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A dívida oculta que a Apple tem com a CIA e que ajudou no seu sucesso

Quando a CIA apareceu sem aviso na sede da nova firma de computadores de Steve Jobs, a NeXT, a Guerra Fria estava em pleno andamento.

O ano era 1986, e o presidente Ronald Reagan enviava bilhões de dólares ao Pentágono, grande parte para financiar novas tecnologias, incluindo sistemas de defesa antimísseis e satélites de espionagem.

Dentro da comunidade de segurança nacional, algumas pessoas compreendiam a importância da revolução da computação que estava ocorrendo no Vale do Silício — e por que precisavam ter acesso a ela.

Joe Romello e Jeff Harris eram dois desses homens. Trabalhando no que era conhecido como “Programa B” da CIA, uma iniciativa classificada para desenvolver sistemas de reconhecimento por satélite, eles acreditavam que Jobs, que havia criado sua nova firma em 1985 depois de ser afastado da Apple, poderia ajudar a fornecer tecnologia crucial para a comunidade de inteligência.

Romello e Harris disseram que queriam falar diretamente com ele sobre “questões relacionadas à defesa, especificamente inteligência”. Eles não podiam fornecer detalhes, já que as informações eram classificadas, mas queriam saber se Jobs poderia encontrar tempo para uma reunião.

Mas por que Jobs, um filho da contracultura que havia praticado budismo sob a orientação de um mestre zen e citado o uso de LSD como uma experiência marcante em sua formação, ligaria o futuro de sua firma a espiões?

A portas fechadas

Hoje, enquanto o Vale do Silício e o Pentágono retomam seus laços, com dezenas de bilhões de dólares de capital de risco sendo direcionados a centenas de novas startups de defesa, muitos líderes de tecnologia citam patriotismo e renovação nacional em sua busca por contratos militares.

No passado, porém, era o interesse mútuo que impulsionava a cooperação. Esse episódio pouco conhecido das conexões de Jobs com o aparato de espionagem americano merece ser revisitado justamente porque mostra as raízes profundas dessa relação — e o papel que ela desempenhou para permitir o surgimento do sistema operacional da Apple.

Jobs não teria ficado totalmente surpreso ao saber que a CIA queria falar com ele.

Além de fundar a NeXT, em fevereiro de 1986 ele havia adquirido a divisão de computação gráfica da Lucasfilm, de George Lucas, que produzia o Pixar Image Computer.

A participação majoritária de Jobs na firma recém-criada veio acompanhada de uma tecnologia inesperada: a Pixar trabalhava com a ESL, uma firma de defesa do Vale do Silício, e havia construído um computador sob medida para analistas de inteligência avaliarem imagens de satélite.

Quando Jobs finalmente se encontrou com Robert Kohler, presidente da ESL, os dois se deram bem, segundo Garry Fuller, que trabalhava na ESL na época e mais tarde foi para a NeXT.

Kohler, ex-alto funcionário da CIA, disse a Jobs que aquilo que o computador da NeXT havia sido projetado para fazer “para estudantes universitários, professores e pesquisadores, é exatamente o que a comunidade de inteligência faz atrás de portas fechadas”.

Romello e Harris não conseguiram se encontrar com Jobs na sede da NeXT durante aquela primeira visita. Quando Romello finalmente encontrou Jobs em Nova York, não disse exatamente o que a CIA tinha em mente.

Jobs também não queria saber. “Não me conte nada que eu não deveria saber, porque não vou me lembrar de esquecer”, disse Jobs a Romello.

Isso não era um problema para Romello, que explicou o que queria: comprar as estações de trabalho da NeXT para um cliente não identificado.

“Quantas unidades vocês estão preparados para entregar por ano?”, perguntou Romello.

“Essa é uma informação privilegiada”, respondeu Jobs.

“É mais de 20 mil? É isso que quero comprar: 20 mil unidades”, disse Romello. “E quero todas ainda este ano, mas quero duas modificações.”

