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CVC corre contra o tempo para transformar a recuperação dos negócios em caixa para as dívidas

A CVC vai ter que convencer mais gente a viajar – e transformar essas vendas em dinheiro em caixa – se quiser terminar o ano com mais folga financeira.

Maior firma de viagens do país, a CVC tem em outubro o vencimento de R$ 80 milhões de uma de suas emissões de debêntures, depois de o caixa ter encolhido ao longo da primeira metade de 2026 em um cenário de vendas bem mais adverso do que planejava no começo do ano.

A guerra no Oriente Médio elevou o preço do combustível e pressionou as passagens aéreas. O consumidor brasileiro chegou mais endividado ao segundo semestre. E concorrentes vêm disputando clientes de forma mais agressiva, inclusive aceitando margens menores para ganhar mercado.

No segundo trimestre, as reservas consolidadas da CVC praticamente não saíram do lugar, com alta de apenas 0,2%.

No Brasil, as reservas cresceram 4,1%, mas a receita líquida caiu 4,2% (nem toda venda gera receita na hora). O prejuízo líquido ajustado mais que triplicou, de R$ 15,9 milhões para R$ 51,3 milhões.

A geração de caixa operacional foi de R$ 60,2 milhões. É uma melhora expressiva diante do consumo de caixa de R$ 121 milhões do primeiro trimestre, mas representa menos da metade dos R$ 131 milhões gerados no segundo trimestre de 2025.

No primeiro semestre, a CVC consumiu R$ 61,4 milhões em caixa, contra geração de R$ 77,8 milhões um ano antes.

Como resultado da equação, o caixa caiu de R$ 254,6 milhões em março para R$ 185,6 milhões em junho.

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Foi nesse ambiente que a firma recorreu mais à antecipação de recebíveis — operação na qual transforma hoje em dinheiro vendas feitas no cartão com recursos que receberia nos meses seguintes.

O saldo antecipado chegou a R$ 1,36 bilhão em junho, ante R$ 1,17 bilhão no fim de 2025. A própria CVC reconhece que houve “maior utilização da linha” para financiar o capital de giro.

O movimento tem acendido uma luz amarela no mercado.

Enquanto o saldo antecipado cresceu, o estoque de recebíveis ainda disponível para esse tipo de operação caiu de R$ 466,6 milhões em junho de 2025 para R$ 236,8 milhões um ano depois.

Para uma pessoa familiarizada com as finanças da companhia, a redução das debêntures não representa uma desalavancagem completa: parte dessa dívida foi substituída pela antecipação de recebíveis.

O custo dessa estrutura já aparece no resultado. Os juros sobre antecipação de recebíveis chegaram a R$ 49,7 milhões no trimestre, alta de 30,8% em relação ao mesmo período do ano passado. Foram uma das principais razões para a piora do resultado monetário.

Nas contas dessa fonte, sem uma renegociação da dívida ou melhora relevante na geração de caixa, a liquidez da CVC começaria a ficar pressionada a partir do quarto trimestre. “Vai ser a Casas Bahia do turismo”, diz.

Na última segunda-feira (17), a Casas Bahia pediu recuperação judicial, dando sequência a uma lista de firmas voltadas ao consumo que enfrentam dificuldade para carregar estruturas financeiras mais pesadas: o gasto com dívidas pesa mais do que o dinheiro gerado com a operação.

CVC: ‘temos caixa suficiente’

A CVC afirma não precisar de mecanismos de proteção contra credores. Segundo o CFO Felipe Gomes, até os cenários de estresse projetados pela companhia indicam caixa suficiente para atravessar 2026 e o início de 2027, sem necessidade de uma nova captação.

A administração da companhia também argumenta que a antecipação de recebíveis é mais barata do que as debêntures.

Em 2023, antes da volta da família de Gustavo Paulus, fundador da firma, à base acionária, a CVC já havia renegociado seus compromissos com debenturistas. Houve nova negociação em 2024. No ano passado, a firma antecipou o pagamento de cerca de R$ 150 milhões em dívidas para reduzir o custo monetário.

Mas, embora não descarte uma medida de proteção contra credores, a CVC voltou a conversar com eles sobre o alongamento do passivo e a redução dos juros pagos.

Desde julho, a CVC reduziu de 12 para dez vezes o parcelamento sem juros nas lojas, numa tentativa de receber mais rápido e depender menos da antecipação. Segundo a firma, a mudança não afetou as vendas no primeiro mês.

