Os bastidores da disputa entre Ford e GM na guerra comercial de Trump
A General Motors e a Ford Motor têm tentado apresentar uma frente unificada enquanto lidam com a caótica política comercial do governo Trump, que está custando bilhões de dólares às montadoras e desorganizando as cadeias globais de suprimentos.
Nos bastidores, porém, as rivais de Detroit estão em conflito, enquanto cada uma busca tarifas e políticas específicas que lhe sejam favoráveis, ao mesmo tempo em que tenta se apresentar como a montadora mais americana.
As duas firmas vêm defendendo seus interesses junto a autoridades do governo, cada uma tentando se posicionar como a mais importante para a economia dos EUA, enquanto se intensificam as discussões sobre a reformulação de um acordo comercial norte-americano fundamental para os modelos de negócios de ambas.
A Ford, por exemplo, quer tarifas mais altas sobre importações da Coreia do Sul, onde a GM fabrica seus carros mais baratos. A GM, por sua vez, está questionando aspectos da estratégia da Ford para baterias de veículos elétricos.
O atrito mostra o quanto as duas gigantes de Detroit se tornaram diferentes. A divergência entre suas estruturas de produção e cadeias de suprimentos levou cada uma a buscar benefícios distintos em Washington.
“Houve uma época em que existiam as três grandes [montadoras de Detroit] e elas agiam de forma unificada”, disse Patrick Anderson, da Anderson Economic Group, consultoria sediada em Michigan. “Esses dias ficaram para trás.”
Segundo ele, o comércio é especialmente delicado porque envolve questões políticas.
Em comunicado, a GM afirmou que veículos produzidos com mão de obra e peças norte-americanas deveriam receber tratamento tarifário preferencial e que está satisfeita com o progresso nas negociações comerciais. “Em última análise, isso não se trata de uma montadora contra a outra; trata-se de garantir que nosso país e nossa indústria sejam vencedores no longo prazo.”
A Ford destacou sua posição como a maior fabricante de veículos e empregadora de trabalhadores da indústria automobilística dos EUA. “O governo e o Congresso continuam sendo parceiros colaborativos para garantir que os enormes investimentos da Ford nos Estados Unidos continuem”, afirmou a montadora em comunicado.
O atrito entre as duas rivais não é novo. A disputa entre elas é uma das mais conhecidas e acirradas do mundo firmarial americano, alimentada pela proximidade geográfica e pela longevidade das companhias. A Ford foi fundada em 1903; a GM surgiu cinco anos depois. As sedes das duas firmas ficam a cerca de 24 quilômetros de distância.
Durante boa parte de sua história, as duas companhias avançaram em conjunto em algumas de suas principais decisões firmariais, desde acordos com sindicatos até linhas de produtos. Agora, elas têm estratégias diferentes para carros elétricos, para a produção de veículos mais acessíveis e para o futuro da tecnologia de baterias.
A GM tem demonstrado maior disposição para expandir seus negócios para a área de defesa, enquanto a Ford reduziu sua linha de carros pequenos para concentrar esforços em seus veículos “icônicos” mais lucrativos.
A Ford emprega mais trabalhadores em fábricas e monta mais carros nos EUA do que qualquer uma de suas concorrentes. Cerca de 80% dos veículos que vende no país são produzidos em território americano.
Esse é um ponto que executivos da firma destacam ao defender tarifas mais altas sobre veículos importados, especialmente os vindos da Coreia do Sul. É nesse país que a GM fabrica cerca de 400 mil veículos por ano para exportação aos EUA — alguns de seus modelos mais baratos, mas também veículos que já apresentam margens de lucro reduzidas.
A Ford, por outro lado, quer tarifas menores sobre peças e materiais importados, especialmente o alumínio, que está sujeito a tarifas de 50%. A montadora é a maior compradora de alumínio do setor automotivo e utiliza o metal na picape F-150, seu modelo mais vendido.
A firma foi obrigada a aumentar a dependência de alumínio importado depois que incêndios em fábricas tiraram do mercado seu maior fornecedor. Até agora, autoridades do governo rejeitaram os pedidos da Ford sobre o tema.
A GM apresenta um argumento diferente. A firma afirma que a Ford depende de peças estrangeiras e de tecnologia chinesa para suas baterias de veículos elétricos. Segundo a GM, é ela quem contribui mais para a força de trabalho americana quando são considerados tanto os funcionários administrativos quanto os trabalhadores das fábricas. A firma também argumenta que os SUVs compactos que importa da Coreia do Sul são populares e acessíveis para consumidores comuns.
No ano passado, a GM tentou bloquear recursos federais destinados a uma enorme fábrica de baterias da Ford em Michigan e continua criticando a concorrente por sua dependência de tecnologia chinesa para baterias.
Embora esteja importando temporariamente baterias da China para ajudar a reduzir os custos do Chevy Bolt EV, a GM está ampliando seu próprio programa de baterias e desenvolvendo internamente baterias de baixo custo.
“Nós não estamos licenciando tecnologia de outra firma na China. Estamos desenvolvendo nosso próprio conhecimento em baterias nos Estados Unidos”, disse Kurt Kelty, vice-presidente de baterias e sustentabilidade da GM, em junho, quando a firma apresentou um plano para desenvolver suas próprias baterias à base de sódio.
As duas firmas também entraram em conflito por causa de um projeto de lei apresentado pelos senadores Bernie Moreno, republicano de Ohio, e Elissa Slotkin, democrata de Michigan, que proibiria veículos chineses conectados à internet no mercado americano.
Na forma atual, o projeto proibiria muitos componentes chineses para veículos elétricos, mas não incluiria as próprias baterias. Isso permitiria que a Ford mantivesse sua parceria de baterias em Michigan com a chinesa CATL. A GM criticou esse ponto e pressionou para que o projeto fosse alterado, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto.
Em uma questão fundamental — a reformulação do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA) — as montadoras estão apresentando uma posição unificada nos bastidores.
Ford e GM, juntamente com a Stellantis, dona das marcas Jeep e Ram, pressionaram o governo Trump para renovar o acordo comercial continental e estabelecer tarifas menores para carros e peças produzidos na América do Norte do que para produtos provenientes do restante do mundo, segundo pessoas familiarizadas com as negociações.
Grupos que representam a indústria automobilística também defenderam que o governo americano aumente as tarifas sobre parceiros comerciais estrangeiros — especialmente economias do Leste Asiático, como Japão e Coreia do Sul. Os veículos desses países continuam competitivos em relação a muitos modelos produzidos na América do Norte, apesar de estarem sujeitos a tarifas de 15%.
Escreva para Sharon Terlep, pelo e-mail sharon.terlep@wsj.com, e Gavin Bade, pelo e-mail gavin.bade@wsj.com.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: The Wall Street Journal