A personalização que Romello tinha em mente não seria feita por Jobs ou pela NeXT. O cliente da área de inteligência queria um chip mais rápido, fornecido pela Motorola, e uma placa gráfica especial, da Intel.

“Nós nunca dissemos a ele o que realmente queríamos”, disse Romello. “Não demos a ele uma cópia do chip. As modificações foram feitas depois, por nós, por meio de nossos intermediários.”

Talvez Jobs não soubesse exatamente o que a CIA planejava fazer com seus computadores, mas acabou recebendo uma autorização de segurança de nível máximo para poder visitar instalações classificadas.

A verdade é que a NeXT precisava desesperadamente das vendas. A firma enfrentava problemas, a maioria ligados ao perfeccionismo de Jobs — que, liberado dentro de uma firma que ele agora possuía e controlava, ameaçava levar todo o negócio à ruína.

As estações de trabalho da NeXT eram caras e estavam fora do alcance monetário da maioria das pessoas. As vendas para universidades, que Jobs esperava que fossem um importante mercado, nunca atingiram grandes volumes.

Isso deixou principalmente o contrato com a CIA, cuja existência quase ninguém conhecia. Publicamente, a NeXT dizia ter um contrato com o governo federal como parte de uma parceria com a ESL.

Mesmo dentro do governo, o envolvimento da CIA era protegido: a Agência de Segurança Nacional (NSA) era a compradora oficial, segundo Dain Ehring, que trabalhou com Romello no contrato da NeXT.

‘Ninguém tinha cartões de visita’

Apenas algumas pessoas na NeXT sabiam o que estava acontecendo quando visitantes misteriosos de Washington apareciam no escritório, e esses funcionários sabiam que era melhor não fazer perguntas demais.

Dan’l Lewin, que Jobs havia recrutado da Apple para a NeXT, lembrou-se de cerca de meia dúzia de grupos diferentes aparecendo no escritório, todos parecendo “agentes à paisana comuns”.

“Eles entravam, diziam: ‘Oi, meu nome é Sally’. ‘Meu nome é Bill’. ‘Meu nome é Sanjay’, ou qualquer coisa assim”, lembrou Lewin.

“E ninguém tinha cartões de visita. Todos sorriam, nós fazíamos demonstrações e havia pessoas da ESL na sala porque a ESL iria coordenar todo o projeto. Então todos iam embora, sorriam, acenavam com a cabeça e não diziam uma palavra.”

A CIA trouxe uma equipe da Sun Microsystems, que já tinha relações com a agência de espionagem, para ajudar Jobs a ampliar a produção. No primeiro mês, foram produzidas cem estações de trabalho. Depois, a NeXT aumentou a produção para 1.500 máquinas por mês — e, posteriormente, para 5 mil.

Os computadores que saíam da linha de produção eram carregados em caminhões sem identificação, que chegavam ao depósito da NeXT nas primeiras horas da manhã, e transportados para uma firma de fachada da CIA, onde os chips modificados e os processadores gráficos eram instalados.

Depois de montadas, as unidades voltavam aos caminhões com destino à Base Aérea de Moffett Field, uma instalação militar, onde eram colocadas em enormes aviões de transporte C-5 e levadas para seus destinos finais — classificados.

Jobs ainda não sabia exatamente para onde seus computadores NeXT estavam indo, nem por quê, pelo menos segundo pessoas ligadas à área de inteligência. A verdade é que nem mesmo as pessoas responsáveis pela compra dos equipamentos — incluindo o próprio Romello — previram completamente como os computadores acabariam sendo utilizados.

Os computadores foram destinados a analistas do National Reconnaissance Office (NRO), que usavam as telas de alta resolução da NeXT e chips especializados para analisar imagens de satélite — para detectar, por exemplo, se um país havia movimentado suas forças militares ou se estava construindo um silo de mísseis.

As estações de trabalho também permitiam aos analistas criar e compartilhar apresentações, fosse para parlamentares ou para o presidente, incorporando narração em vídeo, imagens estáticas e anotações.

