Milionários da IA têm mais dinheiro do que imaginavam — e nenhuma ideia de como gastá-lo
Há mais dinheiro circulando na região da Baía de São Francisco, na Califórnia (EUA), do que as pessoas já viram. O problema é que quem está ganhando esse dinheiro nem sempre sabe como gastá-lo.
Funcionários de firmas de inteligência artificial estão tão ocupados e tão pouco interessados nos sinais tradicionais de riqueza que muitos ainda não conseguiram aproveitar plenamente os frutos do próprio trabalho.
Eles podem, por exemplo, reservar uma viagem de bicicleta personalizada pela Itália, se conseguirem tirar alguns dias de folga. Uma sauna de luxo e uma piscina de água fria no quintal podem fazer sentido para relaxar. Mas gastar uma fortuna em uma cozinha que não será usada está fora de cogitação. E milhões de dólares podem ser destinados a uma casa nova, é claro, como mostra o mercado imobiliário de San Francisco. Investir em obras de arte para decorar as paredes, porém, não está entre as prioridades desse grupo.
“Eles não são espalhafatosos”, diz Garret Spiecker, diretor-gerente sênior do Citizens Private Bank, que administra o programa de empréstimos garantidos por ações de firmas privadas em estágio avançado e pré-IPO. Entre seus clientes estão funcionários da OpenAI e da Anthropic. Segundo ele, em 20 anos trabalhando na região da Baía de São Francisco, nunca viu tanta liquidez.
“Esse grupo de pessoas também é um pouco diferente.”
Além da aversão geral ao luxo ostensivo, Spiecker afirma que seus clientes simplesmente não têm tempo.
“Eles ainda não tiveram tempo de parar e pensar: ‘Agora posso pagar para viajar de avião particular. Posso comprar o carro que sempre quis, posso encomendar aquele relógio de luxo’”, diz.
Além dos funcionários dos grandes laboratórios de IA, há aqueles que trabalham em firmas como Databricks e Stripe e que participam de ofertas de recompra de ações.
Grande parte do dinheiro tem sido gasta em duas áreas: imóveis e investimentos em startups. Alguns poderiam ter reservado US$ 4 milhões para comprar uma casa, por exemplo, mas esse orçamento saltou para US$ 6 milhões ou US$ 7 milhões quando tiveram a oportunidade de vender suas ações.
“As coisas explodiram em termos do que seria o próximo passo para essas pessoas”, afirma Spiecker.
Cerca de 30% das compras de imóveis na região metropolitana de San Francisco foram feitas à vista entre abril e junho, segundo a Redfin, corretora imobiliária digital.
Os salários-base de engenheiros de software mais experientes em firmas de IA normalmente superam US$ 300 mil, e os pacotes de remuneração em ações podem levar os ganhos anuais para a casa das dezenas de milhões de dólares, de acordo com uma análise da Levels.fyi, plataforma de salários.
Mas foram os eventos de liquidez que ampliaram o poder de compra. Em outubro, mais de 600 funcionários atuais e antigos da OpenAI puderam vender suas ações por um total de US$ 6,6 bilhões. Cerca de 75 deles levaram para casa US$ 30 milhões cada.
Um ex-funcionário da OpenAI que vendeu ações afirma que sua compra mais cara foi um carro elétrico novo. Quando o assunto são gastos extravagantes entre outros ex-funcionários da firma, o item mais citado costuma ser uma máquina de espresso, diz ele.
Uma funcionária de um dos principais laboratórios de IA tem renda anual total, incluindo investimentos externos, de cerca de US$ 1 milhão. Mesmo assim, ela continua fazendo as próprias unhas. Sua maior compra foi de vários chips de computador personalizados e placas de desenvolvimento, que custaram cerca de US$ 10 mil. Ela afirma que não tem uma vida separada do trabalho na qual possa gastar dinheiro.
A firma de Oregon de Daniel Kavanagh constrói e instala saunas e piscinas de água fria personalizadas. Cerca de metade de seus clientes está na região da Baía de São Francisco, e muitos trabalham no setor de tecnologia. Às vezes, eles exigem que Kavanagh assine um acordo de confidencialidade.
” ‘Procurar um espaço para se desligar’ é definitivamente algo que ouvimos”, diz ele. “O tempo se tornou o luxo dos profissionais de alto desempenho.”
Os clientes querem poder ligar a sauna remotamente para que ela esteja pronta quando chegarem em casa. As saunas construídas pela firma, Rogue Sauna, custam entre US$ 40 mil e US$ 80 mil. Uma piscina de água fria custa de US$ 10 mil a US$ 20 mil.
“Celulares não funcionam dentro de uma sauna”, diz ele. “A ironia da riqueza criada pela tecnologia é esse desejo por menos tecnologia.”
Laura Smith Sweeney, que administra a LSS Art Advisory, afirma ter clientes de firmas tradicionais de tecnologia interessados em comprar obras de arte. O boom imobiliário é uma ótima oportunidade para vendas. Ela, porém, ainda não recebeu contato da nova geração de milionários da IA.
“É um pouco cedo”, diz.
Um engenheiro que foi um dos primeiros funcionários da OpenAI afirma ter comprado uma casa em San Francisco por mais de US$ 4 milhões, pagando tudo à vista, pouco antes da disparada das compras. Ele começou recentemente a se interessar pelo mercado de arte e comprou um vaso antigo por US$ 35 mil. Também fez uma doação para a orquestra de uma escola de ensino fundamental II e pagou pela substituição das portas de uma igreja.
Jared Silver é presidente da Stephen Silver Fine Jewelry, firma que está presente no Vale do Silício há décadas. Segundo ele, funcionários de firmas de tecnologia e investidores de capital de risco continuam gastando bastante.
Fabricantes independentes de relógios, como a Krayon, têm listas de espera de quase um ano. Um dos itens mais disputados é um relógio que muda o mostrador de acordo com os horários locais do nascer e do pôr do sol. O preço? Cerca de US$ 170 mil ou mais.
Um cliente, funcionário antigo do Google que depois foi para a DeepMind, costumava passar na loja uma ou duas vezes por mês para tomar um café e dar uma olhada.
“Depois que ele fez a mudança, não o vi muito mais”, diz Silver. “Ele não tem tempo para vir à loja porque está muito ocupado com essa corrida pela IA.”
Escreva para Katherine Bindley em katie.bindley@wsj.com.
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Esta notícia foi originalmente publicada em:
Fonte original
Autor: The Wall Street Journal