuais dos contratos futuros oferecem incentivos suficientes para que os grãos sejam enviados aos armazéns administrados pelas bolsas, em vez de permanecerem em estoques privados.
A entrega de café nas bolsas era uma decisão praticamente óbvia quando o prêmio por entregar os grãos mais cedo, em vez de mais tarde, era maior, afirmou Judy Ganes, presidente da J. Ganes Consulting e analista experiente do mercado de commodities. “A conta mudou e, de repente, deixou de fazer sentido entregar uma quantidade tão grande.”
Essa diferença é importante porque os armazéns das bolsas funcionam como uma espécie de reserva de segurança para o setor cafeeiro. Eles recebem grãos quando outros compradores demonstram pouco interesse e oferecem uma reserva de fácil acesso quando a oferta fica escassa.
As torrefadoras recorreram intensamente a esses estoques e agora estão comprando ativamente café no mercado físico, a preços mais altos, absorvendo grãos que poderiam, de outra forma, chegar às bolsas.
O aumento dos estoques privados ainda seria uma boa notícia para torrefadoras e consumidores, depois de anos de escassez e preços recordes. Mas, sem uma recuperação significativa dos estoques nas bolsas, os contratos futuros podem continuar voláteis.
Os preços talvez precisem subir para incentivar mais entregas, o que poderia obrigar operadores com posições vendidas a recomprar contratos futuros e intensificar a alta.
“Existe a possibilidade de alguém ser pressionado”, afirmou Ganes.
Esse movimento pode acabar chegando ao preço de um café com leite. Os contratos futuros servem de referência para os preços pagos por muitas torrefadoras pelos grãos. O custo final costuma ser calculado com base na cotação dos contratos futuros, acrescida de um prêmio ou descontada uma parcela, conforme a qualidade do café.
Os consumidores ainda sentem os efeitos da disparada histórica dos custos do café nos últimos dois anos. A JM Smucker, fabricante do café Folgers, citou as cotações elevadas dos contratos futuros como um dos motivos para adiar os planos de reduzir os preços.
A perspectiva de um café mais barato, porém, significa que os armazéns das bolsas já deveriam ser um destino atraente para parte dos grãos, segundo Oliver Broster, gerente sênior de análise de café da Expana.
Café brasileiro
Parte desse volume já chegou. Em setembro, uma quantidade maior de café brasileiro entrou nos estoques certificados do que em qualquer outro mês dos 18 meses anteriores. Mas a entrada repentina de dezenas de milhares de sacas fez os contratos futuros despencarem, e as entregas diminuíram desde então.
O fato de cerca de 72% das sacas de café brasileiro recebidas naquele mês terem sido aprovadas nos testes de qualidade da bolsa — uma proporção inesperadamente alta e alinhada à de anos anteriores — também pressionou os preços. Chuvas intensas haviam aumentado os temores de que a safra pudesse sofrer danos generalizados.
“É uma safra enorme. Portanto, em comparação com o ano passado, ainda há uma grande quantidade de café brasileiro de excelente qualidade”, afirmou Broster.
Ainda assim, os produtores brasileiros têm poucos motivos para se apressar. Com dinheiro em caixa após os preços recordes do café nas safras anteriores, eles conseguiram armazenar os grãos por mais tempo do que o habitual, à espera de ofertas melhores.
O café brasileiro com maior probabilidade de atender aos padrões de qualidade da Intercontinental Exchange (ICE), bolsa que negocia contratos futuros de commodities, também é suficientemente bom para receber “um prêmio significativo em alguns mercados”, superior ao que a bolsa pode pagar, afirmou Marcelo Moreira, analista da Archer Consulting baseado no Brasil.
A valorização do real neste mês, após os resultados eleitorais, pode desestimular ainda mais os produtores a vender, a menos que os dólares recebidos pelas exportações também aumentem.
Grãos de origens muito procuradas, como a Colômbia, também estão alcançando prêmios mais elevados, o que torna menos lucrativas as entregas de curto prazo às bolsas, segundo Tomas Araujo, operador sênior da StoneX.
Araujo espera que entre 50 mil e 70 mil sacas de café brasileiro cheguem à bolsa em outubro, com tempo suficiente para passar pelo processo de certificação e liquidar os contratos futuros com vencimento em dezembro.
Atualmente, cerca de 14 mil sacas a mais de café brasileiro aguardam inspeção de qualidade em armazéns credenciados pela ICE do que no fim de setembro.
Esse volume, porém, é inferior às projeções feitas poucas semanas atrás, quando as cotações dos contratos futuros estavam mais altas.
“O aumento dos estoques nas bolsas reflete uma certa abundância de café e, normalmente, pressiona os preços e reduz os diferenciais entre os vencimentos dos contratos”, afirmou Thiago Cazarini, corretor de café baseado no Brasil. “Mas o aumento precisa ser significativo.”
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Bloomberg
