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Ondas artificiais viraram um negócio bilionário do mercado de luxo. O tempo vai mostrar se a conta fecha

Um investimento de R$ 200 milhões costuma ser suficiente para construir uma fábrica, um shopping ou um hospital. Em São Paulo, esse valor está sendo usado para construir uma praia. Não uma praia qualquer, mas uma artificial que, na verdade, é uma piscina de ondas artificiais e que faz parte de uma nova estratégia de incorporadoras de luxo para vender imóveis caros, valorizar empreendimentos e criar receitas recorrentes.

O que o tempo vai mostrar é se essa equação de fato vai fechar e gerar retorno sobre o capital alocado, dado que é voltado para um público muito segmentado no Brasil, de quem tem até R$ 1,5 milhão para pagar em um título de clube – e acha que o investimento vale a pena.

“Foram R$ 100 milhões para importar o maquinário e outros R$ 100 milhões para construir a Wavegarden [tecnologia da piscina de ondas] do tamanho que trouxemos”, afirma Oscar Segall, sócio-fundador da KSM Realty, incorporadora responsável pelo Beyond The Club.

“É uma piscina com 30 milhões de litros de água em um movimento de correntes gigantes. Como estamos perto do rio Pinheiros, a fundação foi bastante complexa.” 

A piscina capaz de gerar ondas de até dois metros de altura é o principal atrativo do Beyond The Club. O clube de alto padrão, localizado no bairro de Santo Amaro, foi desenvolvido pela KSM em parceria com o BTG Pactual e tem o três vezes campeão mundial Gabriel Medina como sócio. Mas, do ponto de vista monetário, a piscina representa apenas uma parte do negócio.

Assim como campos de golfe e quadras de tênis foram usados como atração durante décadas para diferenciar condomínios de alto padrão, o surfe passou a cumprir uma função semelhante: transformar um equipamento esportivo em um ativo capaz de impulsionar a venda de imóveis e a valorização dos empreendimentos. 

O negócio por trás das ondas

Tanto nos condomínios quanto nos clubes, a piscina de ondas está virando o principal atrativo de grandes complexos que entregam outras amenidades para os sócios. 

O Reserva Beach Club, que está em construção em Alphaville, tem uma oferta que, além da piscina de ondas, inclui quadras, academia, spa, skate park, simulador de ski, tirolesa, coworking e restaurantes.

“Hoje, 5% dos nossos associados são surfistas, o restante são famílias com dois ou três filhos”, afirma Maurício Gariglia, da incorporadora BR Soho, responsável pelo empreendimento. 

O Reserva Beach Club tem como sócio o ex-jogador Ronaldo, o Fenômeno. Gariglia afirma que a construção do clube exigiu um investimento de R$ 1 bilhão e, apenas com a venda de títulos, o Reserva espera faturar R$ 4,2 bilhões. 

Já na JHSF, a expectativa de faturamento com o surfe vai além da venda de títulos. Em 2023, a companhia inaugurou sua primeira piscina com ondas no condomínio Boa Vista Village Surf. Os mais de 60 apartamentos voltados para a piscina de ondas, com preços a partir de R$ 5,5 milhões, já foram vendidos.

Na capital paulista, a companhia repete a fórmula e planeja construir um condomínio residencial ao lado do seu empreendimento São Paulo Surf Club com apartamentos de 220 a 460 metros quadrados. O clube, inaugurado no fim de 2025, vende títulos hoje a partir de R$ 1,5 milhão.

No Beyond The Club, embora não exista um projeto residencial integrado, estimativas do mercado apontam que a presença do clube provocou uma valorização de até 80% dos imóveis no entorno.

Esses empreendimentos têm ainda uma terceira camada de receitas. Depois da venda inicial dos títulos, os clubes passam a receber mensalidades dos associados.

Tanto o Beyond quanto o São Paulo Surf Club cobram valores a partir de R$ 2,3 mil por mês, além das receitas obtidas com alimentação, eventos e outros serviços oferecidos dentro dos complexos.

O mercado internacional mudou 

O movimento no Brasil está em linha com o que acontece fora do país. Por lá, os primeiros empreendimentos internacionais com piscina de ondas apostavam principalmente na venda de sessões para surfistas. 

O problema é que a conta não fechava. O alto custo de implantação e operação tornou insuficiente a receita gerada apenas pelo esporte. A solução encontrada foi integrar as piscinas a condomínios, hotéis e clubes.

Um dos exemplos é o Cabo Real Surf Club, empreendimento que está sendo desenvolvido no México pelo empresário Michael B. Schwab, filho do fundador da gestora Charles Schwab.

Com inauguração prevista para este ano, o complexo combina uma piscina de ondas capaz de atender simultaneamente 40 surfistas, um campo de golfe, quadras esportivas, spa e mais de 200 residências de alto padrão, comercializadas a partir de US$ 2,5 milhões.

Novos empreendimentos de luxo

Existem hoje cerca de 45 piscinas de ondas em operação no mundo e outras 75 em desenvolvimento, segundo estimativas do setor. A expansão é resultado de uma combinação de fatores. 

Os sistemas de geração de ondas ficaram mais confiáveis, o surfe ganhou visibilidade após entrar no programa olímpico em Tóquio, em 2021, e incorporadoras passaram a buscar novos diferenciais para disputar compradores de imóveis de alto padrão. 

No Brasil, além dos empreendimentos já em operação e sendo construídos em São Paulo, firmas anunciaram novos projetos em estados como Rio de Janeiro, Goiás e Santa Catarina. 

Apesar do crescimento, a expectativa é que as piscinas de ondas permaneçam restritas ao mercado de alto padrão. Projetos desse porte exigem áreas extensas, infraestrutura robusta, alto consumo de água e energia, processos complexos de licenciamento ambiental e investimentos que chegam à casa das centenas de milhões de reais.

Ainda assim, as piscinas de ondas representam uma mudança importante na lógica do mercado imobiliário. Durante décadas, um dos principais diferenciais de um empreendimento de luxo era oferecer uma localização difícil de reproduzir, como um imóvel de frente para o mar. Agora, parte dessa exclusividade pode ser construída.

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Autor: Letícia Toledo

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