Mais volume, menos margem

O desafio é que vender mais ficou mais difícil. Em julho, 82% dos consumidores brasileiros disseram ter alguma dívida a vencer, maior proporção desde o início da série histórica da CNC (Confederação Nacional do Comércio).

E, para piorar, nem todo crescimento deixa a mesma quantidade de dinheiro dentro da CVC.

Cruzeiros são um exemplo dessa equação. A CVC diz crescer perto de 30% na categoria, beneficiada pelo aumento da oferta de navios no Brasil. O produto ajuda o capital de giro, mas tem take rate (comissão) menor, porque a companhia atua principalmente como intermediária.

O take rate consolidado (a fatia do valor vendido que efetivamente vira receita para a CVC) caiu de 8,9% para 8,2% no segundo trimestre. Na venda ao cliente final, essa medida recuou de 13,8% para 11,8%.

Parte disso decorre do mix: B2B (vendas para agências e parceiros comerciais) e cruzeiros cresceram mais. Mas a companhia também reconhece maior pressão por preços.

Fábio Mader, CEO da CVC: desafio monetário pela frente (Divulgação)

Fábio Mader, que assumiu como CEO no começo de 2026, foi claro na teleconferência ao dizer que, pelo menos neste ano, o investidor deve considerar o nível atual como um “novo patamar” de take rate.

Com menos receita por real vendido, a CVC tenta compensar essa frente principalmente com corte de despesas.

No Brasil, as despesas gerais e administrativas caíram 10,1% no trimestre.

O efeito da concorrência

A competição ajuda a explicar por que recuperar margem por meio da receita ficou mais difícil.

A Decolar, adquirida pela holding global de tecnologia Prosus há pouco mais de um ano, aumenta essa pressão: a firma cresce cerca de 30% no consolidado e 40% no Brasil, acima do ritmo próximo a 10% antes da aquisição.

Mais de 20% da receita líquida já estaria ligada ao cross-sell com o iFood, que passou a oferecer pacotes de viagem em sua plataforma. Fontes de mercado afirmam, porém, que parte da aceleração vem sendo financiada por preços mais agressivos e redução de margem.

A Prosus chegou a ser apontada como interessada nos negócios argentinos da CVC. Mader, por sua vez, afirmou que não recebeu nenhuma oferta pela operação.

Atendimento humano vs digital

A disputa ocorre num mercado em que o comportamento do consumidor mudou. Comprar passagem, reservar hotel ou escolher passeios deixou de depender de uma agência física. Plataformas permitem montar praticamente toda uma viagem sem falar com ninguém.

A CVC aposta que ainda existe valor justamente no atendimento que esse modelo eliminou.

A firma mantém mais de 1.600 lojas no Brasil e na Argentina e quase 6 mil vendedores, mas tenta transformar essa rede numa extensão do ambiente digital.

No segundo trimestre, 55% das vendas das lojas tiveram origem em contatos (leads) gerados online: ou seja, o cliente entrou por redes sociais ou outros canais digitais e concluiu a compra remotamente com um vendedor.

A CVC também colocou em operação um agente de inteligência artificial que atende principalmente quando as lojas estão fechadas. Em outubro, a companhia pretende lançar um novo site e aplicativo.

Essa mudança de estratégia acontece sob novo comando.

Mader assumiu a presidência em janeiro, depois que o conselho antecipou a saída de Fábio Godinho, CEO desde 2023 e que, até então, era considerado um nome de confiança da família fundadora da CVC.

Executivo de carreira na companhia, Mader soma quase 15 anos em diferentes passagens. A troca de comando foi mais um capítulo de uma reorganização que já vinha mexendo com finanças e governança.

A família Paulus havia recuperado espaço na base acionária e ampliado sua influência neste ano ao firmar um acordo de acionistas com a Apex Partners.

Mais recentemente, a crise da gestora capixaba, que pediu proteção contra credores, adicionou uma nova preocupação à firma justamente quando a CVC tentava estabilizar suas próprias contas.

A Apex passou a vender ações da companhia em meio às investigações sobre suas finanças. A CVC afirma que não possui qualquer relação operacional ou financeira com a gestora e que a exposição se limita à participação societária.

A ação da CVC acumula queda de 31% no ano e era negociada a R$ 1,52.

A administração tenta convencer o mercado de que o pior momento operacional ficou para trás. Julho foi, segundo Mader, o melhor mês de vendas dos últimos dois anos, excluídas as Black Fridays.

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Autor: Raquel Brandão

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