Igualmente importante, os NeXTcubes, como eram chamados, permitiam o compartilhamento de dados entre redes de inteligência, colocando imagens recém-coletadas nas mãos de militares em todo o mundo e permitindo que eles fizessem análises em tempo real.

A World Wide Web ainda estava em seus primórdios, mas, graças à NeXT, a comunidade de inteligência tinha, na prática, sua própria internet funcional. “Nós não usávamos a palavra internet naquela época, mas chamávamos simplesmente de ‘rede de longa distância’, ou algo parecido”, disse Romello.

À medida que mais integrantes das Forças Armadas começaram a ver as imagens por conta própria, eles deixaram de depender exclusivamente das análises produzidas pelas agências de inteligência.

A NeXT colocou informações brutas de inteligência nas mãos de comandantes em bases militares espalhadas pelo mundo — imagens que eles podiam interpretar “com os próprios olhos, em tempo quase real”, disse Romello.

O efeito foi desafiar a cultura de inteligência centralizada que a CIA mantinha havia muito tempo. Segundo Romello, essa foi “a maior consequência não intencional” dos novos computadores.

A NeXT foi integrada às agências de espionagem justamente quando a missão delas estava prestes a mudar.

A União Soviética entrou em colapso em 1991, e os Estados Unidos passaram de uma das duas superpotências para a única potência hegemônica dominante em um mundo de novas ameaças: Estados considerados hostis, a ascensão da China e o terrorismo.

Jobs, porém, não estava destinado a desempenhar um papel por muito tempo nessa nova era; ele tinha os olhos voltados para algo além do Pentágono e da CIA.

Harris, que havia acompanhado Romello à sede da NeXT, recordou uma reunião com Jobs em meados dos anos 1990, quando o empresário lhe disse: “Vou redefinir a indústria da música”.

Harris, que naquele momento era chefe do NRO, não fazia ideia do que Jobs estava falando, mas acabou entendendo.

Em 1996, a Apple anunciou que compraria a NeXT, e Jobs retornou à firma que havia cofundado. Alguns anos depois, Jobs recuperou o controle de toda a companhia, colocando-a em uma trajetória para se tornar a marca mais valiosa do mundo — e, como havia prometido, redefinindo a indústria da música com o surgimento do iPod e do iTunes.

Embora a presença da NeXT na cultura popular tenha sido ofuscada pela Apple, o DNA de seu sistema operacional, o NEXTSTEP, tornou-se a base dos produtos da Apple, dos Macs aos iPhones.

A Apple nunca se tornou uma grande fornecedora para o setor militar como a NeXT havia sido. Depois do fim da Guerra Fria, os gastos com defesa despencaram, caindo quase 30% até o fim dos anos 1990, justamente quando o mercado comercial de computadores pessoais estava explodindo.

Quando os interesses do Vale do Silício divergiram dos interesses dos setores militar e de inteligência, a conexão enfraqueceu. Agora, enquanto o Pentágono pretende gastar mais de US$ 1,5 trilhão no próximo ano e investe em novas tecnologias, como inteligência artificial, o Vale do Silício está retomando essa relação.

O impacto mais duradouro da breve convergência de Jobs com a segurança nacional é simplesmente o fato de ela ter permitido que o empreendedor mais icônico do Vale do Silício encontrasse seu caminho de volta à Apple.

O trabalho com as agências de espionagem deu a Jobs “mais cinco anos para consolidar e expandir o negócio; para provar aos acionistas e ao mercado que era um líder firmarial legítimo, e não apenas um garoto que teve sorte e sabia vender”, disse Ehring, que deixou o setor de inteligência em 1990 para trabalhar com Jobs na NeXT.

“Então, sem o NRO ter possibilitado o amadurecimento de Steve, ele não teria retornado para comandar a Apple como um CEO responsável por sua recuperação.”

Trecho extraído e adaptado de Valley of Death: How Big Tech Is Fueling the Future of War, de Sharon Weinberger. Copyright © 2026 Sharon Weinberger. Reproduzido com autorização da Little, Brown and Company, uma editora do Hachette Book Group. Todos os direitos reservados.

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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original

Autor: The Wall Street Journal

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