Por que o El Niño virou o próximo risco para a economia global
O esperado retorno do padrão climático El Niño, intensificado pelas mudanças climáticas, está se desenhando como o próximo teste para uma economia global já pressionada pelos efeitos da guerra no Irã.
O El Niño ocorre a cada poucos anos, quando os ventos alísios do Pacífico tropical enfraquecem e o oceano aquece. O fenômeno normalmente dura até um ano, atingindo o pico perto do fim do ano, e tende a provocar seca e calor em grande parte da Ásia e clima úmido em várias regiões, incluindo a costa do Golfo dos EUA.
Os diversos impactos do último El Niño, entre 2022 e 2023, incluíram uma proibição das exportações de arroz pela Índia, uma epidemia de dengue, baixos níveis de água no Canal do Panamá, enchentes devastadoras no Brasil e chocolate mais caro.
Meteorologistas nos Estados Unidos e em outros países afirmam que a formação do El Niño neste ano é altamente provável. As temperaturas extremamente elevadas dos oceanos indicam que ele pode ser severo, embora ainda seja cedo para afirmar isso.
Entre os que acompanham atentamente as previsões do El Niño estão agricultores em toda a Ásia, que já enfrentam preços elevados de diesel e fertilizantes.
No setor de energia, a incerteza aumenta diante da grande incógnita sobre quando o Estreito de Ormuz será reaberto, disse Jason Ying, estrategista de commodities do BNP Paribas. Ele monitora uma possível demanda adicional por gás natural liquefeito (GNL) na Ásia para abastecer aparelhos de ar-condicionado à medida que as temperaturas sobem. Isso pode deixar a Europa com escassez nos próximos meses.
“As cargas de GNL podem ser desviadas para a Ásia em vez de abastecer os estoques de gás da Europa, o que significa que começamos o inverno em uma posição mais fraca”, afirmou.
A Índia já enfrenta uma onda de calor brutal, e a previsão aponta chuvas abaixo da média na próxima temporada de monções. Anos de El Niño costumam ser mais quentes, e o consumo de energia aumenta à medida que as pessoas usam mais ar-condicionado. A seca também reduz a geração hidrelétrica, impulsionando o uso de gás natural e carvão — algo que ocorreu na China durante o último El Niño.
Esse episódio elevou os preços do cacau após ventos secos intensos em Gana e Costa do Marfim destruírem parte das plantações, pressionando os preços do chocolate. Os contratos futuros de cacau vêm subindo e só recentemente retornaram aos níveis vistos antes do último El Niño. Analistas afirmam que outras commodities agrícolas, do açúcar à borracha natural, também podem ficar mais caras, embora algumas regiões produtoras possam se beneficiar.
Um alvo em movimento
A relação entre padrões climáticos opostos em lados diferentes do planeta foi identificada há um século pelo cientista Gilbert “Boomerang” Walker, apelido vindo de sua paixão tanto por lançar bumerangues quanto por estudar sua física.
O nome El Niño — originalmente El Niño de Navidad, ou Menino Jesus — surgiu entre pescadores peruanos, que perceberam muito antes que o período do Natal às vezes trazia calor intenso que devastava os cardumes dos quais dependiam.
Pode ser difícil separar a influência do El Niño dos eventos climáticos extremos, que parecem cada vez mais comuns. O início do fenômeno pode estar contribuindo para a atual onda de calor na Índia, mas não para a da Europa, afirmou Andrew Watkins, cientista climático da Universidade Monash, na Austrália, que anteriormente era responsável por declarar oficialmente o início do fenômeno no serviço meteorológico australiano. Seus impactos agora são ampliados porque cada episódio ocorre em um planeta mais quente.
“É um multiplicador de risco para as chances já elevadas de eventos extremos causados pela queima de combustíveis fósseis”, disse Watkins.
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Autor: Karla Mamona