El Niño ameaça agravar crise dos produtores de arroz no Rio Grande do Sul
A aproximação do El Niño ameaça aprofundar uma crise financeira entre produtores de arroz no sul do Brasil, onde anos de eventos climáticos extremos já elevaram os custos e obrigaram a principal região produtora do país a reduzir os planos de plantio futuro.
O Rio Grande do Sul, responsável por cerca de 70% da produção nacional de arroz, conclui a colheita com produção total prevista para recuar 10,4%, para perto de 7,8 milhões de toneladas, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Otavio Sousa, no extremo sul do estado, encerrou o ciclo atual sem perspectiva de melhora no curto prazo. “Estou tentando, mas não tem coisa que a gente faça que pague”, disse o produtor e agrônomo de 60 anos. “Este ano, com certeza vamos marcar prejuízo com o preço que nós estamos vendendo hoje.”
O surgimento de um padrão climático El Niño ocorre depois de produtores brasileiros já terem sofrido neste ano, depois que guerra no Irã elevou os preços dos fertilizantes e os custos com combustíveis. Isso se soma a uma série de outros problemas que vêm pressionando os agricultores — incluindo outros eventos climáticos severos.
Evandro Oliveira, analista da Safras & Mercados, disse que a pandemia, o histórico de estiagem e, em seguida, a sequência de chuvas intensas ajudaram a desequilibrar as finanças do produtor. Para ele, a relação entre “custo, preço e produtividade” saiu do eixo, com perdas de rendimento, despesas mais altas e preços de comercialização estagnados.
“O El Niño é o pior cenário possível para o arroz”, disse Oliveira. “Mas agora resta saber qual a intensidade. Se for um El Niño forte, o cenário para o arroz vai ser bastante complexo.” Caso os padrões climáticos do passado se repitam, acrescentou, a produção nacional pode ficar abaixo dos níveis de consumo.
El Niño
O El Niño, confirmado por cientistas no início deste mês, altera padrões climáticos globais, e o atual pode estar entre os mais fortes já registrados. Um relatório de junho do Itaú BBA indicou que chuvas acima da média podem atrasar o plantio de arroz, que começa em setembro, enquanto a falta de sol provocada pelo tempo nublado também pode limitar a produtividade.
O clima tem sido uma ameaça recorrente para produtores no Rio Grande do Sul. A região enfrentou seca em 2022, enchentes em 2023, chuvas devastadoras entre abril e maio de 2024 e uma nova rodada de precipitações intensas em maio de 2025, que atingiu regiões tradicionais do cultivo de arroz, como Santa Vitória do Palmar e Alegrete.
“A gente perdeu muita coisa”, recordou Otavio, incluindo cerca de metade do arroz plantado durante o episódio mais crítico de chuvas fortes.
Qualquer nova safra desenvolvida sob influência do El Niño volta a acender o alerta, e a principal preocupação para o arroz é o risco de alagamentos, segundo Ludmila Camparotto, agrometeorologista da Rural Clima. “Nós tivemos no último ano enchentes no Rio Grande do Sul, que trouxe perdas principalmente para a parte civil, mas, claro, também para o agro”, disse ela.
Em Alegrete — município de cerca de 72,4 mil habitantes e reconhecido como “capital gaúcha” culturalmente —, as chuvas de maio de 2025 forçaram moradores a deixar suas casas. Produtores locais que perderam lavouras em anos anteriores foram atingidos novamente e ainda não se recuperaram plenamente, com o impacto da guerra no Irã acrescentando mais pressão.
O produtor rural de Alegrete Lucas Di Napoli disse que o custo “ficou fora da realidade” para agricultores que precisam equilibrar despesas enquanto os preços dos grãos caem. “Não tem conta que feche”, acrescentou.
Mesmo sem outro choque climático, o setor entra enfraquecido no próximo ciclo. Sousa já havia reduzido a área de arroz em cerca de 15% em 2023, mas disse que um corte de 20% teria sido o ideal. Apesar do aumento da produção na safra atual, ele provavelmente reduzirá ainda mais a área plantada.
“É muita preocupação no futuro, porque a gente já perdeu na enchente”, disse Sousa.
O aperto já redesenha o mercado de arrendamento rural no Rio Grande do Sul. Alessandro Acosta, sócio-fundador da Safras & Cifras, disse que produtores começaram a encerrar contratos ou a renegociar valores menores quando os arrendamentos chegam ao vencimento.
“Esse é o momento de ficar só com os ótimos, porque os bons estão ruins, tamanha a situação”, recorda Acosta, citando o que ouviu de um cliente.
Com a aproximação da próxima temporada de plantio, produtores seguem presos entre mercados voláteis e um clima imprevisível.
“Ainda tem muitas variáveis a serem pensadas. Por isso que o produtor está se sentindo numa sinuca de bico”, disse Oliveira.
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Autor: Karla Mamona