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Outsider dos trilhos: como a família Constantino entrou na disputa pelo transporte em trens e metrôs

A estreia do Grupo Comporte em uma das maiores concessões de trens metropolitanos do país começou com um solavanco.

Por meio da subsidiária Trivia Trens, a companhia assumiu em julho a operação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, em São Paulo. Juntas, elas transportam 800 mil passageiros por dia.

Depois de três dias consecutivos de falhas e interrupções na operação, porém, o governo paulista determinou que a CPTM, estatal que operava as linhas antes da concessão, retomasse o serviço por 90 dias. Pelas próximas seis semanas, a Trivia segue em uma nova etapa de treinamentos e transição para reassumir as linhas.

Trata-se do maior teste, até agora, de uma estratégia que o Grupo Comporte vem construindo ao longo dos últimos anos: fazer dos trilhos uma nova frente de expansão e se consolidar entre os grandes operadores privados de ferrovias do país.

A holding pertence à família Constantino, que construiu sua fortuna – e sua fama – no transporte rodoviário de passageiros e, décadas depois, fundou a Gol.

Os ônibus continuaram no centro dos negócios do Comporte, hoje dono de firmas como Expresso União, Viação Piracicabana e Viação Penha.

Desde o início desta década, a firma também passou a disputar espaço em concessões de metrôs e trens urbanos, em meio a uma nova rodada de projetos oferecidos à iniciativa privada.

Um outsider

É custoso construir e operar uma linha de metrô. Antes mesmo de o primeiro trem circular, um projeto exige bilhões de reais em desapropriações, obras e compra dos trens – além de financiamento para bancar esses anos de investimento antes da operação.

Por essas razões, é um mercado de poucos competidores. E que, via de regra, atrai firmas vindas da construção pesada – setor acostumado a projetos de grande porte e contratos de longo prazo. 

“Os grandes operadores, normalmente, são ex-empreiteiros que vão para a operação”, diz Frederico Turolla, sócio da consultoria Pezco, especializada em infraestrutura e regulação. 

É o caso da Motiva, ex-CCR, a maior operadora privada de trens e metrôs urbanos do país. Embora tenha hoje capital aberto e uma composição acionária mais diversa, a companhia nasceu da união das concessões rodoviárias de grupos como Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Odebrecht.

A Acciona, espanhola que está construindo e opera em fase preliminar a Linha 6-Laranja em São Paulo, tem origem semelhante: nasceu da fusão de duas construtoras e hoje atua globalmente em grandes projetos de infraestrutura. 

Antes delas, outras grandes empreiteiras também ocuparam esse espaço. A Odebrecht controlou a SuperVia, no Rio de Janeiro, entre 2010 e 2019. A OAS foi uma das fundadoras da Invepar, que assumiu o MetrôRio em 2009. Hoje, nenhuma das duas permanece nessas operações.

Atualmente, Motiva, Acciona e Comporte dominam a disputa pelas concessões. Entre elas, o Comporte é o único que não nasceu da construção pesada.

“O Comporte é um player menos natural desse mercado. É um grupo que nasceu em outro contexto, da mobilidade de longa distância”, diz Turolla. 

Ônibus, aviões e trens

Nenê Constantino começou no transporte de cargas. Em 1949, aos 18 anos, comprou um caminhão e passou a fazer fretes em Patrocínio (MG). Depois, começou a transportar passageiros e, em 1957, criou a Expresso União, sua primeira viação.

Nas décadas seguintes, o negócio cresceu via aquisições. Hoje, reúne algumas dezenas de firmas e uma frota de mais de 7 mil ônibus. Veja abaixo: 

Nenê teve sete filhos e, em meados dos anos 1990, dividiu parte de seus negócios entre eles. Quatro deles – Constantino Júnior, Henrique, Joaquim e Ricardo – ficaram com as firmas de transporte que mais tarde seriam reunidas sob o Grupo Comporte.

Foi também essa geração a responsável por criar a Gol, em 2001 – estreia da família na aviação. Hoje, a companhia é controlada pelo Abra Group, fundado em 2022 para reunir a Gol e a Avianca sob uma mesma holding. Os Constantino seguem como acionistas do grupo.

Já a aposta nos trilhos viria bem mais tarde. 

Em 2020, Henrique Constantino, presidente do conselho do Grupo Comporte, disse à Folha de S.Paulo que o grupo tinha como estratégia aumentar a presença no segmento ferroviário. Na época, o grupo já operava o VLT da Baixada Santista.

