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Ibovespa sobe 12% desde a mínima de agosto: até que ponto deve se estender o rali?

Depois da montanha-russa de agosto, que levou o Ibovespa aos 166.334 pontos em 18 de agosto, no menor fechamento desde janeiro, a bolsa brasileira vive um movimento de recuperação. Desde então, o índice registrou alta em 12 dos 15 pregões seguintes e acumula valorização de 12%, mesmo com o recuo desta quarta-feira (9).

Para você, investidor, é importante entender o que está por trás do movimento para saber o quanto ele pode se estender.

A recuperação da bolsa até aqui combinou quatro fatores: o chamado “trade eleitoral”, alimentado por pesquisas que indicam uma disputa presidencial mais acirrada no segundo turno – e a ascensão de Flávio Bolsonaro; o alívio nos juros de longo prazo; o retorno do investidor estrangeiro; e a valorização das commodities, que impulsiona ações de peso relevante no índice.

Esses pilares continuam presentes em setembro. Mas as oscilações deste início de mês reforçam um componente que deve acompanhar o mercado até as eleições de outubro: a volatilidade.

O ambiente ainda exige cautela. A percepção do mercado sobre a corrida presidencial e, principalmente, sobre seus possíveis efeitos na condução da política fiscal tende a provocar movimentos bruscos nos preços. Somam-se a isso um cenário macroeconômico mais desafiador e as incertezas externas sobre a trajetória dos juros americanos.

Ainda assim, analistas da XP Investimentos, do BTG Pactual e da Eleven Financial avaliam que, de modo geral, as ações brasileiras continuam negociadas a preços descontados em relação aos fundamentos, o que abre espaço para novas altas.

A continuidade do rali dependerá principalmente dos sinais emitidos pelos candidatos que lideram nas intenções de voto, Lula e Flávio, sobre as contas públicas: uma perspectiva mais concreta de contenção de gastos tende a reduzir a percepção de risco, favorecer a queda dos juros de longo prazo e beneficiar ativos de risco, como as ações.

Uma deterioração fiscal, por outro lado, pode pressionar novamente os ativos brasileiros.

A seguir, listamos o que deve mover os mercados nos próximos meses:

‘Trade eleitoral’ ganha tração

O principal gatilho doméstico para a recuperação das últimas semanas veio das pesquisas eleitorais. Os levantamentos têm levado os investidores a recalcular as chances dos diferentes candidatos e o que cada resultado poderia significar para a condução da economia a partir de 2027.

Na terça-feira, as pesquisas Quaest e BTG/Nexus reforçaram a percepção de uma disputa apertada. Na Quaest, Lula e Flávio Bolsonaro apareceram com 41% cada em uma simulação de segundo turno. No levantamento BTG/Nexus, Flávio teve 46%, ante 45% de Lula, também em empate dentro da margem de erro.

“O principal vetor doméstico foram as pesquisas, que mostraram empate numérico entre os candidatos mais competitivos em uma simulação de segundo turno”, afirmou Fábio Murad, consultor da Wiser Asset.

“Os resultados aumentaram a percepção de uma eleição aberta e levaram os investidores a revisarem as probabilidades atribuídas aos diferentes cenários econômicos para 2027.”

Essa revisão aparece simultaneamente na Bolsa, no dólar e nos juros futuros. Os três mercados oscilam conforme a interpretação dos investidores sobre o que cada candidato pode representar para gastos públicos, tributação, dívida e taxa de juros.

“Não se trata de uma avaliação definitiva sobre o resultado eleitoral, mas de uma mudança nas probabilidades negociadas pelo mercado”, diz Murad.

Para Pedro Galdi, analista da AGF, a influência das pesquisas sobre os preços deve continuar até a eleição. “Em anos de eleição para presidente, esse comportamento se repete. As ações de estatais acabam sendo o olho do furacão, mas as de outros segmentos da economia também reagem de forma representativa”, afirma.

Estrangeiros voltam às compras

O investidor estrangeiro também voltou a dar sustentação ao Ibovespa depois de uma saída intensa de recursos no mês anterior.

Depois de retirar R$ 23,2 bilhões da B3 até 20 de agosto, o estrangeiro retornou à ponta compradora, a tal ponto que a saída líquida de agosto diminuiu para R$ 18,1 bilhões.

Desde 21 de agosto, portanto, o saldo acumulado passou a ser positivo em cerca de R$ 10,4 bilhões, considerando os dados mais recentes disponíveis. No acumulado de 2026, os estrangeiros ainda mantêm uma entrada líquida de R$ 28,3 bilhões.

