‘O trator tá lá no alto’: drones de pulverização multiplicam-se no agro

É um drone com esteroides: do tamanho de uma mesa de jantar, com oito hélices de 1,3 m cada uma. No meio, um reservatório de 40 litros. Nas pontas, bicos de pulverização que soltam uma tempestade de pesticida capaz de varrer a largura de uma rua.
Esses equipamentos estão tomando o lugar de uma ferramenta tão importante para a agricultura de hoje quanto o arado de boi foi para a da Suméria: os pulverizadores – um parente do trator, só que feito para espalhar defensivos, fertilizantes e cia.
A maior diferença está no preço. Os drones agrícolas mais usados no Brasil custam menos de R$ 200 mil. Um pulverizador terrestre, R$ 1,2 milhão – ou mais. “E o rendimento é pau a pau”, diz Ricardo Campanelli, superintendente agrícola da Campanelli, que opera lavouras de cana, milho e áreas de pastagem na região de Bebedouro, no interior de São Paulo – além de produzir gado.
Mas não é só o custo. O drone é um trabalhador mais versátil. A Campanelli tem uma lavoura na cidade de Altair e outra em Severínia, 50 km ao sul. O drone pode pulverizar uma fazenda de manhã com pesticida e a outra à tarde com um insumo diferente. Não dá para fazer isso com o pulverizador convencional.
“Ele vai ficar parado em Altair a tarde inteira. Com o drone, eu termino em Altair e levo para Severínia num caminhãozinho. Lavo o recipiente, os bicos, e coloco outro produto e consigo trabalhar no mesmo dia”, diz Campanelli.
No caso do pulverizador, eles teriam de lavar um reservatório de 2.500 litros, mais 50 metros de mangueira e 54 bicos. Não é algo que dá para resolver na hora do almoço – fora a parte logística de transportar um “mamute” de 10 toneladas, contra 50 quilos de um drone.
Menos diesel e menos água
A Campanelli começou com os drones em 2023, mas para usar só de vez em quando. Eles plantam milho em outubro/novembro. Época de chuva. E, quando chove, o pulverizador sobre rodas não entra, pois atola. A versão com hélices, então, veio a calhar.
Três anos depois, a equação inverteu. Os drones deixaram de ser uma ferramenta de emergência para virar protagonistas.
Vale uma pausa aqui. Se o tanque de um equipamento terrestre tem 2.500 litros, e o de um drone, uma fração disso, como que ele consegue competir? Por causa de um “pulo do gato”: ele usa (bem) menos água na “calda” – a solução de insumo agrícola diluído em H2O. Vão 5 a 10 litros por hectare (1,4 campo de futebol), contra 100 litros do terrestre.
É um efeito colateral da própria engenharia do drone. Ele tem oito hélices girando logo acima dos bicos de pulverização. Elas geram um vendaval para baixo, que empurra as gotas plantação adentro. O pulverizador terrestre não tem essa ajuda. A gota precisa ser maior para não sair voando com o vento. Você precisa, então, de mais água. Muito mais.
No drone, é o inverso. Com o vendaval das hélices dando impulso, as gotas podem ser menores – com a espessura de um fio de cabelo. Essas gotículas permitem o uso de uma calda mais concentrada, com mais defensivo na mistura.
Logo, o uso de drones economiza até 95% de água. E aí gasta-se menos diesel também – já que deixa de ser necessário transportar tanta calda.
Por essas, a Campanelli vai expandir o uso de drones. O modelo que eles usam é o T50, fabricado pela DJI, da China (onde mais?). É um par, que trabalha junto de três pulverizadores tradicionais, terrestres, nas fazendas do grupo. Mas eles já encomendaram um modelo mais novo, o T100 – vale notar que a DJI é responsável por 83% da frota de drones agrícolas no país.
Bom, em vez de 40 litros de calda, o T100 leva 100 litros. E em vez de mover-se a até 30 km/h, chega a 49 km/h. Juntando os dois upgrades, a capacidade de pulverização salta de 80 hectares por dia, equivalente à dos pulverizadores terrestres, para pelo menos 150.
Com esse desempenho, os drones começam a desafiar outro concorrente: os aviões agrícolas, que soltam defensivo pelas asas voando baixinho sobre a plantação. Mas aí a briga é mais complicada.
Eles são páreo para os aviões?
“Um avião agrícola pulveriza, em média, 50 mil hectares [500 quilômetros quadrados] por safra”, diz Cláudio Junior Oliveira, diretor do Sindag, o sindicato das firmas de aviação agrícola. “Os T100 provavelmente vão ficar entre 4 mil e 5 mil hectares por safra”. Ou seja: não dá para concorrer cabeça a cabeça com os aviões. São animais diferentes.
Mas Ricardo Campanelli, que aluga aeronaves para pulverizações específicas, entende que isso não vale para qualquer situação. “Se você pegar o Mato Grosso, com aqueles chapadões, sem árvore nenhuma, aí o avião voa bem. Mas aqui, no interior de São Paulo, é uma região mais ‘quebrada’”, diz.

Campanelli se refere a áreas de plantação nem tão gigantes quanto as do Mato Grosso, ao relevo mais acidentado e à quantidade de árvores no meio do caminho.
“Nas nossas áreas, o avião acaba ficando num sobe e desce, para desviar das árvores. E aí você tem uma aplicação mais precária”, diz. “Numa manhã, o avião pulveriza 500 hectares. Agora, com dois T100, posso fazer boa parte disso [300 hectares], e com uma qualidade melhor [mais rente ao solo]”.
Não só. A diferença de preço, aí, vai para em outro patamar. Uma dupla de drones T100, a preço de mercado, sai por menos de R$ 500 mil. Um avião agrícola típico, quase dez vezes mais: R$ 4 milhões.
Tem outra. Drone pode voar à noite; avião agrícola, não. Faz diferença. Você não pode fazer pulverização com o sol a pino. As gotas evaporam antes de fazer efeito. As aplicações acontecem até umas 10h, 11h da manhã. Depois voltam lá pelas 16h30, 17h. Se for de avião, esse segundo turno só vai até o anoitecer, já que essas aeronaves não podem voar no escuro. Com os drones, dá para entrar noite adentro.
O enxame de drones
Por essas, os drones estão se multiplicando agro afora. É difícil saber quantos estão operando no Brasil de fato. Pela regulamentação, eles precisam ser registrados na Anac, a Agência Nacional de Aviação Civil. Mas nem todo mundo formaliza o aparelho, de acordo com o Sindag – em grande parte, porque os drones ainda são uma novidade. Leva tempo até que tudo se ajuste às normas.
Ainda assim, dá para ter uma ideia do crescimento. Havia 10.359 drones registrados na Anac até o final de 2025 – pelo levantamento mais recente do Sindag. Dá quase o triplo do que tinha em 2023. Olhando só para esse dado, que é o mais sólido possível, já é o equivalente a 12% da frota de pulverizadores terrestres (82,5 mil).
E a expansão deve ir mais longe. Até porque a tecnologia ali avança rapidamente. O T100 é quase tão recente quanto o iPhone 17. Saiu em julho de 2025. E agora, em abril de 2026, já lançaram na China o T200, com o dobro da capacidade – e ele pode abrir mais fronteiras para o uso de drones.
O fato é que, em boa parte das fazendas, o trator de pulverização já está lá no alto. E não parece disposto a voltar para o chão.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: Alexandre Versignassi