Constantino de Oliveira, o Nenê Constantino, fundador do Grupo Comporte. (Fonte: arquivo Expresso União)

A primeira tentativa de salto maior não vingou. Em 2021, um consórcio liderado pelo Comporte disputou as linhas 8 e 9 de São Paulo, mas perdeu o leilão para a Motiva (na época ainda CCR). 

O grupo continuou à procura de ativos: venceu o leilão do Metrô de Belo Horizonte em 2022 e assumiu a operação no ano seguinte. Em 2024, venceu, ao lado da chinesa CRRC, a concessão do Trem Intercidades São Paulo-Campinas, que inclui também a Linha 7-Rubi. 

Quatro anos depois do primeiro embate, Comporte e Motiva voltaram a se enfrentar em um leilão. Em 2025, o resultado se inverteu: o Comporte venceu a disputa pelas linhas 11, 12 e 13 da CPTM, por meio da subsidiária Trivia Trens.

O novo cenário das concessões 

A ascensão do Comporte nos trilhos acontece em um momento em que o próprio modelo de concessão de trens e metrôs passa por uma transformação no país.

Nos contratos dos anos 1990, como o da SuperVia carioca, a remuneração da concessionária dependia principalmente da tarifa paga pelos passageiros. Com isso, a firma assumia o risco de uma eventual queda na demanda.

Os contratos mais recentes passaram a dividir mais esses riscos com o Estado. Parte da remuneração passou a estar ligada à disponibilidade do serviço, além de pagamentos públicos fixos. 

A Linha 4-Amarela paulistana, concedida em 2006, foi a primeira experiência desse tipo no setor. A partir dela, novos contratos aprimoraram o modelo – caso do metrô de Salvador, do Metrô de Belo Horizonte e das citadas linhas 11, 12 e 13 de São Paulo.

Também se tornou comum a prática de o governo bancar parte das obras. Segundo Gustavo Gusmão, sócio da EY especializado em infraestrutura, há projetos em que os aportes públicos cobrem de 60% a 70% do investimento durante a construção. 

“Isso traz um conforto, um alívio de caixa muito grande para o parceiro privado”, diz Gusmão.

Os projetos continuam caros e acessíveis a poucas firmas. Mas, com menos riscos concentrados na concessionária e mais apoio público ao investimento, ficou mais fácil financiá-los. Para Gusmão, isso pode ajudar a atrair novos grupos, principalmente estrangeiros.

O desafio de operar em SP

A Trivia assumiu as linhas 11, 12 e 13 da CPTM em 21 de julho. Nos três dias seguintes, uma sequência de falhas prejudicou a circulação. A mais grave ocorreu no dia 23, quando um problema elétrico paralisou trechos das três linhas e levou passageiros a caminhar pelos trilhos.

No mesmo dia, a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) determinou que a CPTM reassumisse temporariamente a operação. Segundo a agência, a Trivia teve uma resposta insuficiente às ocorrências e só poderá voltar quando demonstrar capacidade para operar as linhas com segurança.

A firma contestou a avaliação. “A Trivia Trens sempre cumpriu com todas as suas obrigações contratuais durante todo o período de transição”, afirmou a concessionária em nota.

A CPTM permanece à frente das três linhas enquanto a Trivia passa por uma nova etapa de treinamento e transição.

Os problemas técnicos, porém, não acabaram com a saída da Trivia. Desde que a CPTM retomou a operação, as linhas voltaram a registrar ocorrências envolvendo sinalização, energia e trens, algumas com redução ou interrupção do serviço. Em 1º de setembro, uma falha na rede aérea da Linha 12-Safira  levou passageiros a desembarcar na via.

A previsão é que a operação permaneça com a CPTM até o fim de outubro, depois das eleições. Ao final desse período, o governo deverá avaliar se a Trivia tem condições de reassumir as três linhas. Será a chance aguardada do Grupo Comporte de avançar no transporte sobre trilhos.

Procurada, a Trivia Trens não concedeu entrevista.

Em nota, a firma disse ao InvestNews que o contrato prevê R$ 14,3 bilhões em investimentos ao longo dos 25 anos de concessão, dos quais cerca de R$ 6 bilhões teriam sido antecipados.

Segundo a concessionária, “entre janeiro e julho foram realizadas intervenções em 23 das 29 estações das linhas 11, 12 e 13”. Ainda segundo a Trivia, mais de 2.400 funcionários passaram por treinamentos, que somaram aproximadamente 4 mil horas.

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Autor: Camila Alves Barros

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