O fluxo externo é relevante porque aumenta a demanda pelas ações de maior peso nos índices e contribui para a valorização do real.

Contudo, não é possível afirmar que a mudança será duradoura. O fluxo pode voltar a se inverter diante de novas pesquisas, da piora das expectativas fiscais ou de uma redução do apetite internacional por países emergentes.

Bolsa segue atrativa

Os preços também ajudam a explicar por que o movimento pode não ter se esgotado.

Segundo analistas do BTG Pactual, o Ibovespa negocia a cerca de 8,2 vezes o lucro esperado para os próximos 12 meses (Petrobras e Vale incluídas). Sem as duas gigantes, o múltiplo está em 9,7 vezes, abaixo de sua média histórica, o que sinaliza o potencial de ganhos.

Para o banco, os valuations continuam atrativos, sobretudo em um cenário no qual os juros reais de longo prazo comecem a recuar.

Juros menores tornam a renda variável mais atrativa: por exemplo, reduzem a vantagem relativa da renda fixa, que atualmente oferece retornos elevados com menor risco.

Até onde pode ir o rali?

Para o time da XP, o Ibovespa pode chegar aos 200 mil pontos até o fim de 2026, o que representa um potencial de valorização de cerca de 8% frente ao patamar atual. O motivo está justamente nos preços, que os analistas da corretora veem como abaixo da média histórica.

Do lado do risco, eles apontam possibilidade de as estimativas de lucro das firmas para 2027 sofrerem uma revisão para baixo, o que poderia impactar negativamente os preços.

Por isso, mesmo com certo espaço para alta, a XP segue com uma estratégia defensiva para ações, priorizando firmas de qualidade.

No mesmo sentido, a Eleven Financial, que mantém projeção para o Ibovespa em 195 mil até o fim do ano (um potencial de alta de 5%), vê uma boa relação de risco-retorno em ações de firmas maiores, que dependem menos do ciclo econômico. Ainda assim, reforça que o ambiente até as eleições deve apresentar fortes oscilações.

Para 2027, a Eleven aponta que o Ibovespa alcançar 230 mil pontos, desde que os juros continuem caindo e os lucros das firmas mantenham o crescimento. Esse cenário depende de um ajuste nas contas públicas, que exigiria apoio tanto do próximo presidente quanto do Congresso.

A expectativa de queda mais intensa dos juros também levou o Bank of America a melhorar sua avaliação sobre a Bolsa brasileira ontem.

O banco elevou sua recomendação para as ações brasileiras de equivalente a neutra para exposição acima da média. O BofA mantinha postura neutra em relação ao Brasil desde junho.

O argumento para a revisão está nos juros. O BofA agora projeta que a Selic termine 2027 em 11,25% ao ano, versus 12,75% anteriormente. E, mais importante, bem abaixo dos cerca de 14% que, segundo o próprio banco, ainda estão embutidos nos preços de mercado.

Na avaliação dos analistas, um ciclo mais profundo de cortes dos juros pode elevar os preços das ações, mesmo diante do risco de revisões para baixo nos lucros e da incerteza eleitoral.

O que pode interromper o rali?

A recuperação recente reúne fatores que se reforçam: o estrangeiro voltou às compras, a eleição passou a ser precificada como uma disputa mais aberta, os preços dos ativos ainda estão atrativos e a alta do petróleo favoreceu a Petrobras, uma das firmas com maior peso na Bolsa.

Parte desses vetores, porém, pode mudar rapidamente.

Novas pesquisas podem alterar as probabilidades eleitorais negociadas pelo mercado. Uma piora das expectativas fiscais pode voltar a pressionar os juros.

O cenário externo também exige atenção. A recente nova alta do petróleo, por exemplo, que beneficia a Petrobras no curto prazo, pode elevar a inflação mundial, manter os juros americanos altos por mais tempo e reduzir a procura por investimentos em países emergentes. Foi o que ocorreu hoje, depois de o petróleo superar o patamar psicológico dos US$ 100 o barril e elevar preocupações sobre uma alta de juros nos EUA.

O encarecimento da commodity pressionou as bolsas americanas e levou os juros dos títulos de 10 anos do país a atingirem o maior patamar em quase três anos. Na esteira, o Ibovespa caiu 0,9%, devolvendo os ganhos de ontem e retornando aos 185.629 pontos.

Há espaço para o Ibovespa avançar nos próximos meses, mas o caminho dificilmente será linear.

“Iremos caminhar ao sabor das notícias relacionadas ao momento da disputa”, afirma Galdi.

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Autor: Paula Barra

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