Tokenização tem potencial, mas precisa se materializar para investidor, diz gestora da 21Shares
Stablecoins, criptomoedas com valor atrelado a um ativo estável, como o dólar, talvez sejam hoje o maior caso de uso real da tecnologia blockchain, a infraestrutura que registra transações de diversos ativos em uma rede digital descentralizada e segura.
Essas criptomoedas movimentam grandes volumes, e emissoras de stablecoins já estão entre as maiores compradoras privadas de títulos do Tesouro americano. Portanto, é mais fácil convencer as pessoas a investir nelas. O problema é quando a materialização da tecnologia ainda não chegou, caso da tokenização, diz Bruna Cabús, associada sênior da gestora suíça especializada em ETFs de criptoativos, a 21shares, para a Península Ibérica e América Latina.
“Há muita firma trabalhando para desenvolver a tokenização, mas quando temos casos de uso, convencemos mais facilmente o investidor. Muitas vezes, ninguém vai saber que tem tokenização por trás de alguma transação. Será como a inteligência artificial. A IA tem uma narrativa muito forte, mas o caso de uso veio quando as pessoas passaram a usar o ChatGPT no celular. Na hora em que a tecnologia se materializou, ela chegou para todos.”
Já existem algumas iniciativas relacionadas à adoção da tecnologia até mesmo no Brasil, como firmas de tokenização imobiliária, que tentam colocar ativos reais no blockchain para permitir fracionamento e novos formatos de investimento.
Na visão de Cabús, contudo, é um mercado inicial, mas que mostra o potencial dessa tecnologia. A 21Shares já lançou produtos ligados ao tema de tokenização de ativos do mundo real por meio do token ONDO, que dá exposição ao ecossistema de tokenização de títulos públicos e outros ativos monetários tradicionais na blockchain.
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No Brasil, a gestora, que tem US$ 11 bilhões sob gestão ao redor do mundo, distribui seis BDRs de fundos de índice (ETFs) ligados ao bitcoin, à solana (blockchain focada em velocidade e baixo custo), cardano (blockchain voltada para segurança e pesquisa acadêmica), XRP (criptomoeda usada pela Ripple para transferências internacionais rápidas) e uma cesta das cinco maiores criptomoedas.
Cabús se mudou para Zurique para fazer mestrado em finanças e inovação, escreveu sua tese sobre cripto em finanças tradicionais e se associou à 21Shares. Ela veio ao Brasil participar de um painel do São Paulo Innovation Week (SPIW), evento promovido pelo Estadão.
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“O Brasil já tem uma base muito grande de investidores de criptoativos, até maior do que a base de quem aplica em ações. Portanto, faz sentido oferecer instrumentos regulados e seguros para esse público acessar este mercado.”
E-Investidor – O investidor já começa a diversificar mais em criptoativos?
Bruna Cabús – Na Europa, como o mercado é mais antigo, os investidores institucionais, como grandes fundos, já buscam estratégias mais sofisticadas. Nos Estados Unidos, ainda existe muito foco em bitcoin e ethereum, mas isso está mudando com a entrada de grandes players e produtos estruturados. Aqui no Brasil eu vejo um mercado mais avançado em alguns aspectos, principalmente na demanda por produtos com staking (método de renda passiva no universo cripto) e estratégias que geram rendimento. Eles geram um rendimento adicional sobre a cripto. É quase como um rendimento sobre a posição que você tem na carteira: uma parte do ativo fica travada para validar a rede e recebe um retorno por isso. Como se fosse uma espécie de CDI da cripto.
O que tem explicado o desempenho recente do bitcoin, mais correlacionado a ativos de risco?
O bitcoin tem um comportamento muito único. No curto prazo, ele tem forte correlação com tecnologia americana, liquidez global e ambiente macroeconômico. Mas, no longo prazo, tende a se comportar mais como uma reserva de valor. Por isso ele é um ativo tão diferente. Já existem estudos mostrando que adicionar entre 1% e 2% de bitcoin a um portfólio tradicional melhora a relação risco-retorno e o índice Sharpe. O bitcoin tem um comportamento híbrido muito particular, e o argumento de diversificação da carteira entre outros ativos continua sendo muito forte.
E como vocês enxergam o amadurecimento da tecnologia?
Muita coisa acontece na infraestrutura das criptomoedas. Existem muitos casos de uso que ainda passam despercebidos. Na Suíça, por exemplo, já existem aplicações em que ativos digitais entram até em análise de crédito imobiliário. Falta educação. Mais do que vender produtos, precisamos ajudar o investidor a entender os casos de uso, funcionamento da tecnologia e como esses ativos podem complementar um portfólio tradicional.
Existem estudos mostrando que as gerações mais jovens têm muito mais interesse em ativos digitais porque cresceram em ambiente digital e entendem melhor a tecnologia. Muitos assessores e banqueiros comentam que os próprios filhos dos clientes perguntam sobre bitcoin. Então os bancos e plataformas estão tentando se aproximar desse público.
O Brasil ainda está muito atrás em ETFs, apesar do tamanho da indústria de fundos. Por quê?
Com juros altos, o investidor brasileiro continua muito concentrado em renda fixa. Além disso, existe uma questão de distribuição e incentivo. Nos Estados Unidos, gigantes como BlackRock e Vanguard ajudaram muito na educação do investidor e na popularização dos ETFs. No Brasil, esse movimento ainda está acontecendo de forma mais lenta e puxado por gestoras independentes.
Muitas vezes, o fundo tradicional ainda tem taxas mais altas e até incentivos regulatórios ou comerciais diferentes. Devemos nos questionar sobre o quanto existe de incentivo para o pequeno investidor entender os ETFs. Conforme o mercado amadurece e a competição aumenta, cresce também a pressão para que as regras fiquem mais equilibradas entre os diferentes veículos.
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Autor: Marília Almeida